







 Esmeralda

   Ruth Langan

   Jias do Texas 1



    Joseph Jewel fora assassinado. E Esmeralda queria vingana. Por isso, invadiu a delegacia disposta a acabar com a vida do principal suspeito, Adam Winter, com
as prprias mos. No entanto, ele acaba inocentado. Esmeralda quer a priso do assassino e resolve provar que ele  o culpado. Alm disso, comeam a aparecer irms
que ela no conhecia... Se entender com as irms, descobrir o assassino e lidar com a paixo pelo maior suspeito so as misses de Esmeralda.

























    Prlogo

    - Precisa comer algo, seorita Esmeralda - insistiu Carmelita Alvarez. O fato de ser cozinheira e governanta da Fazenda Jewel por quase vinte anos conferia-lhe
uma certa liberdade para dar ordens  filha do patro.
    - Ainda no - respondeu a moa de dezoito anos, enquanto espiava pela janela as sombras da noite que j comeavam a se adensar. - Vou esperar papai.
    Carmelita no ignorava o estreito vnculo que unia pai e filha. Mas, em todo caso, decidiu fazer uma ltima tentativa:
    - A comida vai esfriar.
    - Eu lamento. - Esmeralda virou-se parta governanta postada  porta. Sentia-se um pouco constrangida por ter permitido que seus receios a fizessem esquecer as
boas maneiras. - Jos est esperando para lev-la para casa?
    - Si.
    - Ento  melhor voc ir com ele.
    - Mas a comida...
    - Eu a requentarei quando papai voltar. Sabe que no posso comer sem ele. Pode ir sossegada.
    Assim dizendo, acenou displicentemente enquanto a outra se retirava. Depois, ps-se a andar de um lado para outro.
    Onde estaria seu pai? Por que demorava tanto para retornar?
    Deveria ter insistido em acompanh-lo. Sempre estivera ao lado dele. Dessa vez, porm, o pai sara s pressas do escritrio, batendo a porta atrs de si e dizendo
que voltaria para casa mais tarde. Sua repentina mudana de humor assustara Esmeralda. Nunca o vira to colrico. No era do feitio dele alterar-se daquela forma.
    Ela aproximou-se novamente da janela e tornou a espreitar as sombras. O pai no iria demorar. Os dois ento sentariam  mesa e fariam a refeio juntos, enquanto
ele, como de hbito, lhe contaria seus problemas.

    Na ribanceira de Poison Creek, as chamas vivas de uma fogueira iluminavam o rosto atraente de Joseph Jewel, que naquele momento era uma mscara de fria.
    - Sempre fui um homem justo. Esperava que os outros tambm agissem com honestidade! - Ele cerrou o punho e esmurrou a palma da outra mo. - Por qu? - inquiriu
com voz estrangulada, e foi tudo o que conseguiu dizer em meio ao assomo de clera.
    Seu interlocutor, envolvido pelas sombras, conservou-se em silncio. Mas, quando Joseph virou-se, sentiu o cano da pistola pressionar-lhe as costas. Um nico
tiro ressoou na noite.
    Joseph torceu o corpo, os olhos arregalados de choque e surpresa.
    - No... voc, no...
    E ento,  medida que a dor se irradiava em sua carne e ele finalmente compreendia que fora mortalmente ferido, tateou o coldre de sua arma.
    Antecipando-se, o atacante arrebatou-lhe o revlver e atirou-o s guas do riacho, Joseph sentiu uma pontada lancinante de dor, caiu de joelhos e ergueu a mo,
numa pattica tentativa de agarrar o brao do agressor. O outro esquivou-se, dando um passo para o lado. Joseph moveu os lbios inutilmente, incapaz de articular
uma nica palavra. Tombou no solo, com o rosto virado para baixo, e quedou-se imvel.
    Passados alguns instantes, o agressor aproximou-se. Com um gesto vacilante, tocou o pescoo de Joseph e constatou que ele j no vivia.
    Enquanto os cascos do cavalo ecoavam. Levando para longe o cavaleiro solitrio, o sangue de Joseph Jewel vertia de seu corpo inerte. As guas calmas de Poison
Creek refletiam o cu avermelhado com os ltimos raios de crepsculo. A oeste, o pr-do-sol tingido de prpura refletia-se no cume nevado de Widow Peak. Era como
se todo o estado do Texas tambm sangrasse naquele momento...

    Gazeta de Hanging Tree
    1 de dezembro de 1870

    Fazendeiro Assassinado
    O xerife federal Quent Regan foi chamado a Poison Creek para investigar o assassinato de Joseph Jewel, um dos mais ilustres cidados de Hanging Tree, que foi
alvejado pelas costas na noite de 28 de novembro. Um grupo de boiadeiros encontrou o corpo s margens do crrego. O xerife Regan prometeu vasculhar toda a regio
at que o assassino seja apanhado e responda pelo crime. Cal McCabe, capataz da fazenda Jewel informou que a filha de Jewel sua nica herdeira, Esmeralda, se encarregar
da administrao das propriedades da famlia.

    Dias depois, a matria do jornal era copiada em diversas publicaes em todo o pai. No era sempre que uma notcia da pequena cidade texana de Hanging Tree encabeava
manchetes de jornais em grandes centros como Boston, San Francisco ou Saint Louis. Da mesma forma, no era sempre que um homem importante como Joseph Jewel era assassinado,
mesmo em se tratando de um habitante da terra-de-ningum que era o Texas.
    Jewel, criador de gado, havia construdo um imprio de mais de cem mil acres em uma poro inexplorada do territrio texano. E, o que era mais surpreendente,
fizera-o sem atrair uma longa lista de inimigos. Joseph Jewel no s era o cidado mais rico de Hanging Tree, como era tambm o mais querido. Mas algum lhe tirara
a vida. E algum haveria de pagar por isso.



    Captulo 1

    Hanging Tree, Texas
    3 de dezembro de 1870.

    - Lembre-se de que estamos lidando com um assassino perigoso - alertou o xerife Quent Regan. - Pelo que sei Adam Winter no entregar os pontos facilmente. Fiquem
atentos e no se deixem apanhar.
    A escurido ainda dominava a paisagem, embora tnues rstias de luz j pudessem ser vislumbradas no horizonte. Os seis homens, com rifles preparados, haviam
apeado a dois quilmetros dali, deixando as montarias amarradas nas rvores. Em vista da reputao do homem que deveriam rastrear, era prefervel no correr nenhum
risco desnecessrio. No queriam chamar ateno. O elemento-surpresa era seu nico esperana de apanh-lo vivo.
    - Charles, voc e os outros devem cercar o local. Pode haver uma sada nos fundos - instruiu o xerife.
    Seu assistente aquiesceu com um meneio e j foi se esgueirando com outros trs homens na direo da cabana.
    O xerife esperou at que estivessem posicionados. Avanou ento, seguido cautelosamente por um dos homens, que olhava para todos os lados a todo o momento, com
receio de um ataque inesperado.
    O xerife examinou a pequena cabana que sobressaa em meio s trevas. Mal poderia ser definida como uma cabana: mais correto cham-la de choa, com suas paredes
feitas de tbuas toscas que deixavam entrever vos largos o bastante para permitir a passagem de um co de pequeno porte. Havia uma diminuta janela, na qual fora
feito um orifcio para observar a aproximao de estranhos. A porta, que oscilava levemente com a brisa, parecia ter sido amarrada pelo lado de dentro. Se a sorte
ficasse do lado deles, a maneira mais fcil de entrar ali seria arrombando a porta com um vigoroso pontap.
    - Todos prontos? - Sussurrou Regan.
    Ele olhou em torno de si mais uma vez. Colou-se  parede do casebre. Chutou a porta com fora e, no mesmo instante, entrou seguido de perto pelo assistente.
    - No se mova, Winter, ou vou ench-lo de balas! - vociferou. O xerife usava a prpria arma. Convivera tempo demais com os fora-da-lei para saber que, ao carem
em desespero, seriam capazes de tudo para sobreviver. Era preciso subjug-los rapidamente, fazendo-os compreender que no haveria misericrdia.
    Na dbil claridade produzida pelo carvo incandescente da lareira, um homem sentou-se no catre e tentou alcanar sua arma.
    Com o cano do rifle, Regan empurrou para longe a pistola que estava sobre a mesinha ao lado do catre. O homem levantou-se de um salto e arremeteu contra ele.
Regan soltou um gemido de dor quando o outro atingiu-lhe o baixo-ventre com o joelho.
    O assistente, ao ver que o xerife fora derrotado, apressou-se em encostar o cano de seu rifle nas costa do ocupante da cabana.
    - Se mover um nico msculo, ser um homem morto! - ameaou.
    Sem aviso, o outro virou-se e empurrou o rifle para o lado, como se no passasse de uma arma de brinquedo. Porm quando fez meno de pegar sua pistola cada
no cho, a voz do xerife o deteve:
    - Fique parado, Winter. Meu distintivo me d o direito de acert-lo sem um segundo aviso.
    - Distintivo? - repetiu o homem, imobilizando-se
    - Sim. Sou o xerife federal Quent Regan.
    - Por que no se identificou antes? Poderia ter poupado toda essa confuso.
    Percebendo que voltara a ter controle da situao, ao menos momentaneamente, o xerife cruzou o cmodo e apanhou o rifle ao lado da cama, entregando-o a seu assistente.
Nesse momento, os outros homens do grupo invadiram a cabana. Empurravam um velho cujas mos estavam amarradas s costas. Embora sua camisa azul estivesse descorada,
ainda exibia a identificao do exrcito da Unio.
    _ Encontramos esse sujeito dormindo em uma carroa, nos fundos da cabana. Provavelmente estava de vigia e pegou no sono - explicou o assistente de Regan.
    - No estava de vigia coisa nenhuma - protestou o velho. - Fui dormir l fora porque no agentava o calor.
    - Cale a boca ordenou o xerife, virando-se. Apanhou uma camisa ao p do catre e estendeu-a para Adam. - Vamos, Winter. Vista isto. Tem uma longa cavalgada pela
frente.
    - Para onde vo me levar? - perguntou ele. Sua voz era profunda, deixando transparecer uma ira contida.
    - Para o inferno, que  seu lugar - respondeu Regan com uma gargalhada.
    Adam Winter deu um passo  frente. Os seis homens, a despeito de estarem empunhando rifles, retrocederam involuntariamente. Adam tinha uma figura imponente,
que emanava fora e algo ainda mais assustador: uma genuna fria.
    - Mas o que significa isto? - ele inquiriu. Encarou o xerife e sustentou o olhar.
    - Ora, no sabe mesmo? - espicaou Quent. - Suponho que tenha ouvido falar do assassinato de Joseph Jewel.
    - Sim. E o que tenho a ver com isso?
    - Voc se estabeleceu nos limites da propriedade de Jewel.
    Adam permaneceu em silncio. Mas os msculos de seus braos dilataram-se quando ele cerrou os punhos. Todos ali notaram seu movimento e prepararam-se para abrir
fogo.
    - Pelo que sei, no  crime tentar ganhar a vida honestamente.
    - Acontece que a gua que voc usa para matar a sede de seu gado vem de uma fonte das terras de Jewel. E meu assistente, Charles, ouviu Joseph Jewel dizer ao
capataz da fazenda que mantivesse seu rebanho a distncia.
    - Isso no faz de mim um assassino.
    - Talvez. Quem dir  o juiz. Charles, contudo, tambm ouviu voc ameaar Joseph de morte se ele continuasse a represar a gua acima de suas terras. No sei
de onde veio, Winter, mas aqui no Texas j vi homens matarem por muito menos. Agora, chega de conversa. Trate de se vestir.
    - Parece que voc vai ficar um bom tempo atrs das grades - zombou Charles. - E a cidade ver um belo espetculo quando for executado em praa pblica.

    A colina estril avultava-se sobre a fazenda Jewel, fustigada pelo vento, o que acentuava sua atmosfera de melancolia. Parecia-se com os demais morros ao redor,
exceto pela cova recm-cavada. Hanging Tree comparecera em peso ao enterro para presenciar a ltima jornada de Joseph Jewel. A despeito da presena do pastor em
seu sbrio terno negro, a multido parecia quase festiva. Homens e mulheres vestiam seus trajes domingueiros e, vez por outra, ouvia-se o riso de uma criana que
cortava o ar da manh.
    Uma nuvem de poeira erguia-se dos cascos dos cavalos  medida que uma longa fila de boiadeiros adiantava-se no cortejo que partia da fazenda, seguido por uma
nica carroa. Trotando  beira da estrada ia um cavalo com a sela vazia. Os pees haviam apeado da montaria e formavam duas colunas; postavam-se respeitosamente
enquanto seis vaqueiros retiravam um caixo simples de pinho e levavam-no at a sepultura.
    Uma figura solitria, vestida como os outros vaqueiros, caminhava lentamente atrs dos homens. Quando o cortejo se deteve, a figura ergueu a mo delicada e tirou
o chapu deixando a vasta cabeleira ruiva ao sabor do vento.
    - No  de bom-tom uma dama comparecer a um funeral usando roupas de vaqueiro. - cochichou a mexeriqueira Lavnia Thurlong.
    - Sobretudo no enterro do prprio pai - acrescentou sua vizinha Gladys Witherspoon. - Mas desde quando Esmeralda Jewel se preocupa em ter bons modos? Alis,
nesse particular ela puxou ao pai.
    - Isso l  verdade. Se voc soubesse o que aconteceu outro dia... - comeou Lavnia, mas o olhar severo de seu marido fez com que a calasse.
    As duas mulheres ento guardaram silncio, concentrando-se nas palavras do pastor:
    - Do p viemos e ao p retornaremos.  assim que o homem vive e, como nosso estimado Joseph Jewel, deve enfrentar a morte sem medo para entrar no reino dos cus.
- Ele lanou um olhar grave ao eu rebanho de fiis. - Que essa seja uma lio para todos ns. Vivamos como Joseph Jewel e nada temamos quando a morte vier anunciar
nossa hora derradeira neste mundo.
    Esmeralda Jewel postava-se sozinha, fitando o caixo do pai. No era a morte que lhe provocava temor, e sim a vida solitria que teria dali por diante.
    s vezes parecia-lhe estar sonhando. No era possvel que aquilo tivesse acontecido. O pai e ela sempre haviam sido companheiros inseparveis. Esmeralda mal
se lembrava da me, que perdera quando ainda era um beb. Mas a imagem do pai permanecia viva em sua memria. Dolorosamente viva.
    Dois vaqueiros ajudaram a baixar o caixo na cova. A um sinal do pastor, Esmeralda lanou a primeira p de terra. Teve de se controlar para no irromper em pranto.
    - Voc no est nesse caixo, papai - murmurou baixinho. - Voc est bem aqui, a meu lado, como sempre. No posso v-lo, mas sei que est comigo.
    Ele afastou-se, de modo que os outros pudessem prestar sua ltima homenagem ao morto. O capataz Cal McCabe cabisbaixo, deitou mas uma p de terra sobre o caixo.
Logo atrs vinha mancando o cozinheiro que preparava a refeio dos pees da fazenda. Uma lgrima rolou por sua face, e ele enxugou-a com as costas da mo.
    Ao observar os vaqueiros que se sucediam em uma melanclica procisso, Esmeralda apertou os olhos. Fungou, mordeu o lbio com fora. No podia se permitir tal
demonstrao de fraqueza. Era uma texana orgulhosa e dura na queda. Fora educada para ser uma Jewel. Isso impunha-lhe a responsabilidade de ser mais forte, mais
honesta, mais disciplinada que os demais.
    No entanto, naquele momento, estava prestes a desmoronar. Perdera o que mais amava no mundo. E no havia nada que pudesse fazer para recuperar o que havia perdido.
Sentia-se totalmente desamparada.
    Forou-se a erguer o queixo e olhou  frente. Ouviu os murmrios da multido e percebeu os olhares dissimulados que lhe eram endereados. Preferiu ignor-los.
Como era possvel que aquela gente fosse reparar em suas roupas em um momento de tamanha dor? A nica coisa que lhe importava era que o pai fora alvejado pelas costas.
E ela haveria de vingar aquele ato covarde.
    Esmeralda viu quando o banqueiro Chester Pierce levantou a p e lanou terra dentro da cova. Depois ele virou e abraou-a. Ela reprimiu um soluo.
    - Oh, tio Chet... - disse em voz entrecortada.
    O banqueiro deu-lhe uma palmadinha confortadora no ombro.
    - Sei como se sente, minha querida.
    Embora no tivesse laos de parentesco, Pierce era muito prximo da famlia e Esmeralda sempre o chamara de tio. Ele cuidara das finanas da famlia nos bons
e maus momentos. Muito tempo antes, havia emprestado a Jewel a soma necessria para comprar seu primeiro rebanho e cobrir a folha de pagamento dos pees. Joseph
retribura-lhe em dobro, mantendo-se um cliente fiel mesmo quando outros bancos mais prsperos ofereceram-lhe seus servios. A amizade entre os dois homens acabara
beneficiando Hanging Tree, pois a prosperidade de Joseph possibilitava que Chet fizesse emprstimo a pequenos comerciantes; assim, o banco de Pierce tornava-se o
mais slido do Texas.
    Quando a ltima p de terra foi atirada sobre o caixo, a carismtico reverendo Wade Weston deu um passo  frente e segurou a mo de Esmeralda, tentando consol-la.
    - Joseph agora descansa em paz - disse.
    - Em paz? - A voz de Esmeralda soou mais alta do que ela pretendera, distorcida pela fria. - Meu pai nunca descansar em paz enquanto o covarde que o matou
no balana na forca!
    - No alimenteis o sentimento de vingana, disse o Senhor.
    - No, reverendo. Eu vou vingar a morte de meu pai! - ela replicou, desvencilhando-se.
    Nesse momento, a aproximao de um cavaleiro a galope fez todos se virarem. Os presentes ento abriram caminho para deixar passas o homem alto e queimado de
sol. Era o xerife federal.
    Ele parou diante de Esmeralda.
    - Achei que gostaria de saber que esta manh prendi um homem pelo assassinato de seu pai - declarou Quent Regan.
    Esmeralda ergueu a cabea bruscamente para encar-lo. Seus olhos verdes se estreitaram.
    - Quem  ele?
    - Adam Winter. Recm-chegado a Hanging Tree. No sabemos muita coisa a seu respeito... - Regan fez uma pausa e tocou o ombro que fora machucado no confronto
com o prisioneiro. - Exceto que tem pavio curto e  rpido no gatilho. Ele vive nas terras que fazem fronteira a oeste com a fazenda Jewel. Afirma que as terras
lhe pertencem, mas pode estar mentindo.
    O xerife olhou de forma significativa para Chet Pierce, que encolheu os ombros, dizendo:
    - No conheo esse Adam Winter. Pode ser um foragido.
    - Onde ele est agora? - Esmeralda perguntou ao xerife, ansiosa.
    - Na priso.
    - Quero v-lo.
    - Talvez fosse melhor esperar...
    - Quero v-lo agora - insistiu ela, num tom perigosamente suave.
    Ningum jamais contrariava Esmeralda quando ela usava aquele tom. Regan no di exceo.
    Passou pelos curiosos com passo rpidos, acompanhada por alguns vaqueiros. Muitos daqueles homens trabalhavam para Joseph h anos. Mas mesmo aos que tinham chegado
 fazenda recentemente sabiam que Jewel era um homem de valor. Quanto Esmeralda, os pees a respeitavam do mesmo modo. Alm da riqueza, ela havia herdado do pai
a integridade de carter e uma determinao frrea.
    Esmeralda montou no cavalo com um movimento fluido, impaciente. Sem olhar para trs, partiu a toda pressa.
    Vendo-a afastar-se, o reverendo Weston sentiu uma sbita onda de simpatia pelo desconhecido que estava prestes a provar um pouco da fria de Esmeralda Jewel.
    - O funeral est encerrado. - anunciou.
    Porm, quando olhou em torno de si, constatou que suas palavras haviam sido desnecessrias. Os presentes j estavam se dispersando rapidamente, pois no queriam
perder o espetculo que em breve aconteceria na cidade.

    Zebulon Forrest, o velho desgrenhado que fora detido com Adam, tivera a liberdade restituda quando o xerife soubera que apenas trabalhava para Winter.
    - O assistente do xerife est dizendo que j chamaram um juiz federal para cuidar do caso - disse Zebulon.
    - O juiz que decida se sou inocente - retrucou Adam.
    - Ficou louco, homem? No pode ficar a, de braos cruzados! Essa gente est pronta para assistir a um enforcamento. Algum matou o heri da cidade e agora todos
esto com sede de sangue. - O outro apertou as grades da cela, sem esconder a frustrao. - Pelo que ouvi dizer, o pessoal daqui tem fama de enforcar primeiro e
deixar as perguntas para depois. Precisamos fazer alguma coisa para tirar voc da cadeia.
    - Se h algo que aprendi nesta vida  que no se pode mudar o destino.
    - Que diabo, Adam!
    Zeb conhecia-o h muito tempo e sabia que ele estava pensando. Afinal, haviam lutado lado a lado e passado por maus bocados juntos. Mas uma coisa era certa:
No se tratava de destino naquele caso. O fato  que um xerife federal de meia-tigela estava procurando um bode expiatrio para o assassinato de Jewel.
    - Tem de lutar, parceiro! No  de o seu feitio entregar os pontos assim.
    Adam levantou-se do catre e comeou a andar de um lado para outro.
    - Deixe estar, Zeb. No h nada...
    Ele emudeceu quando a porta se escancarou repentinamente, dando passagem ao xerife e a um grupo de vaqueiros.
    - A est o assassino de seu pai, srta. Jewel.
    - Deixe-me a ss com ele - disse Esmeralda, tomando flego.
    Todos fizeram a vontade, retirando-se de imediato. E, como Zeb no fizesse meno de se mover, o xerife puxou-o pelo brao, obrigando o velho a acompanh-lo
a contragosto.
    Esmeralda esperou que a porta se fechasse. A arrancou o chapu com um gesto irado e perscrutou o estranho que a encarava atravs das grades. Deveria ter imaginado
que se tratava de um homem alto e forte. Do contrario, nunca teria conseguido subjugar seu pai.
    Adam Winter tinha espduas largas e braos musculosos. Seus cabelos negros chegavam-lhe quase  altura dos ombros. A barba por fazer marcava-lhe o rosto anguloso
com uma sombra azulada. Os olhos eram cinza e cravaram-se nela quando Esmeralda, momentaneamente intimidade, tentou desviar o olhar.
    Ele examinou a mulher esguia  sua frente. Tivera um choque quando ela tirara o chapu.  primeira vista, a julgar por suas roupas, imaginara que fosse mais
um vaqueiro da regio. Mas ento fora brindado com a inesperada viso daqueles cabelos cor de fogo que lhe cascateavam at a cintura. Um raio de sol, que se infiltrava
pela minscula janela da cadeia, incidia nas mechas ruivas e delineava os contornos suaves do corpo feminino, os seios firmes sob a camisa rstica, a cintura esbelta.
Os quadris estavam cingidos com um cinto onde se viam dois coldres vazios. Na certa, o xerife confiscara as armas dela.
    Sob as sobrancelhas finas, um par de olhos verde o fitava com desconfiana.
    - O xerife disse-me que seu nome  Adam Winter.
    - Sim - ele confirmou cautelosamente.
    - Por que matou meu pai? - inquiriu Esmeralda  queima-roupa.
    - No matei seu pai, srta. Jewel. O xerife pegou o homem errado.
    Os olhos dela chisparam. E a sua voz soou com dor e ultraje.
    - No minta! Acabei de vir do enterro de meu pai. Ele era a nica pessoa que eu tinha no mundo. Ser que pode imaginar como estou me sentindo? Como pode ter
coragem de sustentar essas mentiras?
    Adam ficou em silncio. Mas algo em seu olhar espelhou o sofrimento de Esmeralda.
    Ela mal notou sua reao. Sem aviso, curvou-se e apanhou uma pistola no cano da bota. Endireitou-se e apontou a arma para Adam.
    - Eu deveria mat-lo pelas costas, como fez com meu pai. Mas quero que olhe bem para mim quando estiver morrendo, seu miservel...
    Adam foi to rpido, que nem lhe deu tempo de concluir a ameaa. Com um nico movimento, agarrou-lhe o pulso e puxou-o atravs das barras de ferro. Torceu-o
at forar Esmeralda a soltar a pistola. Usando a mo livre, ele imobilizou-a pelo ombro, comprimindo-a contra as grades.
    - Sua tola - disse entre dentes. - Quer mesmo que a morte de um homem inocente lhe pese na conscincia pelo resto de seus dias?
    Ela podia sentir a fora das mos msculas, o hlito morno que lhe roava a face. E via nos olhos cinza uma terrvel clera que se equiparava  sua
    Nunca um homem ousara toc-la daquele modo, to ntimo e ao mesmo tempo selvagem. Agora, capturada contra a vontade, era dominada por uma estranha onda de calor.
Calor que brotava da raiva, ponderou.
    - Solte-me. - Esmeralda surpreendeu-se com a prpria dificuldade de falar.
    - Eu a soltarei quando achar que devo faz-lo - replicou Adam, segurando-a com firmeza.
    Ela no era frgil ou pequena. Mas era suave como s uma mulher poderia ser. E, a despeito de suas maneiras pretensamente duras, estava confusa e assustada.
    Toda a indignao que se apoderara de Adam momentos antes pareceu evaporar-se. Ele soltou-a e inclinou-se para apanhar a pistola cada no cho. Ao se aprumar,
viu que os olhos verdes o espreitavam com medo. Quase no mesmo instante, o medo deu lugar a uma expresso desafiadora.
    - Vamos, atire logo em mim, Adam Winter! Seja como for, voc j  um homem morto. A justia o far pagar por seus crimes.
    Esmeralda ficou completamente sem ao quando ele lhe devolveu a pistola. Sua atitude era temerria, Adam bem o sabia, mas tinha de correr o risco. A moa ainda
poderia resolver atirar. Mas ele estava apostando que, quela altura, j estaria mais calma.
    Os dedos dele resvalaram nos seus quando lhe entregou a arma, Esmeralda estremeceu. Afastou a mo depressa, como se sua pele queimasse.
    - Se for esperta, srta. Jewel, guardar a pistola antes que o xerife a veja. Ele no gostaria que seu prisioneiro fosse alvejado antes que a cidade pudesse assistir
a uma execuo pblica.
    Esmeralda teve de admitir que Adam tinha razo. Com grande relutncia, tornou a enfiar a pistola no cano da bota.
    - Quando voc for enforcado, me encarregarei pessoalmente de preparar a corda - ameaou.
    - Compreendo como se sente. Se estivesse no seu lugar, no agiria de forma muito diferente - disse ele num tom severo.
    - V para o inferno, Adam Winter! No me venha com hipocrisias! Ningum jamais saber como estou me sentindo. Jamais!
    Dito isso, ela girou sobre os calcanhares e saiu batendo a porta com violncia.
    No pesado silencio que se seguiu, Adam, cabisbaixo, cerrou os punhos. Zeb no se enganara. A cidade estava pronta para armar o grande espetculo de uma execuo
pblica. Infelizmente, era o pescoo dele que estava em jogo.


    Captulo 2

    - O que o Sr. Jewel lhe disse sobre o rebanho do acusado, Sr. McCabe?
    O juiz Bernard Thompkins dirigia-se ao capataz da fazenda, mas sua ateno era atrada para os rostos extasiados dos homens e mulheres que lotavam a sala. Como
era de esperar, os habitantes da regio estavam fascinados com a cena.
    Thompkins viajara regularmente pelo Texas, presidindo julgamentos que envolviam assassinato e roubo de banco. Tinha plana conscincia de que seus modos austeros
e sua presena teatral causavam viva impresso quela gente simples. E, de certa forma, as salas de julgamento eram uma espcie de palco para ele, que na juventude
havia acalentado o sonho de se juntar a uma trupe de atores. Quisera o destino porm, que fosse trabalhar na firma de advocacia do pai. Trinta anos haviam se passado
desde ento.
    - O Sr. Jewel disse que era para levar o gado de Adam Winter para fora da propriedade e mant-lo a distncia - respondeu McCabe, pouco  vontade. No via a hora
de sair daquela sala abarrotada e voltar  fazenda.
    Houve um burburinho na audincia, e o juiz exigiu silncio. O julgamento estava sendo conduzido na sala dos fundos do armazm de Durffe. Era o nico recinto
grande o bastante para acomodar a multido de curiosos que viera ver Adam Winter de perto. Os que no tinham conseguido entrar apinhavam-se do lado de fora, disputando
um posto de observao privilegiado junto  janela.
    At aquele dia, diga-se de passagem, a mesa do juiz exibira apenas uma farta amostra de anguas, corpetes e outros artigos femininos.
    O xerife federal e seu assistente ladeavam Adam, que fora trazido  sala com as mos e os ps acorrentados. Regan imaginara que usar correntes seria uma boa
idia. O plano era que Winter exalasse culpa por todos os poros.
    Algumas cadeiras haviam sido enfileiradas para acomodar os cidados ilustres, como o prefeito e sua esposa, o pastor, o banqueiro e, claro, Esmeralda Jewel.
Os demais moradores foram obrigados a assistir o julgamento de p. E todos estavam agitadssimos. Tinham se levantado mais cedo para cuidar de suas tarefas, a fim
de estarem livres para comparecer  audincia, e agora vestiam sua melhores roupas. Aquele era um belo dia para um enforcamento.
    - O assistente do xerife, Charles Spitz, sustenta que o acusado ameaou o Sr. Jewel - prosseguiu Thompkins. - Voc ouviu essa ameaa?
    - No, senhor - admitiu o capataz, contrariado. Fizera um juramento. Agora no podia faltar com  verdade. Mas bem que gostaria de se lembrar de tal ameaa.
    Diante de sua negativa, o juiz cravou seu olhar duro no assistente do xerife, que se sentava ao lado do prisioneiro.
    Charles corou e engoliu em seco, o que fez seu pomo-de-ado mover-se visivelmente. Achava que se lembrava de ter ouvido uma ameaa, mas j no tinha tanta certeza
disso. O fato  que, na ocasio, estivera torcendo para Jewel e Winter se pegarem. Adorava uma boa briga.
    - Obrigado, Sr. McCabe.
    Assim dizendo, o juiz virou-se para um homem magro como uma vara, de cabelos castanhos ralos. O olhar tristonho dele, por trs dos culos, lembrava vagamente
um co abandonado.
    - Deseja fazer perguntas, Sr. Burton?
    - Sim, Meritssimo - disse Rayford Burton, levantando-se.
    Houve um momento de suspense. Quando recebera o telegrama de Zeb, o advogado largara tudo e correra para ajudar o antigo sargento de seu exrcito, sobretudo
depois de saber que o acusado era Adam Winter. Quando ele ainda era um jovem e inexperiente recruta, Adam o ensinara a vencer o medo. Em meio ao calor de um combate,
Rayford teria levado um tiro se o outro no o tivesse puxado para o cho, deixando-o abrigado atrs de uma rvore cada at que sua coragem finalmente se manifestasse.
    Depois que Spitz prestou juramento, Thompkins inquiriu:
    - Vou lhe fazer a mesma pergunta que fiz ao Sr. McCabe. Alguma vez ouviu o acusado ameaar o Sr. Jewel?
    - Bem... no exatamente com palavras. Mas quando Adam Winter soube da barragem, ficou furioso. No me surpreenderia se ele atacasse um homem desarmado...
    - E o que faz pensar que o Sr. Jewel estava desarmado? - Rayford interrompeu, levantando-se.
    Charles quase engasgou.
    - Oh, ele foi morto pelas costas.
    O juiz fitou-o com austeridade.
    - Sabe de alguma coisa que as pessoas nesta sala ignoram, Sr. Spitz? - pressionou.
    - No encontramos a arma do Sr. Jewel. Acontece que ele era exmio atirador e sempre andava armado. Se tivesse consigo seu revlver, na certa levaria a melhor.
Por isso foi morto pelas costas por esse covarde...
    - Agradecemos sua brilhante observaes, Sr. Spitz - interrompeu Thompkins secamente. - Deseja fazer alguma pergunta  testemunha, Sr. Burton?
    - No, Meritssimo.
    - Nesse caso, chamarei o Sr. Ezra Constable para prestar depoimento.
    Todos olharam em torno de si, consternados, pois jamais haviam ouvido aquele nome. Quando o velho Cookie se apresentou, o riso foi geral.
    - Esse no  o seu nome? - perguntou-lhe Thompkins.
    - Sim. Mas ningum me chama pelo nome de batismo.
    - Est bem. H quanto tempo conhecia Joseph Jewel?
    - Mais de vinte anos. Trabalhava como peo na propriedade, mas um dia quebrei a perna e nunca mais consegui montar. Ento comecei a cozinhar para o pessoal da
fazenda.
    - No tenho mais nada a lhe perguntar. Passarei a palavra ao Sr. Burton, que o solicitou como testemunha.
    Mais uma vez, Rayford cruzou a sala.
    -  verdade que o senhor e a vtima tiveram uma discusso na vspera do crime? E que o senhor lhe disse que procurasse outro cozinheiro?
    Cokkie enxugou a testa nervosamente com um leno antes de responder:
    - Bem, posso ter dito qualquer coisa assim. Mas no quis dizer...
    - Se entendi, o senhor costuma dizer coisas que no quer dizer?
    - Sim... Isto , no... Que coisa! - ele explodiu por fim. Mas evitou o olhar de Esmeralda, que o encarava cheia de estupefao. - Joseph queria que eu cozinhasse
na casa principal. Como se eu no passasse de uma velha governanta! Isso eu no poderia tolerar!
    - E, assim, resolveu abandonar o trabalho - Rayford concluiu com suavidade.
    - Que coisa... sim. Mas foi s da boca para fora. Joseph sabia que eu jamais o abandonaria.
    - Se ele sabia disso, de que adiantaria ameaar ir embora.
    O cozinheiro torceu as mos e balanou a cabea.
    - Aquilo foi uma asneira.  que eu fiquei realmente ressentido.
    - E ai resolveu dar o troco?
    - Ora, no est insinuando que...
    - A testemunha est dispensada - interveio o juiz Thompkins. - Quero ouvir agora a verso de Adam Winter.
    Comoo geral. Todos queriam ver o acusado. Pouca gente o vira face a face e corriam boatos de que havia matado pelo menos uma dzia de homens inocentes. Diziam
as ms lnguas que seu rosto estava impresso em um cartaz pendurado em todos os postos de xerife do Novo Mxico. Pelo que se sabia, era um beberro violento, um
pistoleiro de aluguel sem escrpulos. Um verdadeiro facnora desalmado, em suma.
    Enquanto Adam prestava juramento, Esmeralda examinou-o atentamente. Exceto pela barba crescida, os dias passados na cadeia no parecia t-lo afetado em nada.
Mantinha uma pose altiva, quase arrogante.
    - No dia do crime, consta que discutiu com a vtima - comeou o juiz.
    - Sim - confirmou Adam com voz firme, na qual no havia nenhum trao de constrangimento.
    Seu olhar penetrante percorreu a sala e foi pousar em Esmeralda. Sentindo-se subitamente devassada, ela enrubesceu e baixou o rosto. Ficou enervada consigo mesma.
O maldito homem lembrava-lhe um leo da montanha. Naquele instante, Esmeralda acreditava em cada palavra do que diziam dele. Era um assassino de alta periculosidade.
Se algum fosse tolo o bastante para alvej-lo Winter provavelmente agarraria a bala com os dentes.
    - Sobre o que discutiram? - interrogou Thompkins.
    - Gado e gua.
    - Poderia ser mais explcito, Sr. Winter?
    Enquanto o juiz falava, Adam sentia o olhar intenso de Esmeralda sobre si. Embora detestasse admiti-lo, havia algo muito perturbador naqueles olhos verdes e,
inconscientemente, crispou as mos nas correntes que o tolhiam.
    - Joseph Jewel e seu capataz trouxeram-me um bando de cabeas de gado desgarradas - esclareceu. - Joseph advertiu-me que, se tornasse a encontrar meus animais
em suas terras, no os mandaria de volta. Disse que no havia construdo sua fortuna alimentando o gado dos outros.
    - E isso o aborreceu?
    - Evidentemente. Eu repliquei que meu gado no iria para sua fazenda se os malditos pees no tivessem represado o rio, deixando meus animais mortos de sede.
    - Como ele reagiu?
    - Afirmou que no tinha conhecimento da barragem. A Cal McCabe alegou que no sabia de represa nenhuma e me acusou de estar mentindo. Ento eu lhes disse que
me acompanhassem para verem com seus prprios olhos os danos causados pela barragem.
    Sem perder o menor de seus gestos, Esmeralda ouvia-o com crescente indignao. Podia bem imaginar a ira do pai ante a insinuao de que estava privando Adam
de sua preciosa gua. Naquela regio, isso seria considerado pior que roubar um cavalo. Ora, indagou-se ela, por que um homem rico como seu pai iria se importar
com a insignificante poro de gua consumida pelo gado de Adam Winter? Como  que aquele mentiroso covarde tinha coragem de acusar Joseph Jewel de tamanha mesquinharia?
    - O que aconteceu depois, Sr. Winter? - prosseguiu o juiz.
    - Quando viu o rio quase seco, Jewel ordenou a seu capataz que destrusse a barragem. E eu lhe dei minha palavra de que no deixaria mais meus animais ultrapassarem
os limites da propriedade.
    - O Sr. Jewel ficou satisfeito com o acordo?
    - Eu diria que sim. Ns trocamos um aperto de mo e ele seguiu seu caminho.
    - E o Sr. McCabe? Tambm ficou satisfeito?
    Adam meneou a cabea de modo negativo.
    - Ele disse que no acreditava que seus pees fossem responsveis pelo represamento da gua. Acusou-me de haver bloqueado o curso do rio como pretexto para que
meu gado invadisse as terras de Jewel.
    - O Sr. McCabe ficou alterado?
    - Sim. Achei que depois se acalmaria e resolveria a situao com Jewel.
    O juiz virou-se para o jovem advogado de defesa.
    - Alguma pergunta, Sr. Burton?
    Rayford ergueu-se da cadeira e dirigiu-se para o acusado. Queria enfatizar as palavras de Adam.
    - Ento voc e o Sr. Jewel se separaram em termos amigveis?
    - No se poderia dizer que fssemos amigos. Mas ao menos chegamos a um entendimento e nos respeitvamos um ao outro.
    Respeito? Esmeralda franziu o cenho. Ser que seu pai respeitaria um homem como aquele? Uma coisa os dois tinham em comum: a origem humilde. Mesmo assim, ela
duvidava que o pai pudesse admirar um crpula.
    - Quantas armas possui, Sr. Winter?
    Adam apertou os olhos.
    - Duas. Uma pistola Remington de seis tiros e um rifle de caa.
    Rayford fitou-o ligeiramente desconcertado.
    -  um bocado de poder de fogo. Estava se preparando para uma guerra?
    A expresso de Adam permaneceu impassvel. Mas um brilho efmero animou-lhe os olhos enevoados.
    - Aprendi que nesta vida um homem precisa ser prevenido.
    Thompkins inclinou-se imperceptivelmente para ouvir melhor.
    - E usou uma dessa armas na noite do crime, Sr. Winter?
    - No.
    Rayford virou-se para o juiz.
    - No tenho mais nada a perguntar ao ru. Gostaria de interrogar o Dr. Prentice.
    - Est dispensado, Sr. Winter - declarou Thompkins.
    Atendendo  solicitao do advogado, o mdico da cidade adiantou-se e fez seu juramento.
    - Tenho apenas uma pergunta para o Dr. Prentice.  muito simples: depois de examinar o corpo da vtima, poderia dizer se o ferimento fatal foi produzido por
uma destas armas?
    Cosmo Prentice examinou as duas armas que Rayford lhe apresentou, enquanto examinava a audincia aguardava sua resposta com crescente expectativa.
    - Nem por sonho.
    A audincia deixou escapar um coro de exclamaes.
    - A arma que matou Joseph Jewel  o que eu chamaria de uma arma de cavalheiro - continuou o mdico. - Uma pistola pequena que poderia ser ocultada na manga da
camisa de um jogador ou na bolsa de uma dama. A bala produz uma perfurao muito pequena ao atravessar os tecidos. S tem eficcia a pouca distncia.
    - Obrigado, doutor - agradeceu Rayford. Pela primeira vez, sentia que havia esperana de salvar Adam.
    Thompkins voltou-se para o xerife federal.
    - No  necessrio que venha para o banco de testemunhas, Quent. Mas lembre-se de que ainda est sob juramento.
    Regan aquiesceu e, hesitante, ps-se de p.
    - Voc vasculhou a cabana do acusado? - inquiriu o juiz.
    - Sim. Meus homens e eu revistamos cada centmetro do lugar. No deixamos escapar nenhum detalhe.
    - Nesse caso, o ru no podia ter nenhuma arma escondida na cabana ou nos seus arredores.
    - Bem, no foi isso o que eu quis dizer... - retraiu-se Quent.
    - Mas acabou de afirmar que virou a cabana de pernas para o ar.
    Regan engoliu em seco e foi obrigado a concordar.
    - Obrigado, xerife.
    Thompkins e Rayford ento trocaram um olhar significativo. Apesar de sua inexperincia em casos de assassinato, o jovem advogado percebia que a acusao contra
Adam cara por terra.
    - Em vista das evidncias, o ru deve ser liberado. Como nenhuma de suas armas foi usada contra a vtima, s me resta declar-lo inocente - anunciou Thompkins.
    Nesse momento, a multido irrompeu em gritos irados. Afinal, queriam justia. E, para ele, justia significava a condenao do ru e uma execuo pblica.
    O juiz levantou-se e apontou um dedo para o xerife, deleitando-se com a cena melodramtica.
    - Quent, providencie para que esta sala seja esvaziada para garantir a segurana do prisioneiro. Depois tire suas correntes. Ele agora  um homem livre.
    Zeb correu para abraar Adam.
    - Sabia que voc se safaria!
    - Pois sabia mais do que eu, amigo. Obrigado por ter chamado Burton para me defender. - Adam virou-se para apertar a mo do advogado. - Estou em dvida com voc,
Rayford.
    - Que nada. Considere isso como um pequeno gesto de reconhecimento pelo que j fez por mim. Alm do maus, eu nunca havia participado de um julgamento. Achei
altamente estimulante. Estou pensando em me especializar nisso.
    - Pois se decidir exercer a profisso no Texas, me avise. Pelo ar hostil dessa gente aqui, talvez eu v precisar de seus servios no futuro.
    Os dois se despediram. Adam j ia se afastando quando sentiu que lhe cutucavam o brao. Virou-se e ficou frente a frente com Esmeralda Jewel.
    Ela estava fora de si.
    - pesa que vai ficar impune? Pois pense duas vezes! Eu farei justia com minhas prprias mos, nem que tenha de persegui-lo at o inferno!
    Adam manteve-se imperturbvel. Mas os olhos cinza rebrilharam, traindo seu verdadeiro estado de esprito. Os dedos fortes fecharam-se em torno do brao de Esmeralda.
Ela tentou retroceder, mas Adam puxou-a para si.
    - No me ameace, srta. Jewel. E no tente me encurralar. No iria gostar de me ver irritado.
    - No tenho medo de voc! - mentiu ela, erguendo o queixo de modo desafiador.
    - Pois deveria.
    Adam inclinou-se ligeiramente, os olhos insondveis e a boca sensual curvando-se num enigmtico sorriso.
    Esmeralda fitou-o sem pestanejar, como que hipnotizada. De repente, caindo em si, esquivou-se com um safano e precipitou-se para a porta, esbarrando em uma
ou outra pessoa que lhe atravessavam o caminho.
    - Hum, parece que voc atiou a gatinha de Jewel. Cutucou-a com vara curta e ela mostrou as garras - observou Zeb, parando ao lado de Adam.
    - No  uma gatinha.  uma gata selvagem - replicou Adam enervado.
    Mas, quando cerrou os punhos com raiva, percebeu que suas mos tremiam levemente.


    Captulo 3

    Esmeralda entrou como um furaco na casa da fazenda. Ainda estava profundamente abalada devido a seu encontro com Adam Winter. O dio que tinha dele e sua determinao
de v-lo balanar na forca cresciam a cada minuto. Fosse como fosse, a clera era um sentimento com o qual sabia lidar. Bem diferente era o vazio que se instalara
em seu corao, deixando-a paralisada e insegura.
    Ao entrar no escritrio do pai, estacou de repente.
    - Tio Chet... o que est fazendo aqui?
    Chester Pierce contornou a mesa de Joseph, abrindo os braos para ela.
    - Sei que est atravessando uma fase muito difcil, querida. Quero ajud-la no que estiver a meu alcance. Seus empregados tero de receber o pagamento no final
do ms. Eu poderia deduzir o dinheiro de seu crdito e voc me devolveria depois.
    - Oh, tio Chet, obrigado. Mas no  necessrio. S terei de pagar os empregados dentro de algumas semanas.
    - Ento deixe que cuide pelo menos da contabilidade de seu pai. Uma moa com voc no deve se preocupar com esses detalhes enquanto est de luto.
    Comovida com o carinho dele, Esmeralda deixou-se abraar, fitando-o com olhos marejados. Beijou-o na face e esboou um sorriso triste.
    - Obrigado, tio. Mas papai me ensinou a cuidar das contas e, se pretendo ocupar o lugar dele daqui por diante,  melhor comear a administrar os negcios agora
mesmo.
    - Ningum jamais ocupar o lugar de Joseph Jewel. Nunca existir outro homem como ele - disse o banqueiro com a voz embargada.
    Foi tudo quanto bastou para que Esmeralda ficasse  beira do pranto. Segurando-o gentilmente pelo brao, conduziu-o at a porta, embaraada demais para permitir
que ele presenciasse suas lgrimas.
    - Nunca me esquecerei de sua bondade - sussurrou enquanto o abraava.
    Ficou a olhar Pierce enquanto caminhava at a sua carruagem. Depois correu para o quarto, no andar superior, e lavou o rosto com gua fria. No se entregaria
 dor. No poderia. Jamais reconheceria as prprias fraquezas, por isso seria o mesmo que admitir que no estava  altura do legado do pai. Transformaria seu sofrimento
em trabalho.
    Aos olhos de Esmeralda, o trabalho era uma maneira saudvel de lidar com as emoes desencontradas que fervilhavam em seu ntimo.

    Cal McCabe andava de um lado para o outro no gabinete de Jewel. Esmeralda mandara cham-lo, mas, quando ele ali chegara, encontrara o recinto vazio. Tal pai,
tal filha, pensou o capataz com desgosto, Joseph tambm costumava agir assim. Convocava um empregado e fazia-o esperar. E tremer nas bases.
    Cal foi at a janela e espiou a paisagem l fora. Amava aquele lugar. Amava os espaos abertos, o trabalho duro, a camaradagem entre os pees. Amava at mesmo
o gado que pastava pelas plancies. E o que mais receava no momento  que estivesse prestes a perder tudo aquilo por causa do seu temperamento explosivo.
    Joseph o compreendia. Mas Esmeralda era diferente...
    Ao perceber a presena dela no escritrio, McCabe virou-se prontamente. Viu-a parada  porta, olhando para a mesa do pai com expresso ausente. Parecia diferente,
e Cal levou alguns segundos para descobrir por qu. E ento, de repente, soube o que havia mudado nela: estava muito quieta. Anormalmente quieta. Esmeralda sempre
se caracterizara pela vitalidade, pelo excesso de energia. Agora, porm, parecia inerte enquanto seu olhar ia da mesa para o retrato de Joseph na parede.
    Quando notou que o capataz a observava, recomps-se depressa, assumindo uma mscara controlada e calma.
    - Voc desafiou meu pai discutindo em pblico com ele - disse sem rodeios.
    - Eu estava defendendo meus pees.
    - Eles tambm eram pees de papai, Cal.
    - Mas precisavam do meu apoio, Esmeralda. Quando Joseph viu a barragem, ficou possesso. Achou que um dos pees havia feito aquilo para provocar Winter. Mas conheo
meus homens muito bem. Sei que nenhum deles foi o responsvel pelo represamento do rio.
    Esmeralda conservou-se em silncio por alguns instantes. Relanceou os olhos para o retrato do pai. Foi a que o capataz se deu conta de que os olhos verdes estavam
midos. Ora, ela estava a ponto de chorar. Nunca, em todos aqueles anos, Cal a vira derramar uma lgrima sequer. Nem mesmo quando sofrera uma queda feia do cavalo,
na infncia, fraturando duas costelas e deslocando o brao. Coubera a ele segur-la nos braos enquanto o Dr. Prentice recolocava o osso no lugar. E Esmeralda permanecera
absolutamente quieta, sem emitir um nico gemido.
    Agora, l estava ela lutando para conter as lgrimas pelo pai que jamais tornaria a ter a seu lado. Por um timo, Cal desejou poder confort-la. Um pouco de
ternura era tudo que Esmeralda precisava naquele momento. Mas a brandura era algo que aquele texano de modos rudes desconhecia. A vida lhe ensinara que precisava
ser duro. Assim, limpou a garganta e foi logo dizendo:
    - Se for a sua vontade, poderei partir dentro de uma hora.
    - Se eu quisesse mand-lo embora, j teria lhe dito para arrumar suas coisas. Mas agora que papai se foi... - Ento, a voz dela falhou, e engoliu em seco. -
Preciso da sua ajuda. Gostaria que me orientasse na administrao da fazenda...
    Pela primeira vez desde que chegara ali, Cal relaxou. Deixou escapar um suspiro de alvio.
    - Sabe que sempre poder contar comigo, Esmeralda.
    - Poderei mesmo?
    Ele corou, constrangido. Sabia que uma semente de dvida fora lanada pelo advogado Burton. Levaria algum tempo para que reconquistasse a plena confiana de
Esmeralda.
    Ela avanou alguns passos at a mesa de Joseph e virou-se abruptamente.
    - No sei se compartilho sua opinio a respeito dos pees. Espero que voc descubra quem construiu a barragem. Se foi de nossos empregados, ele deve ser despedido.
    Cal tornou a suspirar. quela altura no valia a pena discutir com Esmeralda. De qualquer modo, havia de fato a possibilidade de que um dos empregados fosse
o culpado. Nesse caso, no s seria expulso da fazenda como do prprio Texas, Cal prometeu a si mesmo.
    - Encontrar o responsvel pela represa ser uma questo de honra para mim - assegurou.
    Esmeralda assentiu e deu-lhe as costas, dispensando-o. Quando o capataz abriu a porta para retirar-se, ela o interpelou.
    - Diga a Cookie que quero lhe falar. Temos um pequeno assunto a discutir.
    - Esmeralda, talvez fosse melhor...
    - Agora - exigiu ela, no mesmo tom que ouvira o pai usar tantas vezes.
    Cal aquiesceu e foi transmitir o recado ao cozinheiro. Pouco depois, o velho Cookie entrava no gabinete, retrado e cabisbaixo, segurando o chapu contra o peito.
Encontrou Esmeralda sentada  escrivaninha do pai.
    Do mesmo modo com agira com o capataz, ela disse sem prembulos:
    - Por que meu pai queria que voc viesse trabalhar aqui?
    Cookie torceu a aba do chapu.
    - No sei. Talvez ele quisesse algum mais competente para cozinhar para os pees.
    - Voc sabe que esse  um pretexto muito frgil. O que aconteceu realmente? - pressionou Esmeralda.
    - A perna estava me incomodando muito - admitiu ele aps um momento de hesitao. - Seu pai achou que eu estava pegando friagem no galpo dos pees e decidiu
que seria melhor eu cozinhar aqui.
    - Oh, Cookie, no sabia que estava sentindo dores...
    Esmeralda fez meno de se levantar, mas ele a deteve com um gesto enrgico. Ainda estava muito emotivo devido aos ltimos acontecimentos e desabafou:
    - Acontece que no sou um velho senil que precisa de cuidados. Sei o que  melhor para mim! E quero ficar junto com os pees! Se me forar a vir trabalhar aqui
dentro, irei embora.
    Esmeralda preferiu no mencionar que ele mesmo havia confessado sua mentira publicamente. Cookie no abandonaria a fazenda por nada no mundo. E, agora, todos
sabiam disso.
    - Est bem. Fique com os pees. Mas tem de me prometer que me avisar se as dores piorarem.
    - Sim, eu prometo. Obrigado, muito obrigado, Esmeralda! - agradeceu o cozinheiro, com um sorriso radiante. - Agora, se me d licena, preciso ir preparar o almoo
dos rapazes.
    - Pode ir. E, por favor, avise Cal que me ausentarei por algumas horas.
    Cookie pensou na sepultura solitria de Joseph Jewel e fez um gesto de aprovao.
    - Faz bem em ir visitar o tmulo de seu pai. Fique um pouco com ele. Isso ir confort-la.
    Depois que o cozinheiro saiu, Esmeralda ficou a olhar para espingarda do pai, presa  parede por dois ganchos. Segurando-a, sopesou-a.
    - No vou ficar chorando sobre a sepultura nenhuma - disse baixinho. - Farei algo muito mais til. Irei atrs do homem que matou meu pai.

    - Sinto muito, Adam. Depois que as guas do rio voltaram a fluir para c, pensei que o gado iria sossegar um pouco. Eu deveria ter ficado aqui durante o julgamento
para vigi-lo.
    - No se preocupe. No foi culpa sua - tranqilizou-o Adam com voz cansada, enquanto apeava.
    Estava exausto. Mas, em vez de se permitir um merecido descanso, lavou-se depressa, trocou de roupa e barbeou-se. Sentindo-se um pouco revigorado, tornou a montar
no cavalo.
    - Vou conduzir os animais para o campo  beira do rio. Quando descobrirem a gua, devem ficar por l - disse a Zeb.
    - Espero que sim. No podemos passar o resto da semana procurando reses desgarradas.
    Adam incitou a montaria e, em breve, galopava por um campo verdejante, determinado a reunir seu gado disperso e manter a palavra dada a um homem morto.
    Ele avanou em meio  relva, observando as reses que se moviam preguiosamente mais adiante. Durante toda a tarde tivera a estranha sensao de estar sendo seguido. 
Ao examinar cuidadosamente a trilha, porm, no encontrara nenhuma pegada de cavalo. Ainda assim, confiava em seus instintos. E eles clamavam que no estava sozinho 
ali.
    Adam olhou em torno de si. Vendo que tudo parecia normal, contemplou a paisagem ao pr-do-sol. Ao longe, o cume das montanhas adquiria um tom rseo. A areia 
e as rochas rebrilhavam como ouro. Ele jamais se cansaria de admirar aquele cenrio indomado, que o tocava no fundo do corao. Naquela terra, poderia viver sozinho 
para tentar curar as feridas da sua alma.
    Um vento gelado soprou do norte. Adam abotoou a jaqueta e instigou o cavalo, que se misturou s reses. Queria deixar a propriedade de Jewel quanto antes. S 
baixaria guarda ao entrar em sua prpria fazenda.
    De repente, sentiu o sangue gelar quando ouviu o inconfundvel som de uma arma sendo engatilhada. Era um som que ficava gravado para sempre na memria de um 
homem. Os cabelos em sua nuca eriaram-se, mas ele adotou uma postura displicente e contornou uma rocha alta, at ficar fora de vista. A, imediatamente mudou a 
atitude. Num piscar de olhos, puxou o canivete que trazia na bota e retesou-se, preparando-se para o ataque. Escalou a rocha, aguardou. No momento em que viu a sombra 
de um cavaleiro solitrio, saltou, derrubando o intruso. Os dois rolaram no solo com braos e pernas entrelaados. Os cavalos relincharam assustados, e um deles 
acabou fugindo. E entrementes os cavaleiros se engalfinhavam num combate mortal.
    Finalmente Adam conseguiu imobilizar o adversrio com o peso de seu corpo. Foi ento que sua mo pousou na curva generosa de um seio feminino. No mesmo instante, 
a disposio de lutar o abandonou como que por encanto.
    - Voc!
    Ele fitou os olhos verdes que faiscavam de raiva. Ofegante, ajoelhou-se e puxou-a pela camisa. Depois, levantou-se, forando Esmeralda a postar-se a seu lado.
    - O que deu em voc, mulher? Queria atirar em mim pelas costas, ?
    Com um gemido de desgosto, ela empurrou-o. Tambm arfava, e sua fria era tamanha, que mal conseguia articular uma palavra. Nas ltimas horas estivera a vigi-lo. 
E a cada hora que passara, crescera seu ultraje ao ver aquele homem conduzir seu gado pelas pastagens dela.
    - Pelo visto, no perdeu tempo em quebrar a promessa que fez a meu pai, Adam Winter! Est engordando esse gado s minhas custas, miservel! - acusou por fim.
    - No diga bobagens. Se andou me seguindo, deve ter notado que estou reunindo as reses para lev-las de volta  minha fazenda.
    - Oh, claro - ela retrucou, a voz destilando sarcasmo. - Se quer saber, inicialmente eu at que lhe dei o benefcio da dvida. Afinal de contas, o juiz declarou-o 
inocente, no ? Mas, se no me engano, aquela choupana onde voc mora fica na direo oposta  que est seguindo.
    - Acontece que primeiro vou conduzir essas cabeas para o riacho, onde est o restante do meu gado.
    - Mentiroso! Tem uma resposta pronta para tudo, no ?
    Fora de si, Esmeralda agarrou o chicote que trazia enrolado no brao e fustigou-o no ombro.
    A camisa de Adam rasgou-se e a carne exposta lacerou-se ao contato do couro duro. Ele praguejou violentamente. E mostrou-se um adversrio digno de respeito. 
Agarrou a ponta do chicote e deu-lhe um forte puxo. Com o tranco, Esmeralda caiu de joelhos. Adam ento arrebatou-lhe o aoite, que zuniu no ar.
    Ela encolheu-se instintivamente, esperando uma retaliao. Mas, em vez disso, Adam atirou o chicote no cho. Por um longo momento, limitou-se a encar-la, o 
corpo tenso, a respirao arquejante, os olhos fuzilando. Depois deu-lhe as costas e comeou a afastar-se.
    Esmeralda levantou-se de um salto e o deteve.
    - No pense que levar a melhor da prxima vez, Winter! Eu nunca descansarei enquanto...
    Ele cortou-lhe as palavras bruscamente, tapando-lhe a boca e arrastando-a para trs da rocha.
    - Fique quieta! - sussurrou-lhe.
    Esmeralda arregalou os olhos, num misto de choque e fria. Espalmou as mos no peito dele para repeli-lo. E s ento discerniu o som de cascos de cavalo. Um 
grupo de cavaleiros se aproximava. Ela parou de se debater e ficou como que petrificada.
    Permaneceram ali, imveis, as mos de Esmeralda crispadas no peito largo, enquanto Adam continuava a tapar-lhe a boca. A intimidade daquele contato poderia ter 
sido a de dois amantes, mas o olhar que trocavam era carregado de hostilidade.
    - So seus pees? - ele sussurrou ao seu ouvido, provocando-lhe um inesperado arrepio.
    Esmeralda ignorou a prpria reao. Disse a si mesma que aquele homem era o assassino de seu pai e s merecia o mais completo desprezo.
    Adam olhou-a bem dentro dos olhos e, contra a vontade, experimentou uma sbita onda de calor. Fazia muito tempo que no ficava to perto de uma mulher. E, a 
despeito de sua clera, no podia ignorar as sensaes que comeavam a domin-lo. Os lbios dela eram macios sob sua palma calejada. A pele perfumada inebriava-o...
    Ela virou o rosto e observou os homens que se aproximavam.
    - No os conheo. No so pees da fazenda.
    - Se estiver mentindo... - Adam no completou a frase.
    Cautelosamente, soltou-a. Sacou sua pistola e mirou o lder do bando. Saiu de trs da rocha e disse em voz alta:
    - Estavam  minha procura?
    Esmeralda no pde deixar de admirar sua coragem. Ele estava confrontando pelo menos meia dzia de homens. Se fosse outro, Esmeralda teria acreditado que agia 
assim para proteg-la. Mas recusava-se a acreditar que Adam Winter pudesse ter uma atitude nobre como aquela.
    Alm disso, ela no precisava da proteo de nenhum homem. Sacando sua prpria pistola, adiantou-se e postou-se ao lado de Adam.
    Ao v-la os desconhecidos imprecaram.
    - Vamos embora! - gritou um deles, e num piscar de olhos todos deram meia-volta e bateram em retirada.
    Esmeralda esperava que Adam fosse alvej-los. Se fizesse jus a fama de bom atirador, no teria dificuldade em acertar pelo menos um daqueles homens. No entanto, 
para sua surpresa, ele apenas observou o bando at que este desaparecesse de vista.
    Dos intrusos, o nico vestgio que restou foi uma nuvem de poeira.
    - Eles voltaro para pegar voc - Esmeralda dardejou.
    - Voc no disse que no eram seus pees?
    - E no so mesmo.
    - Ento o que garante que no estavam atrs de voc?
    Ela teve um calafrio. Procurou no demonstrar medo.
    - Eu? Por que algum haveria de querer me matar?
    Adam encolheu os ombros.
    - Por que algum haveria de querer matar seu pai?
    Esmeralda ficou perplexa que no soube o que dizer.
    - Quando descobrir por que seu pai foi assassinado, ter todas as respostas que procura - concluiu ele.
    As palavras de Adam suscitaram-lhe uma torrente de dvidas. Mas Esmeralda no estava preparada para aceitar o fato de que talvez sua vida corresse perigo, de 
que talvez ele no fosse o assassino de seu pai afinal.
    Os dois se entreolharam longamente, em silncio.
    Adam percebeu que o cavalo dela havia fugido. Subiu  sela de sua montaria e disse:
    - Estou indo para Poison Creek para reunir meu gado. Se quiser, pode vir na minha garupa. - Estendeu-lhe a mo para ajud-la a montar, mas, como ela hesitasse, 
endireitou-se. - Est bem. Se prefere andar at sua casa, fique  vontade.
    Esmeralda fulminou-o com o olhar. O desgraado era arrogante at no mais poder. E o pior  que suas palavras a tinham amedrontado.
    - Ao que parece, no tenho alternativa seno aceitar sua generosa oferta, Winter.
    Dessa vez, Esmeralda segurou a mo que ele lhe estendia. Acomodou-se na sela e relutante passou os braos em torno da cintura de Adam. Quando o cavalo comeou 
a galopar, fechou os olhos e apertou os dentes.
    Aquela seria a pior cavalgada de sua vida.
    
    
    Captulo 4
    
    Adam ficou um tanto contrafeito com aquela estranha reviravolta dos acontecimentos. Aos trinta e dois anos de idade, j vira muitas coisas. Mas nunca vira uma 
mulher como aquela. A ltima coisa que teria desejado fazer sua jornada na companhia da filha temperamental de Joseph Jewel. Oferecera-se para ajud-la por pura 
obrigao moral.
    A filha de Jewel... que piada! Ela poderia muito bem ser chamada de filho. Brigava como homem, vestia-se como homem... at mesmo imprecava como homem!
    O vento silvava  passagem dos dois e Esmeralda aconchegou-se, pressionando a face no ombro dele. Atravs da jaqueta rstica, Adam podia sentir a maciez dos 
seios que se comprimiam contra seu corpo, as coxas bem-torneadas que roavam nas suas. E Viu-se forado a reconsiderar seu pensamento anterior. Um homem, no. Uma 
mulher. A despeito da aparncia dela, Esmeralda tinha um inegvel apelo feminino. O toque de suas mos delicadas na cintura dele faziam-no engolir em seco. As mechas 
ruivas que por vezes resvalavam-lhe o rosto, como uma carcia, faziam-no ter vontade de segurar os fios acobreados entre o dedos.
    Em vez disso, ele apertou as rdeas e instigou o cavalo. No podia se esquecer de que aquela mulher enervante s podia lhe suscitar um sentimento: a mais profunda 
averso.
    Quando chegaram a uma elevao do terreno, observaram o rebanho de Adam, que pastava tranqilamente s margens do ribeiro. Era o tipo de cena buclica que sempre 
o tocava. Apesar de toda a sua contrariedade ele animou-se um pouco ante a viso dos animais.
    - Parece que esto todos aqui - disse para si mesmo.
    s suas costas, Esmeralda deixou escapar uma exclamao de surpresa.
    - No imaginei que seu rebanho fosse to grande.
    - Nem tanto. Tenho cerca de duzentas cabeas. Mas espero que este nmero dobre e at triplique nos prximos anos comentou Adam, sem esconder o orgulho.
    - Lembro-me do entusiasmo de papai quando as vacas ficavam prenhes. Ele costumava dizer que o crescimento do rebanho era a chave do sucesso de um fazendeiro 
- observou ela.
    - Seu pai tinha razo. Estou s esperando esse rebanho crescer para pagar minha dvida com o banco.
    Quando se aproximaram do riacho, Adam apeou e estendeu a mo para ajud-la a desmontar. Esmeralda segurou-lhe a mo e, sem querer, estremeceu. Mas o que estava 
acontecendo? Ser que havia perdido o juzo? Por que o toque daquele homem a perturbava tanto?
    Devia estar preste a contrair uma febre, ponderou um pouco inquieta. Mas era a nica explicao plausvel para suas estranhas reaes na presena de Adam. 
    Ela deslizou para o solo e virou-se rapidamente, fingindo contemplar os ltimos raios de sol que ainda iluminavam o topo das montanhas.
    - Logo vai escurecer. Agora que j reuniu seu gado, eu gostaria de voltar para casa - disse.
    Adam franziu o cenho.
    - Ora, eu no esperava me deparar com tantos... contratempos, srta. Jewel. Acho melhor no deixar as reses sozinhas aqui esta noite. Aqueles sujeitos podem aparecer 
de novo e os meus animais sero presas fceis.
    - Ento pretende passa a noite aqui?
    - Parece que no tenho alternativa.
    Esmeralda colocou as mos na cintura, numa atitude de desafio que estava comeando a parecer familiar demais para ele.
    - E quanto a mim?
    Adam fitou-a com uma irritante impassibilidade. Ela, no entanto, julgar flagrar um toque de humor nos olhos cinzas.
    - Nada a prende aqui. Pode voltar para casa Confidencial  hora que quiser. Se andar a passo rpido, dever chegar dentro de duas ou trs horas. - um meio sorriso 
insinuou-se nos lbios dele. - Mas, se preferir ficar, pode compartilhar minha refeio, srta. Jewel. E minhas cobertas.
    -Como ousa... - Esmeralda sibilou. Sem concluir a frase, suspirou agastada.
    Quando seu pai era vivo, nenhum empregado da fazenda jamais tivera coragem de fazer-lhe nenhum comentrio sugestivo, sob pena de ser imediatamente despedido. 
Ela sentia-se segura que quase se esquecia de que era uma mulher. Cavalgava livremente pelos campos, dormia sob as estrelas e trabalhava entre os pees sem nada 
recear. Agora, de sbito, viu-se em uma posio altamente desconfortvel. E inquietante. 
    A estava, pensou, mais uma razo para odiar Adam Winter...
    No entanto, no lhe daria a satisfao de mostrar-se intimidada. Preferia morrer e deix-lo tomar as rdeas da situao. E, com extrema suavidade, replicou:
    -  muita considerao de sua parte, Sr. Winter. Mas, logo que os pees virem meu cavalo chegar sem mim, sairo  minha procura. Pode ficar com sua refeio. 
Minha cozinheira, Carmelita, j deve ter preparado um bom bife para o jantar. E, quanto s cobertas, faa bom proveito delas. Eu dormirei em minha cama. Sozinha.
    Assim dizendo, Esmeralda virou-se e foi se aboletar numa rocha alta, na esperana de que Cal no tardasse a aparecer. Sentada de pernas cruzadas, observou a 
paisagem e acompanhou o lento anoitecer. Uma hora se passou e finalmente os prados imergiram na escurido. Ela foi forada a aceitar o fato de que seus pees no 
viriam busc-la.
    Sentindo-se derrotada, desceu da pedra. Aproximou-se da fogueira que Adam havia acendido.
    Ele estava confortavelmente estendido em seu leito improvisado com os cobertores, usando a sela como travesseiro. Naquele meio tempo, tinha atado um leno no 
ombro para estancar o sangue do ferimento que ela lhe infligira com o chicote.
    Uma caarola de feijes borbulhava no fogo, e Esmeralda ficou com gua na boca.
    - Est com fome? - perguntou-lhe Adam. Nem se preocupou em descerrar as plpebras, o que a irritou ainda mais.
    - Um pouco. - Ela espiou uma lata de biscoitos apoiada numa pedra. - Voc mesmo os assou?
    - Os biscoitos? Sim. No esto ruins, mas precisa raspar as bordas queimadas.
    - Se no planejava pernoitar aqui, por que trouxe comida e cobertores
    - Aprendi a carregar sempre o essencial. Cobertores, acar, tabaco, usque... - esclareceu Adam, ainda de olhos fechados.
    - Tabaco e usque - Esmeralda repetiu com desdm. - Isso  mesmo tpico de um homem da sua laia.
    Adam sabia que ela estava tentando provoc-lo. No se deu ao trabalho de morder a isca. Estava cansado demais para discutir.
    - Por qu? - Esmeralda indagou com inesperada brandura, ajoelhando-se ao lado dele.
    - Por que... o qu? - Adam abriu os olhos e fitou-a sem entender.
    - Por que anda sempre carregando vveres?
    - Porque gosto de estar preparado para imprevistos. Se minha cabana se incendiar, tenho tudo de que necessito no alforje.
    - Ei, parece que voc sempre espera pelo pior.
    Encolhendo os ombros com indiferena. Adam sentou-se. Disps em um prato de feijes e biscoitos. Depois, ofereceu-o a Esmeralda, dizendo:
    - J passei por maus momentos, srta. Jewel.
    - Mas...
    - Voc fala demais. Coma.
    Ela no se fez de rogada. Mordiscou o biscoito, suspirando com satisfao. Estava faminta e pouco se importava com as bordas queimadas.
    - Peo desculpas por no ter providenciado tambm um bom bife - disse Adam, tomando um trago de usque.
    Esmeralda ignorou a ironia inequvoca de suas palavras.
    - No vai comer? Quis saber.
    - Eu s trouxe um prato.
    Ela no pde se impedir de sorrir.
    - Pensei que estivesse preparado para tudo.
    - Acho que a vida ainda reserva algumas surpresas para mim. No esperava ter companhia esta noite.
    Com uma ponta de remorso, ela comeu depressa e estendeu-lhe o prato.
    - Tome. Bom apetite. Recomendo os biscoitos queimados.
    Adam fez sua refeio e, depois, dividiram uma xcara de caf. O fato de partilharem o jantar sugeria uma estranha intimidade. Esmeralda sentia-se desajeitada 
e pouco  vontade. Ele, porm, no deu mostrar de notar seu constrangimento. Satisfeito, enrolou habilmente um cigarro.
    Ao ver aquele gesto que lhe era to familiar, Esmeralda foi dominada por uma repentina melancolia.        
    - Papai sempre preparava um cigarro depois do jantar. A, ns nos sentvamos e...
    Adam captou a nota de tristeza na voz dela e manteve-se calado, respeitando seu luto. Aps uma longa pausa, observou:
    - Parece que voc e seu pai eram muito unidos.
    Esmeralda aquiesceu, grata por ele ter-lhe dado tempo para se recompor.
    - Papai sempre me levava para percorrer a fazenda. Atribua-me tarefas e me elogiava quando eu fazia as coisas direito. Ah... Eu ficava nas nuvens quando ele 
demonstrava sua aprovao.
    Mirando no fogo, Adam fumava com expresso meditativa. Continuava em silncio.
    Ela respirou fundo.
    - Eu gostaria de ter dito isso a meu pai.
    Adam desviou o rosto do fogo para encar-la. Esmeralda olhou-o de relance e baixou a cabea depressa, no antes de ele flagrar uma lgrima solitria que rolava 
por sua face.
    - Essas coisas no precisam ser ditas. Os pais sabem - disse Adam.
    Deu uma ltima tragada no cigarro e lanou-o  fogueira. Depois arrumou os cobertores.
    - Pelo jeito, seus pees no viro no seu encalo esta noite. J que voc ter que pernoitar aqui,  melhor ficar perto do fogo. Mais tarde vai esfriar.
    - E voc? - ela perguntou, tensa.
    - Vou montar guarda. Talvez nossos amigos voltem para nos pegar de surpresa - respondeu ele, apanhando o rifle.
    Esmeralda olhou para as prprias mos, sem saber como se expressar. Mas ergueu o rosto, determinada a no calar o que lhe ia pelo ntimo.
    - Eu... eu quero que saiba que, a despeito de voc compartilhar sua refeio e seu cobertor comigo, isso no muda nada entre ns.
    Adam encarou-o com uma expresso que no deixava transparecer nenhuma emoo.
    - Eu no sabia que havia algo entre ns, srta. Jewel.
    Ela no fez caso do humor seco que permeava a voz dele.
    - Ah, mas h, sim. Um acerto de contas pendente. Pouco me importa a deciso do juiz. No acredito na sua inocncia. E, at prova em contrrio, continuarei convicta 
de que voc matou meu pai.
    Adam nada disse em sua prpria defesa. Os olhos cinza, entretanto, tornaram-se duros. Afastou-se, sendo tragado pelas sombras.
    Por longos minutos, Esmeralda permaneceu sentada ao p do fogo. E, em seu esprito, ecoavam sem cessar as palavras dele: Essas coisas no precisam ser ditas. 
Os pais sabem.
    Que Adam tivesse demonstrado uma compreenso to profunda de seus sentimentos era algo surpreendente. E desconcertante. Afinal, ainda era o suspeito de haver 
assassinado seu pai. Mas a verdade  que Esmeralda comeava a duvidar de suas prprias certezas. Estava confusa.
    Deitou-se e puxou a manta sobre si. Aos poucos foi relaxando, embalada pelos sons noturnos: o uivo de um coiote, o pio de uma coruja, o farfalhar das folhas 
na brisa. De repente teve um sobressalto, soergueu-se e apanhou seu rifle, deixando-o junto ao corpo. S por precauo...
    E finalmente, esgotada, adormeceu.
    
    Adam sacudiu-a com violncia. Esmeralda, despertou de seu sonho e fez meno de voltar a dormir.
    - Acorde! - chamou ele, e praguejou impaciente.
    - No. Me deixe em paz...
    Imprecando com crescente violncia, Adam suspendeu-a, com rifle e tudo, e forou-a a ficar de p. Tomou-a nos braos, ora carregando-a, ora arrastando-a, e comeou 
a correr na escurido.
    Por mais que se debatesse, Esmeralda no conseguia libertar-se dos braos possantes que cingiam como tenazes. Foi ento dominada pelo pnico. Pela primeira vez, 
sentia-se totalmente  merc de um homem. Os pensamentos atropelavam-se em seu crebro num ritmo vertiginosos, as idias brotavam e ficavam sem concluso, lanando 
mil conjeturas aterradoras.
    Afinal, o que estava acontecendo...?
    Quando atingiram um ponto mais afastado, ao abrigo das sombras, Adam largou-a no cho sem a menor cerimnia. Agora, totalmente desperta, foi ela quem comeou 
a praguejar.
    - Ficou louco? Que pensa que est fazendo? Eu...
    Esmeralda no pde terminar a frase: nesse momento, soou uma sucesso de tiros. Ela virou-se depressa, bem a tempo de ver uma saraivada de balas varar o cobertor 
onde estivera deitada momentos antes.
    - Quem... o que... - Emudeceu, sem saber com reagir, e nem percebeu que enterrava as unhas no brao de Adam.
    Os tiros cessaram to repentinamente quanto haviam comeado. Na soturna calmaria que se seguiu, um homem penetrou o crculo de luz da fogueira. Chutou os cobertores 
e gritou algo ininteligvel. Logo, mais alguns homens vieram juntar-se a ele.
    - Parece que nossos amigos decidiram mesmo fazer uma visita. E, dessa vez, no esto para brincadeira - comentou Adam. - Srta. Jewel, pegue seu rifle e fuja 
o mais rpido que puder. E no olhe para trs.
    Atnita, Esmeralda viu-o afastar-se na direo dos agressores.
    - Boa noite, cavalheiros Adam saudou sarcasticamente, e sua voz destilava uma frieza de meter medo. - Foi muita bondade sua fazer uma visita. Mas poderiam ao 
menos ter me avisado com antecedncia. Detesto surpresas.
    Um dos desconhecidos apontou o rifle para ele. Porm, Adam alvejou-o primeiro. O rifle voou da mo do malfeitor, que foi lanado ao solo com o impacto do tiro.
    Protegida pelas sombras, Esmeralda assistiu  cena e quase engasgou. Ento era verdade o que se dizia dele. No passava de um assassino a sangue-frio. Sua manobra 
fora to rpida e precisa, que Esmeralda mal pudera acompanhar seu gesto.
    - Estou avisando...  melhor vocs largarem as armas - ameaou Adam, continuando a avanar.
    Dois homens o miraram.
    Ele disparou com a rapidez de um raio.
    Dois homens tombaram sucessivamente no cho, sem vida.
    A o lder do bando apontou seu rifle para ele.
    - Voc talvez consiga ser mais rpido que eu no gatilho. Ou talvez no. Gosta de jogar? Quer fazer uma aposta? - espicaou Adam.
    - No... eu me rendo - gaguejou o outro, soltando o rifle e levantando as mos. Contudo, o medo logo deu lugar ao alvio. Um sorriso lentamente espalhou-se por 
seu rosto. - Mas, pensando bem, acho que  voc que est em maus lenis. Se no soltar a arma agora, meu amigo cotar o pescoo de sua adorvel acompanhante...
    Com um olhar de esguelha, Adam vislumbrou dois vultos que se acercavam da fogueira. Um dos comparsas do malfeitor havia apanhado Esmeralda. Segurava-a diante 
de si e apertava a lmina de uma faca contra sua garganta.
    Adam sentiu a tenso crescente apoderar-se de cada fibra de seu ser. Talvez Esmeralda houvesse armado aquela farsa para peg-lo. Nada garantia a ele que aqueles 
homens no eram empregados da fazenda. Afinal, a saraivada de tiros que atingira o leito improvisado podia muito bem ter-lhe sido destinada. Os agressores no tinham 
como adivinhar que Esmeralda quem dormia ali.
    - Escolha sua vitima ento - disse, procurando ganhar tempo. - Mas pense bem. Talvez voc no tenha oportunidade de atirar pela segunda vez.
    - Ele est blefando! - o lder gritou para o parceiro. - Venha at aqui e use a moa como escudo.
    O outro no esperou segunda ordem. Com evidente nervosismo, comeou a avanar. Pressionava rudemente a faca no pescoo de Esmeralda, fazendo com que um filete 
de sangue brotasse da pele alva.
    - Voc acabou de selar a sua sorte - murmurou Adam. E, com toda calma, mirou seu alvo e abriu fogo.
    O estrondo do tiro ecoou nos ouvidos de Esmeralda. Tudo aconteceu muito rpido. Quando ela deu por si, o homem que a segurava oscilou e tombou no cho sem vida.
    Entrementes, o lder do bando pulou na sela de sua montaria e fugiu em desabalada carreira, enquanto Adam corria para acudir Esmeralda.
    Em estado de choque, ela mal conseguia falar.
    - O que... o que pensou que estava fazendo?
    - Estava salvando seu pescoo, ora.
    - Sal... o qu? - A indignao restitui-lhe momentaneamente as foras, e ela explodiu: - Voc encorajou aquele bandido a cortar o meu pescoo, isso sim! E depois 
atirou como um pistoleiro enlouquecido! Por um momento, achei que fosse me acertar...
    - Eu precisava ganhar tempo. E agir depressa. Alis... - Adam fez uma imperceptvel pausa, e seu olhar tornou-se sombrio. - No tem do que se queixar, srta. 
Jewel. Voc contrariou minhas instrues. Se tivesse fugido, nada disso aconteceria.
    Os olhos dela chisparam.
    - Escute aqui, Adam Winter. Fique sabendo que no estou acostumada a receber ordens. Acha mesmo que eu iria fugir como um animalzinho assustado? Meu pai me ensinou 
a atirar to bem quanto qualquer homem e eu prezo por uma boa luta.
    Adam virou-se, desgostoso. J ouvira o bastante. Por um capricho daquela mulher intratvel, perdera a oportunidade de interrogar aqueles homens e descobrir o 
que planejavam.
    Rodeou a fogueira e curvou-se sobre os agressores alvejados. Tomou-lhes o pulso, mas j sabia de antemo que estavam todos mortos. Quando se endireitou, viu 
Esmeralda cair de joelhos, o corpo trmulo, a face lvida.
    Ela deixou escapar um gemido fraco. Sentia-se tonta. Percebeu vagamente que Adam se precipitava em sua direo.
    - O que... o que est acontecendo, Winter? - perguntou com a voz entrecortada.
    - Acho que vai desmaiar, srta. Jewel - respondeu ele enquanto se ajoelhava a seu lado.
    - Isso ...  ridculo. Nunca desmaiei... em toda a minha vida...
    Com uma exclamao abafada, Adam largou o rifle. Seus dedos fortes insinuaram sob o tecido da camisa de Esmeralda e, por fim, comearam a desaboto-la.
    - Deixe-me ver o ferimento.
    - Como se atreve... - ela protestou. Mas, quando ergueu a mo para empurr-lo, descobriu quanto estava fraca.
    Sem perder tempo, Adam pegou um leno e atou-o delicadamente ao redor do pescoo dela.
    - Como est o ferimento? Esmeralda quis saber.
    - Fique quieta, sim? - Ou  pedir muito?
    Ela surpreendeu-se com a inesperada suavidade do toque de Adam.
    - Ora, Winter, pare de fazer suspense. Foi apenas um arranho.
    - Hu-Hum. - Ele apertou o n. Examinou o curativo com ar preocupado, meneando a cabea. - Acho que teremos de mudar nossos planos. No  seguro passar a noite 
aqui. Voc precisa de cuidados. Vou lev-la para a cabana. L poder descansar e meu amigo lhe preparar um caldo que renovar suas foras.
    Esmeralda ainda fez uma dbil tentativa de recusa. Depois mergulhou na escurido da inconscincia.
    
    
    Captulo 5
    
    Adam aninhou o corpo inerte de Esmeralda contra o peito e manteve cavalo avanando com deliberada lentido. No estava gostando nem um pouco da aparncia de 
Esmeralda. Sua palidez era funesta.
    E, no obstante a preocupao que sentia, ele tambm fervia de raiva. O que havia de errado com aquela mulher? Era mais teimosa que uma mula. Por pouco no fora 
morta.
    Ocorreu-lhe ento, inesperadamente, um detalhe que lhe passara quase despercebido. Agora que a situao se acalmara, dava-se conta de que, durante a troca de 
tiros, um dos malfeitores havia sido atingido por uma bala que no sara do rifle dele. Seria possvel que...? Adam estreitou Esmeralda nos braos. Sim, s podia 
ser isso, concluiu perplexo. Ela ficara ali apenas para no desafi-lo, mas para apoi-lo no confronto.
    Esmeralda dera-lhe cobertura. Mas por que, se horas antes estivera tentando acert-lo pelas costas?
    Temperamental, pensou Adam. Tocou-lhe a face lvida e deixou que seus dedos deslizassem pela ctis aveludada. Mulher temperamental.
    Ele teve conscincia do calor que emanava do corpo feminino, aquecendo o seu. E em breve o calor que o envolvia transformou-se em uma onda de desejo reprimido. 
Dolorosamente ciente da proximidade de Esmeralda, s restou justificar a prpria reao como fruto dos ltimos acontecimentos. O tiroteio, a tenso, o perigo havia 
aguado seus sentidos. Era por isso que comeava a notar certos detalhes que antes havia ignorado completamente. Como a maciez da pele dela. Como uma constelao 
de sardas que se espalhava por seu nariz... Adam perguntou-se se Esmeralda tambm teria sardas em outras partes do corpo... Seu olhar foi atrado para o colo exposto 
e deteve-se nos seios fartos. Sentiu uma pontada aguda no baixo-ventre e forou-se a virar o rosto. Passados alguns momentos, porm, no resistiu e contemplou-a 
novamente. Rodeava-lhe a cintura com um dos braos e admirava-se de que fosse to fina, em contraste com o cinto de couro que a cingia. A despeito de suas maneiras, 
Esmeralda era suave e tinha curvas nos lugares certos. Adam examinou-lhe o rosto oval, que uma mecha de cabelos cobria parcialmente, e achou-o extremamente sedutor. 
Quase se esquecera de como era bom ter uma mulher nos braos...
    Nesse ponto, ficou bastante alarmado com seu sbito sentimentalismo. Retesando-se, incitou o cavalo em um galope furioso. Agora, mais do que nunca, precisava 
chegar logo  cabana. Zeb estava l. O velho companheiro trataria da moa e o ajudaria a concentrar-se em questes mais prticas.
    No tardou a chegar  cabana. Ao aproximar-se, avistou Zeb. O velho levantou-se da carroa e apontou-lhe o rifle, esquadrinhando a escurido.
    - Sou eu, Zeb. Pode abaixar a arma.
    O outro suspirou audivelmente.
    - Ainda bem que me avisou, eu j ia abrir fogo. Estou um pouco irrequieto esta noite.
    - Por qu? Aconteceu alguma coisa anormal durante minha ausncia? - perguntou-se Adam, apreensivo.
    Zeb encolheu os ombros.
    - Uns pees da Fazenda Jewel vieram aqui. Estavam  procura da patroa. - Ele se aproximou ao ver que Adam apeava, equilibrando uma figura inerte nos braos. 
- Mas, pelo jeito, voc a encontrou antes deles.
    Ao constatar que a filha de Joseph Jewel estava desmaiada, Zeb no fez nenhuma pergunta e correi para abrir a porta da cabana. Adam entrou e deitou Esmeralda 
sobre a cama.
    - Preciso de gua e de um trapo limpo. E de um pouco de usque para limpar o ferimento dela - instruiu Adam.
    O amigo despejou um pouco de gua da chaleira numa pequena bacia. Deixou-a na mesinha ao lado da cama e depois espiou por sobre os ombros de Adam. Quando o leno 
que envolvia o pescoo de Esmeralda foi removido, deu um assobio.
    - Que talho feio! O que aconteceu afinal?
    - Ns fomos atacados por um bando de pistoleiros esta noite. Encheram meus cobertores de balas.
    -Ns... Voc e a moa estavam dividindo as cobertas? - Zeb quis saber, acompanhando atentamente os movimentos de Adam enquanto este lavava os ferimentos.
    - Ora, voc me conhece. No diga asneiras - replicou Adam.
    O outro relaxou e riu.
    - Bem, sabe como ... Faz tanto tempo que voc no tem uma mulher...
    - Escute aqui, se eu quisesse uma companheira, garanto-lhe que no escolheria uma gata selvagem para me estraalhar com suas garras. Alm disso, ser que j 
esqueceu? Ela  a filha do homem que fui acusado de matar.
    - Adam... Se tivesse vivido tanto quanto eu, no se espantaria com nada que acontece neste mundo.
    Ao sentir o pano embebido de lcool pressionar-lhe a garganta, Esmeralda abriu os olhos de repente. Engasgou, empurrou a mo de Adam para o lado e proferiu uma 
sucesso de improprios.
    - Hum... Parece que a moa voltou a si - comentou Zeb. - Ela tem a lngua afiada, hein?
    Esmeralda piscou ao se deparar com o par de olhos que a fitavam. Fixou os olhos cinza de Adam.
    - O que quer agora, Winter? Minha garganta est queimando como o inferno.
    - Acho que gostava mais quando voc estava desacordada - ele respondeu secamente, continuando a limpar o ferimento.
    Esmeralda fez uma careta de dor e fitou Zeb. A, perguntou-lhe pateticamente:
    - No pode faz-lo parar? Seu amigo est tentando terminar o servio que os pistoleiros comearam!
    O velho homem dirigiu-lhe um sorriso tranqilizador.
    - No, mocinha. Ele est apenas limpando o ferimento. Sei que arde, mas no devemos correr riscos desnecessrios.
    -  uma pena desperdiar bom usque - arrematou Adam. - Mas no quero que seus pees me acusem de no ter cuidado direito de voc.
    Esmeralda agarrou-lhe o pulso.
    - Eu deveria saber que no estava fazendo isso por solidariedade.
    Ele sentiu a pele queimar quele contato.
    - Pode apostar que no estou mesmo. - Levantou-se bruscamente, entregando o trapo a Zeb. - Tome, amigo. Cuide dela. J agentei desaforos demais esta noite.
    - Mas o que vai fazer? - quis saber o amigo, desconcertado.
    Adam no respondeu. Cruzou o cmodo com passadas largas, enrolou-se num cobertor e deitou-se no tapete diante da lareira rstica. Momentos depois, j dormia 
profundamente.
    Com o toque de Esmeralda ainda a queimar-lhe a carne.
    - Beba isto - ofereceu Zeb, ajudando Esmeralda a sentar-se na cama.
    - O que ? - perguntou ela. Desconfiada, examinou o lquido escuro que fumegava na caneca que ele lhe oferecia.
    - Caf. Com um pouco de usque. Vai aliviar sua dor e ajud-la a dormir.
    - No quero dormir. Quero ir embora.
    Zeb percebeu o cansao em sua voz. Sabia que no tardaria a adormecer, rendendo-se  fadiga.
    - Adam a levar para casa assim que ele tiver descansado um pouco - disse, e relanceou o olhar para o amigo que ressonava diante do fogo. - Teve um dia muito 
agitado.
    - Pois foi pouco. Merecia estar balanando na forca pelo assassinato de meu pai.
    - Adam no matou seu pai, senhorita.
    - Ah, No? Como voc pode ter tanta certeza disso?
    - Conheo Adam. Se ele tiver de lutar com um homem, ser frente a frente. Preza sua honra e seria incapaz de atirar  traio. - Sem perceber, Zeb baixou a voz 
e acrescentou: - Alm disso, Adam  o gatilho mais rpido que j vi. No precisa de truques para vencer um duelo. E a verdade  que nunca foi derrotado.
    Esmeralda estremeceu ao lembrar-se da determinao com que ele enfrentara os pistoleiros, mesmo estando em desvantagem numrica. Tinha calafrios s de pensar 
na transformao que se operara em Adam naquele momento. Ele lhe parecera ento um matador resoluto, no um pacato fazendeiro.
    Sentido necessidade de desabafar, Esmeralda relatou a Zeb o ataque dos pistoleiros e, indignada, ressaltou o descaso de Adam quando um dos malfeitores havia 
ameaado sua vida.
    O velho ouviu-a com ateno e explicou mansamente:
    - Foi s um blefe, moa. Ele queria ganhar tempo para salv-la  sua maneira.
    - Talvez... ou talvez no passe de um tolo. No pense que no sei atirar. Meu pai me ensinou a manejar uma arma e sou muito boa nisso - frisou Esmeralda. - Ele 
ensinou-me tambm a respeitar um oponente que saca o revlver primeiro. Ora, Winter no teve nem sequer o bom senso de tentar salvar a prpria pele.
    A essas palavras, Zeb deu uma risadinha.
    - Adam  assim mesmo. Se algum aponta-lhe uma arma ou ameaa a vida de seus entes queridos, fica possesso. Mas nunca saiu por a procurando encrencas. De fato, 
prefere ficar sozinho no seu canto.
    - H quanto tempo o conhece?
    - Seis, sete anos.
    - No  muito tempo.
    O velho fitou-a longamente antes de replicar:
    - Mas  tempo suficiente para conhecer o carter de um homem. E posso afirmar que Adam Winter  de longe mais digno que muitos homens que andam por a.
    Ela deu um suspiro, pressentindo que aquela conversa no iria muito longe.
    - Suponho que se sinta na obrigao de defend-lo. Afinal,  seu patro.
    - O que? Acha que Adam me paga para cuidar de suas terras? - espantou-se Zeb. A seguir, sorriu. - No, dona. Se estou aqui,  porque quero. No tinha para onde 
ir e fui ficando. Mas no gosto de me sentir preso e nenhum lugar. Detesto paredes e cercas. Adam sabe que um dia acabarei indo embora. Eu sou assim mesmo.
    Esmeralda meneou a cabea. Cerrou as plpebras e tornou a abri-las, fazendo um esforo para manter os olhos abertos. Percebendo seu esgotamento, Zeb cobriu-a 
com uma manta e preparou-se para deixar a cabana.
    - Durma agora. Precisa recuperar as foras.
    Ela no tinha nem mesmo energia para protestar. Num minuto, j mergulhava em um sono pesado e sem sonhos.
    
    Adam moveu-se sem fazer barulho. Encheu a chaleira de gua, colocou mais uma acha de lenha no fogo. Embora decidido a ignorar a filha de Jewel, a todo instante 
seu olhar era atrado para a mulher adormecida, iluminada pelos primeiros alvores do dia. Ver Esmeralda Jewel dormindo em sua cama perturbava-o mais do que gostaria 
de admitir. Naquela manh, sentia-se irrequieto como um animal enjaulado.
    Praguejando baixinho, desviou o olhar dela. Precisava ocupar-se com alguma coisa e parar de pensar tolices, decidiu.
    
    Esmeralda remexeu-se. Desorientada, permaneceu ento muito quieta, prestando ateno nos sons e cheiros do lugar. Aquela no era sua cama e tampouco estava em 
sua casa. Gradualmente, foi tomando conscincia de onde se encontrava. A cabana de Winter.
    Viu-o a poucos metros dali, de costas. Como ele no percebera que estava acordada, Esmeralda aproveitou para observ-lo.
    Cala escura moldava-lhe os quadris estreitos e as coxas musculosas. Estava nu da cintura para cima, e era evidente que acabara de tomar um banho no rio, pois 
seus cabelos negros ainda respingavam gotas translcidas de gua. Adam se barbeava. A cada movimento, os msculos de suas costas se ressaltavam, provocando uma curiosa 
sensao em Esmeralda.
    Na vspera, durante a cavalgada, ela havia ficado em um estado de semiconscincia. E, em meio a seu torpor, sentia-se aquecida e segura nos braos dele. No 
era o tipo de reao que esperaria ter nos braos de um homem com Adam Winter. E isso a intrigava.
    Levantou o olhar, concentrada, e s a percebeu que Adam estivera olhando-a pelo espelho. Esmeralda teve um sobressalto e seu corao falhou uma batida.
    Ele franziu o cenho. Mas isso no era nenhuma novidade. Parecia estar franzindo o cenho para ela.
    - Bom dia, srta. Jewel. Como est a garganta? - perguntou Adam, sem se dar ao trabalho de virar.
    - Melhor - responde Esmeralda, tocando instintivamente o ferimento.
    - Zeb deixou-lhe um pouco de ungento sobre a mesa. E eu preparei caf. Fique  vontade.
    Assentindo, ela levantou-se e esperou alguns instantes para a vertigem passar. Quando olhou para cima, pde notar que Adam continuava a espi-la pelo espelho. 
As ris cinza pareciam mais claras naquela manh. Devia ser por causa da luz do sol, pensou ela distraidamente, aprumando-se a apanhando o ungento. Comeou a aplic-lo 
sobre a ferida, olhando-o de soslaio. No estava habituada a ser observada daquele modo.
    Examinou o ambiente que a rodeava e surpreendeu-se com o que viu. Apesar de a cabana ter poucos mveis, estava limpa e arrumada. Era aconchegante, e isso se 
traduzia em detalhes como a colcha de retalhos da cama e as peles de animais que recobriam o assoalho e as paredes rsticas.
    Na prateleira havia um exemplar da Bblia. Algumas ferramentas estavam encostadas num banco ao lado da porta: uma faca, um serrote, uma lima. E, ao lado delas, 
havia uma cadeira de balano inacabada.
    Logo se via que Adam Winter no era dado ao cio. 
    Esmeralda tornou a amarrar o leno em volta do pescoo e foi servir-se de caf.
    - Quer um pouco? - ofereceu.
    - Sim, obrigado.
    Ele enxugou o rosto e vestiu uma camisa limpa. Quando se virou, estava enfiando a camisa no cs da cala. Esmeralda o fitava e, depressa, desviou olhar. Mas 
j havia captado uma viso fugidia de seu peito coberto de plos negros e de seu ventre rijo. De novo, foi assaltada por uma curiosa sensao na boca do estmago.
    Os dois sentaram-se frente a frente na mesa, bebericando caf.
    - Est com fome? - perguntou Adam.
    - Um pouco...
    - Se quiser, pode comer um pouco da carne que est sobre o fogo. Ou os biscoitos de ontem.
    - Quem cozinha aqui? Voc ou seu amigo? - perguntou ela, querendo puxar conversa para afastar o estranho constrangimento que sentia na presena daquele homem.
    - Ns nos revezamos. E voc, senhorita Jewel? Gosta de cozinhar? - perguntou Adam, sentindo-se to pouco  vontade quanto Esmeralda.
    Sorvendo seu caf, fitou-a por sobre a borda da caneca. Ela levantou os ombros com indiferena.
    - Nunca tentei. Mas tenho certeza de que, se me arriscasse, seria um desastre.
    - Nunca preparou nenhum prato? No ficava na cozinha com sua me quando era pequena? - surpreendeu-se Adam, arqueando as sobrancelhas. E, de repente, percebeu 
quanto gostava do som musical da voz dela.
    - No me lembro da minha me. Ela morreu quando eu era muito pequena. Cookie e depois Carmelita sempre cuidaram de nossa alimentao. Eu costumava passar muito 
tempo fora de casa com meu pai, enquanto ele trabalhava na fazenda.
    Adam levantou-se e serviu uma poro de carne e biscoitos para ambos. Esmeralda mastigou um bocado e sorriu com aprovao.
    - Est muito bom. Quem preparou a carne?
    - Eu, Zeb inventa umas receitas muito esquisitas para meu gosto.  um tanto excntrico.
    - Ele me contou que no trabalha para voc.
    -  verdade. Zeb trabalha comigo. Mas, s vezes, eu diria que trabalha contra mim.
    A despeito de seu constrangimento, ela riu do gracejo.
    - Seu amigo realmente  uma pessoa... incomum. Disse que no gosta de paredes nem de cercas.
    - E nem de regras. O velho Zeb afirma que as regras s existem para ser quebradas.
    Tendo terminado de comer, Esmeralda sentiu-se mais bem-disposta. Comeou a recolher os pratos para lav-los.
    - E voc, Winter? Concorda com isso?
    - Acho que durante minha vida quebrei a maioria das regras.
    Por alguma razo que ela no compreendia, a voz profunda de Adam s suas costas provocou-lhe um arrepio. Quando enxaguou na bacia um dos pratos, notou que suas 
mos tremiam.
    - Ento voc gosta de quebrar regras. Ora, e para que elas serviriam se todos seguissem o seu exemplo? - indagou, esforando-se para falar com naturalidade.
    Adam levantou-se e parou ao lado dela.
    - Eu acho que... - Com um gesto deliberado, tirou-lhe o prato das mos e deixou-o no aparador. Fitando Esmeralda com intensidade, ergueu a mo e deixou-a deslizar 
na cabeleira ruiva, retendo uma mecha entre os dedos. Desde que a vira pela primeira vez, tivera vontade de fazer isso. - Vo ter de criar novas regras para mim 
- completou.
    Ao contato da mo de Adam, Esmeralda sentiu a boca seca e o corao descompassado. Passara a vida inteira no meio de homens e agora no sabia como agir na presena 
daquele estranho. Ele a tocava de uma maneira diferente, quase com reverncia.
    Esmeralda percebeu quando o olhar de Adam pousou em seus lbios. No mesmo instante, soube que ele iria beij-la. Espalmou as mos molhadas no peito largo, para 
repeli-lo, mas Adam no fez caso disso: inclinou-se e roou os lbios nos seus.
    No comeo, foi apensa isso: lbios insinuantes que roavam os seus numa carcia muda. Esmeralda o teria empurrado se Adam no a segurasse pelos ombros, imobilizando-a. 
Depois,  medida que aqueles lbios atiavam os seus, ela perdeu-se em um redemoinho de sensaes que nunca havia experimentado at ento.
    Deixou-se abraar sem oferecer mais resistncia. A maneira como Adam a cingia deixou-a fascinada. Ele tinha mos fortes, mas era evidente que a estreitava com 
todo cuidado, como se segurasse uma flor frgil. Esmeralda semicerrou as plpebras, embriagada com aquelas sensaes recm-descobertas, que lhe davam impresso de 
flutuar.
    - Ora, srta. Jewel - sussurrou ele, mal afastando os lbios dos seus -, parece que no est acostumada a beijar um homem.
    Esmeralda quis negar aquela afirmao, mas esse momento Adam aprofundou o beijo. Se por um lado seus movimentos eram fluidos e experientes, os dela revelavam 
receio e falta de jeito. A moa estava literalmente tremendo em seus braos. Adam bem que gostaria de passar a manh ali, beijando-a at que Esmeralda perdesse o 
medo e aprendesse a desfrutar a intimidade de um beijo. Ah, as coisas que ele poderia lhe ensinar...
    De sbito, retesou-se. Mas o que estava fazendo? Aquela no era uma mulher qualquer: era Esmeralda Jewel, e toda a sua aparente inocncia no passava de uma 
armadilha. Endireitou-se abruptamente. Seu desejo deu lugar  raiva.
    De todas as mulheres do mundo, Esmeralda era a ltima que haveria de desejar.
    
    
    Captulo 6
    
    Esmeralda respirou fundo. Sentia as pernas fraquejarem e fez um esforo para dissimular seu tremor. Naquele momento, parecia-lhe sumamente importante no deix-lo 
perceber quanto aquele beijo a afetara.
    Adam ainda tinha as mos pousadas em seus ombros e olhava-a com uma expresso indecifrvel. Esmeralda sentiu a necessidade de dizer algo, qualquer coisa que 
dissipasse a atmosfera de tenso entre os dois. Assim, falou de repente:
    - Quero que saiba que eu nunca tive inteno de alvej-lo pelas costas.
    Ele continuou a fit-la em silncio. Teve de reprimir um sorriso ante sua ingenuidade. Esmeralda no se dava conta o quanto era atraente, com os lbios rubros 
entreabertos e os grandes olhos verdes que se abriam desmesuradamente. E toda a emoo que agora sentia era visvel em seu semblante, a despeito de ela tentar disfar-la 
mudando de assunto.
    Diante do olhar perscrutador de Adam, Esmeralda corou e baixou o rosto.
    - Eu ia prevenir voc de que o estava seguindo... - prosseguiu, sem jeito. - Pretendia disparar um tiro de advertncia e mand-lo embora de minhas terras.
    Adam deslizou o indicador no leno que envolvia o pescoo dela. Era estranho ver seu leno em contato com a pele de Esmeralda.
    - Teria sido um erro, srta. Jewel.
    Ela ergueu o rosto.
    - Por qu?
    - Porque no gosto de disparos inesperados.
    - Mas voc estava em minha propriedade.
    - Tampouco gosto de ser seguido. Oh, devo admitir que foi muito competente. Pressenti sua presena, mas no consegui v-la em nenhum momento.
    Novamente, Esmeralda enrubesceu. Dessa vez, devido ao elogio implcito nas palavras dele.
    - Ento como soube que eu estava me aproximando.
    - Voc engatilhou seu rifle. E j perdi a conta de quantas vezes escutei esse som. Jamais poderia ignor-lo. Se quer saber, isso quase lhe custou a vida. Tenho 
o hbito de retribuir um tiro com outro. E dificilmente erro o alvo.
    Todo o calor do beijo que haviam trocado pareceu desvanecer-se para Esmeralda. Por que ainda tentava se justificar perante aquele homem irritante? L estava 
ele pronto para armar uma nova discusso.
    - Gostaria que me levasse para casa agora - disse simplesmente.
    - Com prazer, senhorita. Atrelarei os cavalos  carroa e pedirei a Zeb que a acompanhe - respondeu Adam.
    Ele se afastou, to ansioso por se ver livre de Esmeralda quanto ela estava de sair dali.
    Nisso, ouviram-se os sons de cavalos chegando. Adam apanhou o rifle depressa e saiu.
    - Esconda-se! - urgiu.
    Esmeralda ignorou-o. Sacou a prpria pistola, que sempre trazia no cano da bota, e escondeu-se s costas. Foi ento juntar-se a ele diante da porta. Dentro de 
poucos momentos, viram um grupo de dez cavaleiros.  frente deles vinha Cal McCabe, com expresso de poucos amigos.
    Ao reconhecer Esmeralda, o capataz fez um sinal aos pees, que apontaram seus rifles para Adam.
    - Largue a arma, Winter.
    Nesse meio tempo, Zeb contornou a cabana e apareceu de surpresa. Mirou Cal com seu prprio rifle.
    - Largue a arma tambm, velho. Vocs no conseguiram nos enfrentar - vociferou o capataz.
    - Acontece que invadiram minha propriedade. Tenho todo o direito de atirar - lembro-lhe Adam, ameaador.
    - Est tudo bem, Cal - interveio Esmeralda, guardando a pistola. - No sabamos que era voc quem estava chegando. Winter no fez nada de errado. Na verdade, 
ele salvou minha vida.
    - Salvou sua vida? - repetiu McCabe, olhando alternamente para Esmeralda e para Adam. - O que aconteceu?
    - Na noite passada, fomos atacados por um bando de pistoleiros - disse ela.
    - Pistoleiros! Mas... que pistoleiros?
    - Desconhecidos. Eu nunca os tinha visto antes. E no sei o que queriam. Cinco esto mortos. O sexto conseguiu escapar.
    Cal olhou rapidamente para Adam sem ocultar sua desconfiana.
    - Isso  estranho. Passamos a noite procurando voc e no vimos ningum.
    - Est insinuando que sua patroa mentiu? - perguntou Adam.
    - No. Estou dizendo que...
    - Basta! - interrompeu Esmeralda. - Cal, lamento que tenha passado a noite me procurando. No tive meios de avis-lo onde estava.
    - Voc sabe que eu no descansaria enquanto no a encontrasse.
    Ela pousou a mo no brao do capataz, sentindo que sua prpria tenso se dissipava. Aps o ataque da noite anterior, tinha comeado a suspeitar de tudo e de 
todos. Mas era um erro. Precisava confiar em seus amigos.
    Cal segurou-lhe a mo.
    - No sabe como fiquei aliviado em encontr-la. Voc est bem mesmo? Tem certeza que ele no a machucou... de alguma forma?
    - No, estou perfeitamente bem - assegurou-lhe Esmeralda, e corou de leve ao recordar o beijo que ainda lhe queimava os lbios.
    Virando-se para Adam, o capataz desculpou-se.
    - Lamento t-lo julgado mal, Winter. Obrigado, por ter tomado conta dela.
    Cal estendeu-lhe o brao e trocaram um aperto de mo. Mas a hostilidade mtua persistiu em seu olhar.
    - Gostaria que me acompanhasse at a cidade. Vamos registrar a ocorrncia no posto do xerife - disse McCabe.
    Adam assentiu com um meneio. Voltou-se para Zeb.
    - Provavelmente ficarei fora o dia todo. Depois que falar com o xerife, ainda preciso recolher o gado - avisou.
    A seguir, montou no cavalo, enquanto Cal passava s mos de Esmeralda s rdeas de sua montaria.
    Para Esmeralda, a cavalgada at a cidade pareceu durar uma eternidade. Ladeada por Cal e Adam, sentia o ar carregado de tenso. At mesmo os pees haviam notado 
a animosidade entre os dois homens, e conservavam-se em silncio. O fato de que a filha de Joseph Jewel tivesse sido encontrada s e salva no fora motivo de comemorao. 
Em vez disso, rondava o grupo a desagradvel sensao de que existia um assassino entre eles.
    Agora que estava em seu elemento, Esmeralda pde se permitir uma reflexo sobre o que acontecera na cabana naquela manh. No entendia como pudera ser to tola. 
Jamais permitira que um homem a tocasse com tamanha intimidade. Teve de reconhecer que, por momento, perdera totalmente o controle.
    Mas isso no tornaria a acontecer, prometeu a si mesma.
    Atravessaram a cidade, passando pelo estbulo, pela casa do ferreiro e pelo armazm de Durffe. Parara diante da cadeia. Cal, Esmeralda e Adam apearam e entraram 
no posto do xerife, seguidos pelos pees.
    
    Quent Regan ouviu a narrativa de Esmeralda, que sentara do outro lado de sua mesa. De quando em quando meneava a cabea em sinal de compreenso. Terminando o 
relato, perguntou:
    - Tem certeza de que no reconheceu nenhum dos pistoleiros?
    - No.
    Regan olhou para Adam. No confiava naquele forasteiro. Algum havia matado Joseph Jewel e, embora o juiz o houvesse declarado inocente, o xerife tinha l suas 
dvidas sobre o acerto desse veredicto.
    - E voc, Winter? - inquiriu com severidade - Nunca viu nenhum daqueles homens antes?
    Adam limitou-se a balanar a cabea numa negativa. Desde que tinham chegado ali, no dissera uma palavra. Sabia perfeitamente o que o xerife pensava dele. Alis, 
o que todos naquele recinto pensavam.
    - Faa um esforo de memria. Talvez tenha se desentendido com um dos pistoleiros no passado e agora ele queira se vingar.
    - Talvez - concedeu Adam.
    - Nesse caso, acha que os bandidos estavam atrs de voc e no da srta. Jewel?
    - Eu no disse isso.
    O xerife Quent olhou-o atnito.
    - Est sugerindo que aquele pistoleiros estavam atrs dela?
    Displicentemente, Adam encolheu os ombros.
    - Tambm no foi o que eu disse.
    O outro comeou a perder a pacincia. Projetou o corpo para frente e assumiu uma postura ameaadora.
    - Escute aqui, Winter, diga logo o que sabe. Vamos, desembuche!
    - Tudo o que sei  que eles eram matadores de aluguel.
    Quent endireitou-se.
    - E como chegou a essa concluso?
    - Eles agiram de forma calculada. Agora, se pretendiam me eliminar, poderiam de fato estar a servio de algum velho inimigo meu. Mas, se estavam atrs da srta. 
Jewel, isso significa que h um assassino na cidade. E quando tudo estiver terminado, ele continuar bem aqui.
    O xerife no pde deixar de admirar sua perspiccia. Lembrou-se do cadver de Joseph Jewel  beira de Pison Creek. Sim, ele havia sido alvejado deliberadamente, 
a pouca distncia. Havia um assassino na cidade, disso no restava dvida. Mas seria mesmo algum de Hanging Tree.
    - Tem algum palpite sobre a identidade do autor do atentado, Winter?
    Mais uma vez, Adam encolheu os ombros com indiferena.
    - Eles no deixaram nenhum carto de visita. E no mencionaram nomes.
    A atitude dele enervava Quent. Na opinio do xerife Adam mostrava-se calmo demais. E isso s servia para agravar as suspeitas que pesavam sobre ele.
    - Charles - chamou. - Providencie uma carroa para Poison Creek. Traga os corpos dos pistoleiros, Ficaremos esperando voc aqui. 
    
    Dois vultos moveram-se na gruta sombreada e espiaram os corpos cados  beira de Poison Creek.
    - Seis contra dois - um deles sussurrou ferozmente. - E os nicos que morreram foram aqueles que ficaram com meu dinheiro. Com explica isso?
    O pistoleiro engoliu seco.
    - Voc nos garantiu que o servio seria fcil. Pensamos que bastava atirar e ir embora. No imaginvamos que amos nos meter no meio de um tiroteio.
    - No imaginavam! - Seguiu-se um silncio soturno. - Pela soma que lhes paguei, tenho direito de exigir resultados. Espero, pelo menos, que tenha sido sensato 
a ponto de esvaziar os bolsos de seus comparsas. Se as autoridades virem o dinheiro que lhes dei, podero desconfiar.
    O pistoleiro remexeu nos prprios bolsos e mostrou um punhado de notas.
    - Est tudo aqui.
    O dinheiro foi rapidamente arrebatado de sua mo. Depois de cont-lo, o outro homem sibilou:
    - Pois no ver mais nem um centavo enquanto no fizer seu trabalho direito.
    Dito isso, virou-se e partiu a cavalo.
    Apesar do vento frio, o pistoleiro notou que estava transpirando. J havia sido pago para executar uma variedade de crimes, inclusive assassinatos. Mas, pela 
primeira vez em sua vida, tivera a sensao de estar diante de uma personificao do Mal.
    
    Com o auxlio de Charles Spitz e de alguns pees, os corpos foram retirados da carroa. O xerife examinou-os com desgosto. Eram todos homens jovens e com bom 
preparo fsico. E, como bem observara Adam, pareciam pistoleiros profissionais.
    Quent virou para Esmeralda.
    - Voc ainda no explicou o motivo de sua participao no episdio do tiroteio.
    Ali estava a pergunta que ela mais havia receado.
    - Eu estava cavalgando para a fronteira norte da fazenda - respondeu rapidamente.
    - Por qu?
    - Bom... - Esmeralda umedeceu os lbios. - Eu apenas queria dar uma volta para espairecer um pouco. E, no caminho, encontrei Adam Winter.
    O xerife estreitou os olhos.
    - Winter estava em sua propriedade? Violou o acordo que fez?
    - No, no - Esmeralda apressou-se em esclarecer. - Na realidade, estava tentando honr-lo. Seu rebanho havia de desgarrado e ele procurava conduzir os animais 
para fora de minha propriedade. Ento, de repente, avistamos os pistoleiros ao longe...
    - E no tiveram tempo de fugir?
    - No, por que... - Aqui, ela se atrapalhou um pouco. Disse ento a primeira coisa que ocorreu: - Ns tivemos de parar. 
    - Parar?
    Esmeralda aquiesceu enfaticamente. No sabia mentir. Mas, ao mesmo tempo, preferia morrer a revelar que sara no encalo de Adam. A seu ver, o fato de estar 
passando por ali para espairecer ou para seguir o rastro dele no mudava nada.
    O nico problema  que aquela pequena mentira, que de incio lhe parecera inofensiva, agora estava deixando-o numa situao muito embaraosa.
    Adam, por sua vez, comeava a de divertir com a verso de Esmeralda. Sabia que ela mentira para manter a pose e j no podia voltar atrs. Estava metendo os 
ps pelas mos.
    - Sim, parar - ela confirmou. - Eu ca do cavalo - acrescentou desajeitadamente.
    - Caiu do cavalo! - exclamou Cal, incrdulo.
    - Foi o que eu disse. O que h de errado nisso? - perguntou Esmeralda na defensiva.
    - Nada... s que voc monta bem e Sunrise  uma gua mansa. No consigo imaginar como ela iria derrub-la.
    - Alguma coisa assustou Sunrise. Ela empinou, me derrubou e fugiu. Adam Winter me colocou em sua garupa. Corremos na direo do rio e achamos que havamos despistado 
os homens. A decidimos esperar at ter certeza que haviam ido embora.
    - SE queriam passar despercebidos, por que acenderam uma fogueira? - impacientou-se Quent.
    - Ns... pensamos que o perigo havia passado.
    - Pois tiveram sorte de no morrer crivados de balas!
    - Certamente teramos morrido se Adam no percebesse a aproximao dos pistoleiros. Ele me carregou para trs de uma moita, onde fiquei a salvo dos disparos.
    Nesse ponto, todos os homens da sala olharam para Adam. Detestavam ter de mudar de opinio a respeito daquele forasteiro. Para eles, ainda era o suspeito da 
morte de Joseph Jewel.
    - E no se feriram durante o tiroteio? - quis saber o xerife.
    - No... Eu apenas sofri um corte no pescoo. Um dos bandidos usou-me como escudo e me ameaou com uma faca...
    Furiosos, Cal McCabe praguejou violentamente.
    - Mas Adam blefou e conseguiu distra-lo - concluiu Esmeralda. - Depois atirou nele. No meio da confuso, o chefe do bando fugiu.
    - Nesse caso, voc  um heri, Winter - Quent admitiu com m vontade.
    Adam fez um gesto negativo.
    - Apenas cumpri o meu dever.
    O xerife assentiu e deu-lhe as costas. A histria toda no o convencia. Era bvio que os dois estavam escondendo alguma coisa. Ele providenciaria para que os 
corpos dos pistoleiros fossem examinados pelo Dr. Prentice. As balas da arma de Winter estavam alojadas nos cadveres. Se uma delas fosse igual  que provocara o 
ferimento fatal em Joseph Jewel, a sorte de Adam Winter estaria selada.
    Esmeralda, Adam, Cal e os pees deixaram o posto do xerife. Na rua principal, grupos de moradores reuniam-se aqui e ali para esperar a chegada da diligncia 
que traria as encomendas da semana.
    A carruagem dobrou a esquina e parou. O condutor apeou, abrindo a portinhola para um nico passageiro.
    Uma jovem mulher aceitou a mo que ele lhe oferecia e desceu do coche. Vestia um casaco de viagem sofisticado, de cor escura. Se vestido, que o casaco deixava 
entrever, era rosa-plido.
    Mais que depressa, a recm-chegada abriu uma sombrinha para proteger a tez plida do sol. Tinha rosto delicado e cabelos loiros. A pele de porcelana ressaltava 
o azul de seus olhos.
    - Por favor, tome cuidado ao descarregar minha bagagem - pediu ao condutor, revelando um sotaque tpico das grandes cidades do Leste.
    - Sim senhorita. - Ele depositou um ba e uma valise forrada na calada de madeira. - Vai ficar muito tempo na cidade?
    Ela olhou em torno de si, com ar incerto.
    - Ainda no sei. Sabe onde posso alugar uma charrete? Preciso ir  Fazenda Jewel.
    Esmeralda e seus acompanhantes, que iam passando estacaram.
    - No pude deixar de ouvi-la. Sou Esmeralda Jewel, proprietria da fazenda. O que deseja? - perguntou aproximando-se da desconhecida.
    - Oh, bom dia. Meu nome  Prola - disse a outra e sorriu.
    - Muito prazer. Seja bem-vinda a Hanging Tree. O que a traz ao Texas?
    Prola levou a mo aos lbios para reprimir uma exclamao.
    - Oh, meu Deus... Vejo que voc no sabe nada a meu respeito. Imagino que papai nunca lhe tenha falado de mim.
    - Seu pai? - indagou Esmeralda, sem entender.
    -  melhor eu me explicar. Meu sobrenome  Jewel.
    - Jewel? Mas... - Esmeralda ficou perplexa, e seu sorriso de boas-vindas morreu-lhe nos lbios.
    Mas, antes que pudesse dizer qualquer coisa, a recm-chegada continuou:
    - Li no jornal de Boston sobre a morte de Joseph Jewel. Ele era meu pai. Estou aqui para visitar seu tmulo.
    
    
    
    
    Captulo 7
    
    Vrios moradores da cidade haviam parado para ouvir a discusso, soltando exclamaes de pura incredulidade. A multido, vida de novidades, comeava a forma 
um crculo ao redor das duas mulheres.
    Esmeralda estava absolutamente atnita. Aquela estranha, filha de Joseph Jewel? Impossvel! Isso significaria que ela era sua...
    Tudo no passava de uma mentira srdida, repetiu para si mesma. Seu pai jamais...
    Controlando o ultraje que a fazia tremer de raiva, conseguiu por fim dizer:
    - Tenho certeza de que muita gente leu sobre a morte de meu pai. Suponho que a tentao de ganhar dinheiro fcil possa atrair alguns impostores  cidade. Mas 
eu lhe garanto, srta. - Ela hesitou, incapaz de chamar a outra pelo seu sobrenome. - Eu lhe garanto que meu pai era um homem ntegro e deixou apenas uma herdeira. 
Agora, devo pedir-lhe que v embora. Lamento que tenha perdido a viagem.
    Tendo encerrado seu pequeno discurso, Esmeralda girou sobre os calcanhares e comeou a se afastar.
    - Eu  que lamento esta situao - replicou a outra com seu refinado sotaque do Leste. - S agora me dou conta de que deve ser um grande choque para voc descobrir 
que tem uma irm, do mesmo modo como foi um choque para mim ler seu nome nos jornais. Deve acreditar que no tenho nenhum interesse em sua fortuna ou em sua fazenda. 
Mas no posso renegar meu sobrenome. Sou uma Jewel, e Joseph Jewel era meu pai. A morte dele causou-me infinita tristeza. Tudo o que peo  o consolo de visitar 
seu tmulo.
    Esmeralda montou no cavalo. Olhou-a do alto da sela, como uma pequena rainha sentada em seu trono.
    - Pois est pedindo muito, dona. Ele era meu pai. Nunca teve outra filha. No permitirei que uma impostora desonre a memria dele, especialmente agora que no 
est mais entre ns para se defender dessa calnia.
    - P favor, tem de acreditar em mim. Eu nunca mentiria sobre meu pai. No partirei enquanto no for ao tmulo dele.
    - Pare de cham-lo de pai! - exigiu Esmeralda num tom rspido.
    - Mas ele era...
    - Escute aqui, eu no posso obrig-la a sair da cidade. Mas vou lhe dar um aviso: se aparecer na minha fazenda vai levar chumbo, entendeu bem?
    Sem dizer mais uma palavra, a outra levantou o rosto e sustentou o olhar.
    Adam, que as observava a pouca distncia, surpreendeu-se com a semelhana das duas. Embora a cor de seus olhos e de seus cabelos fosse muito diferente, e usassem 
roupas de estilo completamente dspares, elas eram muito parecidas. Uma espelhava a outra ao erguer o queixo numa atitude de desafio, e entreolhavam-se com a mesma 
obstinao.
    - O que esto esperando? Vamos embora! - ordenou Esmeralda a seus homens.
    Eles montaram depressa seus cavalos e a seguiram, deixando atrs de si um rastro de poeira e uma multido de curiosos.
    Quando a poeira assentou, Adam viu a outra moa apanhar sua valise e afastar-se. Quando passou por ele, apertou os lbios trmulos.
    Adam montou no cavalo e sorriu sem convico. Aquele fora um dia infernal. E, pelo jeito, estava longe de terminar...
    Ps o cavalo em movimento e lanou um ltimo olhar  recm-chegada, que agora dobrava a esquina com passos delicados. Ao que parecia, estava resolvida a visitar 
o tmulo de Joseph Jewel e nada a deteria.
    Ele perguntou se a cidade de Hanging Tree seria grande bastante para duas Jewel. Especialmente porque uma delas era um osso duro de roer como Esmeralda.
    Quanto  outra, ainda era um mistrio.
    
    Adam freou o cavalo numa elevao do terreno ao se deparar com as reses que pastavam s margens de Poison Creek. Diante daquela paisagem buclica, era difcil 
imaginar que o Texas abrigasse tanto dio e violncia.
    Fosse como fosse, em outro tempo, ele tambm havia visto sua amada Maryland tingir-se de sangue, transformando-se no palco de uma guerra funesta. Pai contra 
filho. Irmo contra irmo...
    Ele afastou do pensamento as lembranas amargas do passado. Era melhor pensar no futuro. Porque o futuro acenava com novas esperanas.
    Ao divisar uma nuvem de poeira que avanava na estrada, inclinou-se sobre a sela para ver quem chegava. Decorridos alguns minutos, no teve mais dvidas: Uma 
pequena charrete, puxada por um nico cavalo, tomava o rumo da fazenda Jewel. Mesmo a distncia, ele pde distinguir um vestido cor-de-rosa e uma absurda sombrinha.
    Um sorriso formou-se em seus lbios. Ento Prola Jewel resolvera mesmo ignorar a ameaa de Esmeralda.
    Ah, ele adoraria ver o circo pegar fogo! Quando comeou a descer o morro, avistou outra nuvem de poeira. Era bem maior que a outra. Apertou os olhos para enxergar 
melhor e praguejou.
    Dzias de pees cavalgavam em duas colunas, liderados por uma figura cujos cabelos de fogo balanavam ao vento como uma bandeira vermelha.
    Sem perder tempo, Adam se ps a galopar. Precisava intervir antes que algum se machucasse. S diminuiu o passo quando emparelhou com a carruagem de Prola. 
Ela olhou-o na defensiva e puxou as rdeas.
    - Se Esmeralda o mandou aqui para me deter...
    - No, senhorita. - Ele enxugou a testa com a manga da camisa, aliviado de t-la alcanado a tempo. - S vim avis-la de que Esmeralda e seus homens esto vindo 
para c. Se quiser, posso escolt-la de volta  cidade.
    Prola examinou-o por um longo momento.
    - No o vi na cidade esta manh?
    - Sim, senhorita. Meu nome  Adam Winter.
    -  um prazer conhec-lo, Sr. Winter. Sou Prola Jewel. Agradeo-lhe o aviso, mas no tenho inteno de retroceder.
    - Mas pode ser perigoso...
    - Passe bem. - Assim dizendo, ela moveu as rdeas e o cavalo atrelado  charrete partiu trotando.
    Adam correu para alcan-la.
    - Importa-se se eu acompanh-la?
    Ela perscrutou-o sob a sombrinha.
    - Por qu?
    - J tive uma amostra do mau gnio de Esmeralda. Voc no sabe o que est fazendo.
    - Sei muito bem o que estou fazendo, Sr. Winter.
    - Adam - ele corrigiu com um sorriso.
    - Adam. Como eu disse a Esmeralda, no partirei enquanto no ver o tmulo de meu pai. E nada, nem mesmo a cavalaria, poder me impedir.
    Adam tinha l suas dvidas quanto a isso, mas preferia guardar seus pensamentos para si.
    Os dois prosseguiram. E, afinal, aconteceu o inevitvel no meio da estrada de terra que cortava a fazenda Jewel, a frgil charrete e Adam ficaram frente a frente 
com Esmeralda e seu "soldados".
    Quando ela viu Adam, seus olhos lanaram centelhas esverdeadas.
    - Ento planeja se vingar bisbilhotando os assuntos dos outros, Winter? Pois v cuidar de sua vida! Voc j tem problemas demais com que se ocupar.
    - Concordo. Mas algum tem de dissuadir voc dessa asneira toda. - Adam virou-se para Cal. - O que h, McCabe? No a preveniu de que no pode simplesmente atirar 
nessa mulher e ficar impune?
    O capataz deu um suspiro cansado.
    - Eu tentei. Mas ela no quis me dar ouvidos.
    - E por que no posso atirar, hein? - gritou Esmeralda. - Essa impostora invadiu minha propriedade. Voc mesmo ameaou disparar contra meus homens esta manh, 
quando foram  sua cabana. Eu estou dentro dos meus direitos. A cidade inteira ouviu quando adverti a essa... pessoa que ficasse longe de minha fazenda.
    Adam aproximou-se. Esmeralda levantou o rifle, at que o cano da arma tocasse o peito dele. Os dois se entreolharam fixamente.
    A despeito de toda a raiva que sentia, Esmeralda ficou bastante perturbada com a proximidade de Adam. E maldisse silenciosamente a capacidade que ele tinha de 
afetar seu autocontrole.
    - No estou interessado em como vai justificar seu ato perante a cidade - disse Adam brandamente. - Estou aqui para lembr-la de que, se cumprir a ameaa, ser 
responsvel pela morte de sua irm.
    - Ela no passa de uma mentirosa! - descontrolou-se Esmeralda, odiando-o por tomar o partido da forasteira. - No  filha de meu pai coisa nenhuma! Voc  um 
tolo se acredita nela!
    - Voc  que est sendo tola ao se precipitar assim. Existem leis em Hanging Tree. E juzes que cuidaro para que essas leis sejam respeitadas.
    - Oh, eu conheo bem a justia deste estado. Vi muito bem quando o juiz absolveu voc de seu crime. Agora saia da minha frente, Winter!
    Ela cutucou-o com a ponta do rifle. Adam no se moveu.
    - Ser que uma vez na vida pode refletir antes de agir? Como se sentiria se atirasse nessa mulher e depois descobrisse que ela dizia a verdade?
    Esmeralda fuzilou-o com o olhar. O sangue fervia em suas veias.
    - Eu tenho uma prova do que estou dizendo - interrompeu Prola.
    Enquanto abria a valise, todos se viraram para olh-la na expectativa. Ela desceu da charrete e estendeu uma folha de papel para Esmeralda.
    - O que  isso? Esmeralda perguntou num tom glacial, apeando do cavalo.
    - Minha certido de nascimento, com o registro do nome de meus pais.
    - Quem me prova que no foi falsificada?
    - Ento leia isto. - Prola entregou-lhe um mao de papis amarrado com uma fita azul. - So cartas que papai me escreveu. Voc reconhecer a caligrafia dele.
    Com um gesto de desdm, Esmeralda pegou as cartas, certa de que provaria que a outra era uma impostora.
    Qual no foi sua surpresa quando, ao desdobrar a primeira folha, viu diante de si a letra familiar de Joseph Jewel! Deixou as cartas carem no cho, tomada de 
horror.
    - No vou me dignar a ler isso. No quero compactuar com uma mentira - disse, mais que depressa.
    Porm, a semente da dvida fora lanada. E ela sentia um crescente temor de que aquela desconhecida estivesse sendo sincera. Encolhendo-se imperceptivamente, 
observou Prola recolher as cartas espalhadas no cho.
    - Eu gostaria que voc nunca tivesse vindo para c - murmurou Esmeralda. - Eu gostaria que... - Calou-se de repente ao ver algo brilhar no pescoo da outra. 
Olhando com ateno, percebeu que se tratava de um pingente de ouro com duas incrustaes: um nix negro e uma Prola radiante. - Oh, no! - exclamou aterrada, e 
retraiu-se mais ainda.
    - O que houve? - indagou Prola, franzindo o cenho.
    - O seu... pingente...
    Com dedos trmulos, Esmeralda abriu o primeiro boto da camisa e puxou uma corrente de ouro que lhe circundava o pescoo. Na palma de sua mo reluzia um pingente 
idntico. A nica diferena  que, no lugar da perola resplandecia uma esmeralda perfeita.
    - Foi um presente de papai. Ele me deu esta jia quando completei quinze anos - explicou com voz embargada.
    Prola afagou ternamente seu prprio pingente.
    - Eu tambm ganhei o meu quando fiz quinze anos. Papai me disse que era um lembrete de que ele sempre estaria a meu lado. O nix era sua pedra preferida.
    - Papai me disse a mesma coisa...
    Confusa e magoada, Esmeralda pulou sobre a sela do cavalo. Sentia uma urgente necessidade de manter uma certa distncia daquela... pessoa.
    - Eu a levarei para ver o tmulo de papai - concedeu, muito a contragosto. - Mas depois, deve ir embora. No quero que volte para c nunca mais. Fui clara?
    Prola fitou-a em silncio e concordou com um meneio. Voltou para a charrete. Ao instalar-se no assento, relanceou o olhar para as fileiras de pees armados. 
Em seguida, virou-se para Adam. Naquela vasta terra que era o Texas, ele fora o nico a demonstra-lhe um pouco de simpatia.
    - Eu gostaria que Adam Winter me acompanhasse - pediu.
    Esmeralda encarou-a com desconfiana.
    - Porque confio nele.
    - Claro. Uma vbora logo fareja a presena de outra - insultou Esmeralda. - Vamos logo. Quero voltar para casa antes que anoitea.
    Dito isso, afastou-se com os pees a pleno galope.
    - Espero que no incomode de me acompanhar, Sr. Winter - Prola disse em tom de desculpas.
    - Adam - ele tornou a corrigir. - No se preocupe. Estou contente de ver que a situao se resolveu sem derramamento de sangue. Agora  melhor nos apressarmos. 
Parece que Esmeralda quer terminar logo com isto.
    Quando chegaram ao topo da colina onde Joseph Jewel fora enterrado, Prola desceu da charrete e correu para a sepultura.
    - Mas que tmulo... primitivo... - exclamou ao se deparar com a tumba simples, que no passava de um monte de terra coberto de pedras. Mal teve tempo de se recompor 
discretamente para esconder sua decepo, e j comeou a chorar aos borbotes. - Oh, papai! No imagina como me di saber que nunca mais estar a meu lado!
    Com um estremecimento, Esmeralda reconheceu naquele desabafo os seus prprios sentimentos. Era muita crueldade que a vida lhe tivesse tirado a me e depois o 
pai. Sentia-se s no mundo. Assustada. E zangada por ter sido privada de sua famlia.
    Desmontou do cavalo e foi postar-se ao lado de Prola. Desajeitadamente, tocou-lhe o ombro, sentindo que ela ficava rgida.
    - Eu... sei como se sente - disse baixinho.
    - No Ningum sabe como eu me sinto!  como meu mundo tivesse mergulhado na escurido! Papai era meu porto seguro... o amigo de todas as horas. Eu esperava ansiosas 
suas cartas. Era a pessoa mais importante de minha vida.
    -  verdade... Ns fazamos tudo juntos. Quando ele viajava, eu sentia muito a sua falta. Era como se a vida parasse... Mas, quando ele voltava, parecia trazer 
consigo um raio de sol.
    Prola assentiu.
    - Ele me fazia rir quando eu estava triste - comentou, nostlgica.
    - Ou quando eu estava zangada - arrematou Esmeralda. - Papai me provocava at eu esquecer a raiva e comear a rir.
    - Ele era um homem realmente excepcional...
    - Sim, extraordinrio...
    Prola fungou, sentindo um n na garganta, enquanto Esmeralda lutava para conter as lgrimas. No choraria em publico com a irm. Isso era um luxo que uma mulher 
da cidade poderia se permitir. J uma texana precisava se mostrar forte. 
    - Eu me sinto completamente sozinha - foi tudo o que conseguiu dizer.
    - Eu sei - solidarizou-se Prola, e segurou-lhe a mo. - Desde que soube da morte de papai, senti-me perdida. Sei que isso no faz sentido. Sou uma mulher madura 
e independente. Mas a palavra rf me horroriza. Eu me sinto... me sinto... Oh!
    Ela voltou a chorar convulsivamente. Esmeralda deixou escapar um longo suspiro, carregado de emoo.
    Diante de Adam e dos pees, as duas viraram-se uma para a outra, ao mesmo tempo, e se abraaram.
    Prola derramava lgrimas livremente, Esmeralda murmurava-lhe palavras de consolo. Mas tudo o que dizia s fazia reavivar sua dor e arrancar renovados soluos 
da irm.
    - Eu o amava de todo o corao - confessou-lhe Esmeralda.
    - Ele era o melhor pai do mundo - resumiu Prola.
    E afinal, exauridas pelo sofrimento e pela saudade, elas se separaram. Lado a lado, ajoelharam-se e rezaram diante do tmulo.
    Quando tornaram a se levantar, Esmeralda disse:
    - Sei que, para uma mulher do Leste como voc, esta sepultura pode parecer muito modesta. Mas este era o lugar favorito de papai. Daqui, ele podia ver as montanhas, 
os morros, o rio e as pastagens. Daqui, ele podia ver a terra que tanto amava.
    - Ento me alegro que voc tenha escolhido este lugar como sua ltima morada. Para mim,  um alvio saber que papai est descansando aqui.
    Depois elas recaram no silncio, cada qual absorta nos prprios pensamentos.
    - Se no se importa, gostaria de deixar aqui meu diploma. Sei que papai teria muito orgulho de v-lo - disse Prola num dado momento.
    Ela tirou um canudo da valise, abaixou-se e deixou-o perto da sepultura, cobrindo-o com um pouco de terra. Quando se levantou, mirou o cu que ia se apagando 
lentamente.
    - Logo ir anoitecer.  melhor eu voltar  estalagem da Sra. Potter.
    - Est hospedada l? Por que no fica aqui? - convidou Esmeralda. Mas, mal falou, e j se arrependeu de sua palavra. No sabia por que, de repente, estava tentando 
se aproximar daquela forasteira.
    Prola pareceu igualmente surpresa com seu convite.
    - Ora, no precisa se incomodar. Eu s queria ver a sepultura de papai.
    - Fico feliz que tenha realizado seu desejo. Mas gostaria que viesse comigo - insistiu Esmeralda, e um sorriso fugaz passou por seus lbios. - Detesto jantar 
sozinha.
    - Verdade? Eu tambm. Eu me pergunto o que mais teremos em comum.
    - Pouco coisa, acredito eu - comentou Esmeralda, observando a moa de aparncia impecvel que tinha diante de si.
    De sbito, as duas pareceram terrivelmente consternadas. Haviam partilhado seus sentimentos mais ntimos em um momento de fraqueza. Agora, voltavam a ser duas 
estranhas.
    Esmeralda montou em seu cavalo e lanou um ltimo olhar de desprezo a Adam. Ele ajudou Prola a subir na charrete.
    - Obrigado por interceder em meu favor, Adam. Foi muita gentileza da sua parte - agradeceu ela.
    Adam tambm montou em seu cavalo e tocou a aba do chapu.
    - Foi um prazer, Prola. Espero que voc e Esmeralda tenham oportunidade de se conhecer melhor. Acho que seu pai teria gostado de v-las juntas.
    A estava uma verdade que ningum poderia negar.
    
    
    Captulo 8
    
    - Podemos tomar o caf perto da careira - sugeriu Esmeralda.
    Haviam terminado de jantar e Carmelita j se fora com seu marido, Jos. As duas moas ficaram ento sozinhas, rgidas e constrangidas.
    Esmeralda acomodou-se no sof, esticou as pernas e deu um suspiro. Ao lado dela, Prola sentou-se com todo decoro, as pernas muito juntas e a xcara delicadamente 
equilibrada sobre os joelhos.
    Durante a refeio, a conversa fora polida e trivial. Cada uma das irms cuidadosamente evitara tocar no assunto que dominava seus pensamentos. Mas Joseph Jewel 
era de fato o interesse central das duas.
    - Foi bondade do Sr. Winter interceder a meu favor - comentou casualmente Prola.
    - Voc quer dizer intrometer.
    A outra captou uma nota de emoo na voz de Esmeralda. Fitou-a intrigada.
    - Voc no gosta de Adam Winter?
    - No confio nele.
    - Por qu?
    - Ele foi acusado de matar papai.
    - Oh! - Prola levantou as mos aos lbios, escandalizada. - Mas... se o matou, como  que ainda est em liberdade?
    - O juiz determinou que no era culpado.
    - Ento ele  inocente.
    - H uma diferena muito grande entre o que um juiz decide e a realidade - objetou Esmeralda, e contou  irm tudo sobre o assassinato de Joseph, o julgamento 
e o veredicto final. Depois, quase com relutncia, revelou como Adam lhe salvar a vida.
    Prola ficou um instante pensativa enquanto bebericava o caf. Por fim, concluiu:
    - Esse no me parece o comportamento tpico de um matador. Espero que, para o bem de todos, o assassino que matou papai seja logo desmascarado. Quanto ao Sr. 
Winter, devo dizer que ele se portou como um perfeito cavalheiro.
    Cavalheiro. Aquela palavra foi uma alfinetada no amor-prprio de Esmeralda. Ela lembrou-se de como Adam a beijara na cabana e disse a si mesma que no havia 
nada de cavalheiresco naquilo.
    O estranho calor que sempre a dominava quando estava perto dele comeou a insinuar-se na boca de seu estmago. Rapidamente, tratou de mudar de assunto e virou-se 
para a irm, que contemplava o fogo.
    - Conte-me sobre sua vida em Boston, Prola.
    - Oh, no h nada de extraordinrio para contar. Moro em uma pequena casa com canteiros de flores e uma adorvel cerca branca. Quando papai vinha me visitar... 
- Percebendo quo difcil era para Esmeralda aceitar que o pai levara uma vida em segredo, fez uma pausa e a seguir prosseguiu desajeitadamente: - L perto tem muitas 
lojas, uma costureira, um chapeleiro, um sapateiro. Um mercado de peixes e outros estabelecimentos onde compro mantimentos.
    Sua descrio distraiu a irm da profunda angstia que sentia.
    -  estranho - refletiu Esmeralda com uma ponta de curiosidade. - No consigo me imaginar abrindo a janela e vendo outras casas, lojas e pessoas andando pela 
calada. Acho que no iria gostar disso.
    - Mame amava Boston. Papai me contava sobre sua vida no Oeste e eu sonhava em vir para c. Mas minha me dizia que o Texas  um estado enorme e rido, onde 
a violncia impera e no se fazem amigos sinceros. No fundo, ela devia ter medo de que eu a abandonasse para ficar com papai.
    - E agora que veio para c, o que voc acha?
    - Oh, estou absolutamente encantada! Essa parte do pas  fascinante... As montanhas, as plancies, as exticas formaes rochosas... E as pessoas, to francas 
e hospitaleiras! - Prola deu um suspiro. - Este estado  nico.
    Seus elogios agradaram Esmeralda. Ela quis se colocar no lugar da irm para imaginar o que a outra sentia. Tentou visualizar aquelas terras como se as visse 
pela primeira vez, abarcando-as com todo o frescor do olhar de um visitante. Mas era impossvel. No tinha termos de comparao para definir o Texas. Para ela, aquele 
estado sempre fora o nico mundo que conhecera.
    - O que mais h em Boston?
    - Bem, l sempre se organizam chs e festas deslumbrantes.
    - Chs e festas? Voc vai a recepes sociais todos os dias?
    - Claro que no! - Prola riu, e Esmeralda sentiu-se confortada com o som de seu riso. - Espero conseguir um emprego logo. Estudei em uma escola de moas e pretendo 
ser professora.
    - Interessante. E como era essa escola de moas?
    - Hum... A sede era um grande era um grande edifcio, com dormitrios no andar superior e salas de aula no trreo. Estudvamos em regime de internato, mas como 
eu morava perto dali, deixavam-me ir para casa no final do dia.
    - E o que vocs estudavam?
    - Ingls, matemtica, histria, biologia e muitas outras disciplinas. E,  claro, etiqueta e todas as artes femininas.
    Esmeralda no fazia a menor idia do que fossem as "artes femininas". Mas achou que gostaria de histria e cincia.
    - Sua me devia ter muito orgulho de voc - disse, cheia de admirao.
    - Nem tato - Prola replicou, com um gesto de descaso. - Mame insistiu que eu tivesse uma educao para poder me sustentar no futuro. No vim de uma famlia 
rica. Mas fale-me um pouco de voc. No estudou?
    - At alguns anos atrs, s existiam umas poucas casas na cidade. Escola, nem pensar. Imagino que, aos olhos de uma bostoniana culta, Hanging Tree no passa 
de um fim de mundo - Esmeralda respondeu, um pouco envergonhada de seu provincianismo.
    - No diga tolice. A cidade  adorvel. O cocheiro foi muito amvel. E a Sra. Potter no poderia ter se mostrado mais gentil quando solicitei um quarto.
    Esmeralda riu.
    - Isso no me surpreende. No  sempre que ela encontra hspedes, sobretudo uma hspede to alinhada e cheirosa - Ela respirou profundamente. - Que cheiro  
esse?
    - gua-de-rosas. Quer passar um pouco?
    - Quem, eu? - espantou-se Esmeralda, pondo-se a rir.
    Fazia muito tempo que no se sentia to descontrada e despreocupada. Era surpreendentemente fcil conversar com outra mulher. Estranho... Sabia que ela e a 
irm jamais poderiam ser amigas. Por outro lado, era bom conversar com ela. Nunca tivera uma amiga ntima. Carmelita no contava, pois tinha idade para ser sua av.
    - E por que eu iria querer passar perfume? - perguntou, tomando flego.
    Prola sorveu mais um pouco de caf.
    -  refrescante. Reanima e tem um cheiro adorvel.
    Assim dizendo, ofereceu-lhe um pequeno frasco de vidro finamente trabalhado.
    Esmeralda friccionou um pouco de gua-de-rosas nas tmporas. Adorvel. Prola parecia gostar bastante daquela palavra. Combinava com ela. Quanto mais convivia 
com aquela moa da cidade grande, mais se dava conta de que no era uma farsante. Prola era um pessoa... adorvel. Uma jovem que pranteava a morte de seu...pai.
    Esmeralda apertou os olhos para afugentar as lgrimas.
    - Voc ainda no me falou sobre sua educao - disse Prola.
    - Ah, no h muito que falar. No temos escola em Hanging Tree. No precisamos de uma. As mes ensinam as filhas e os pais ensinam os filhos.
    - Mas voc me contou que sua me morreu quando ainda era beb. Quem a educou?
    - Papai. Ele me ensinou tudo o que eu precisava saber. No existe cavalo que eu no consiga enlaar e montar. Papai costumava dizer que eu atirava quase to 
bem quanto ele.
    Se Prola ficou chocada com semelhantes elogios, no o demonstrou. Em vez disse, indagou:
    - Voc sabe ler e escrever?
    - Sei, sim. E papai me ensinou a fazer contas para ajud-lo a administrar a fazenda.
    - Isso  bom - aprovou a irm. - Mas existem certas coisas que s uma mulher poder lhe ensinar.
    - Que coisas?
    Prola corou violentamente.
    - Coisas de mulher... como cuidados com o corpo e o trato com os homens.
    Agora, a estava um assunto que realmente interessava Esmeralda. Ser que Prola poderia aconselhar-lhe a melhor maneira de lidar com os inquietantes sentimentos 
que a assaltavam cada vez que ficava perto de Adam Winter? Mas ela logo descartou a idia. Ficava embaraada demais para confessar algo to ntimo, to perturbador.
    As duas se quedaram em silncio durante alguns minutos, contemplando o fogo.
    Prola olhou em torno de si a notou a miscelnea de mveis e objetos que decoravam a sala de estar. Cadeiras entalhadas de espaldar alto do Mxico. Banquinhos 
ao estilo europeu. Tapete persa. E cortinas artesanais irlandesas. Sua irm, entretanto, era uma pessoa extremamente simples e no parecia fazer o menor caso daquele 
luxo.
    - De onde veio essa moblia to extica?
    - Papai comprou-a durante sua viagens para o... Leste e a Califrnia.
    Esmeralda titubeou um pouco. Nunca prestara ateno nos mveis, mas agora lhe ocorria que o pai encontrar mais do que objetos exticos em suas viagens: encontrara 
outra mulher e uma filha. Ah, e ela que pensava saber tudo a respeito dele!
    - Papai gostava de visitar lugares diferente e se interessava por artesanatos de outros povos - disse, sentindo a necessidade de falar do pai para preencher 
sua ausncia com as lembranas. - E adorava seu trabalho. No era o dinheiro que o interessava. O que lhe importava era fazer as coisas direito. Eu sou assim tambm. 
E, pela memria de papai, quero dar continuidade a seu trabalho.
    Prola percebeu o desespero dela. Esmeralda estava tentando furiosamente convencer-se de que conseguiria viver sozinha.
    - A morte no  um fim, mas apenas uma passagem - consolou-a, segurando-lhe a mo.
    - Eu sei... Eu tento... - Esmeralda se interrompeu, e engoliu com dificuldade. - Tento imaginar que papai est a meu lado. Mas...
    Novamente, as duas caram em silncio, pouco  vontade para compartilhar seu luto. E, exceto pelos momentos que haviam passado diante da sepultura, pareciam 
determinadas a prantear a morte do pai a ss.
    Ao ver Prola disfarar um bocejo, Esmeralda lembrou-se de que ela tivera um dia exaustivo. Tirando a xcara vazia de suas mos, desculpou-se:
    - Sinto muito. No pretendia ret-la por tanto tempo. Voc deve estar muito cansada depois da longa viagem que fez. Venha, vou lhe mostrar seu quarto.
    Subiram as escadas e Esmeralda indicou-lhe um aposento espaoso, com lareira, um tapete de peles e uma cadeira de balano. Ao lado da cama larga havia uma mesinha 
com uma bacia de porcelana.
    -  um quarto realmente adorvel - elogiou Prola, encantada.
    - Bem... se precisar de alguma coisa, estou no cmodo ao lado.
    - Obrigada, Esmeralda. Boa noite.
    - Boa noite...
    Esmeralda foi ento para seu quarto. Mas quem disse que conseguia dormir? Estava agitadssima com os ltimos acontecimentos. O ataque dos pistoleiros... E, de 
repente, a chegada de uma irm que nunca conhecera! No sabia bem como agir com ela. No dia seguinte lhe mostraria a fazenda e depois trataria de despach-la para 
Boston.
    Havia ainda outro problema, este bem mais complexo. Adam Winter. Sempre que pensava nele, sentia o sangue ferver nas veias. E, sentia tambm... outro tipo de 
calor.
    Irrequieta demais para se deitar, Esmeralda recorreu ao nico remdio para a ansiedade que conhecia: uma boa cavalgada noturna.
    
    Coincidncia das coincidncias, naquele exato momento Adam tambm no conseguia conciliar o sono. Jantara com Zeb, contara-lhe as ltimas novidades e tivera 
de aturar as insinuaes do velho sobre seu interesse por Esmeralda Jewel.
    Agora, sentado sozinho na soleira da porta, fumava um cigarro e no se animava a ir para a cama. Pensava em Esmeralda, lembrando-se de como ela parecera um soldadinho 
de chumbo na estrada, liderando seu "exrcito" de pees, e de como se rendera  emoo no tmulo do pai.
    Adam sorriu ao constatar que aquelas contradies o fascinavam. Depois ficou srio: o que estava acontecendo com ele afinal? Por que se envolver nos problemas 
daquela mulher? Ela j no deixara bem claro quanto o desprezava, quanto o detestava?
    E, no entanto, a atrao que a filha de Joseph Jewel exercia sobre ele era quase irresistvel. Gostara de t-la em seus braos. Era macia. Quente. Sedutora.
    Quando Zeb insinuara que Adam bem que quisera partilhar as suas cobertas com Esmeralda, no estivera muito longe da verdade. Alis, acertara em cheio...
    Agastado, jogou fora a ponta do cigarro e vestiu a jaqueta. O melhor a fazer para acalmar os nervos seria trabalhar duro at que o sono viesse.
    
    O ar noturno era fresco e lmpido. A lua cheia reverberava reflexos dourados e seu esplendor ofuscava o brilho das estrelas.
    Esmeralda deixou a montaria galopar livremente, grata por sentir o vento no rosto. Era disso que precisava. Estava cansada de refletir e duvidar e se preocupar. 
Queria sentir-se livre de tudo e de todos.
    Inclinou-se sobre a gua, at lhe parecer que estavam voando pelos campos. Era uma sensao gloriosa. Cavalo e cavaleiro moviam-se como um nico corpo, varando 
o espao.
    Quando a gua finalmente diminuiu o passo, Esmeralda endireitou-se na sela, com as faces coradas e um sorriso de satisfao. Chegando ao topo de uma colina seguiu 
a trote lento.
    - Voc monta muito bem, Esmeralda Jewel.
    Ao som da voz de Adam, ela estacou petrificada. Virou-se bruscamente, procurando-o nas trevas. Ele montava seu cavalo negro, mimetizando-se na sombra das rvores. 
S quando avanou  que Esmeralda conseguiu discernir sua slida silhueta.
    - Estava me seguindo, Winter? - indagou ofegante, sem imaginar que sua voz rouca soava como uma carcia aos ouvidos dele.
    - Seria mais fcil seguir o vento.
    Adam aproximou-se e parou o cavalo ao lado de sua montaria. Esmeralda permaneceu imvel, embora seu primeiro impulso tivesse sido dar meia-volta e fugir dali 
quanto antes.
    - voc est na minha propriedade - acusou ela, umedecendo os lbios.
    Seu gesto o fez crispar as mos nas rdeas.
    - Ouvi o uivo de lobos aqui perto. Vim ver se estavam atacando as vacas. Perdi muitas cabeas de gado nos ltimos tempos.
    - Tambm ouvi os uivos. - Ela fez um sinal por sobre o ombro. - Vi sombras movendo-se ali. Se eram lobos, acho que os espantei. Animais selvagens no gostam 
de ficar perto das pessoas.
    - A menos que pressintam algum tipo de fraqueza - murmurou Adam. - A,  preciso tomar cuidado.
    Esmeralda ergueu o queixo de um modo que ele j comeava a reconhecer como familiar.
    - Est me alertando contra os lobos? Ou contra voc? 
    Adam segurou-lhe o queixo, aprisionando seu olhar, deixando-a subitamente sem flego.
    - Depende... Voc tem alguma fraqueza, Esmeralda?
    Ela tentou se esquivar, mas ele foi mais rpido. Segurou-a pelo ombro e puxou-a para si. Esmeralda sentiu ento a inexplicvel necessidade de se aninhar no peito 
de Adam. Partilhar seu calor. Ouvir as batidas de seu corao. Mas, em vez disso, ficou muito rgida na sela, encarando-o de modo desafiador.
    - Eu no tolero a fraqueza, Winter. Se meu pai me ensinou uma coisa, foi a viver de acordo com uma nica regra.
    Ele acompanhou o contorno de seus lbios com a ponta dos dedos, provocando-lhe uma nova onda de calor, dessa vez entremeada de deliciosos arrepios.
    - Ah, ? E qual seria essa regra?
    - S os fortes sobrevivem no Texas.
    - Nesse caso, no deve se preocupar, Esmeralda. - Adam curvou-se ligeiramente, e seus rostos ficaram muito prximos. - Voc  a mulher mais forte que j conheci.
    Sob os raios prateados de luar, Esmeralda pde discernir o par de olhos cinza que brilhavam perigosamente. Teve certeza de que ele iria beij-la. Teve certeza, 
tambm, de que no seria capaz de resistir-lhe. Diante de Adam, sentia-se subitamente indefesa.
    - Preciso voltar para casa - murmurou.
    - No at eu beijar voc... - ele sussurrou.
    - No...
    Esmeralda cerrou os punhos conta o peito largo e tentou empurr-lo. Os lbios de Adam curvaram-se num sorriso. Ele estremeceu. SE antes achara que Adam parecia 
perigoso, agora no tinha dvida de que era duplamente perigoso quando sorria daquele jeito. Se corao comeou a pulsar mais rpido. Seria medo? Ou antecipao?
    - Voc est me atiando. Veja bem, acontece que eu adoro contrariar ordens - Adam murmurou, enquanto seus lbios capturavam os dela era um beijo ardente.
    As mos msculas que lhe estreitavam os ombros no era gentis, mas voluntariosas. Assim como o beijo dele. Era um beijo exigente, que a devassava e devassava... 
at que Esmeralda se viu completamente  merc de um vrtice de sensaes...
    O beijo quase tmido que haviam trocado na cabana despertara-lhe tremores. Agora, quando a boca de Adam clamava pela sua com um ardor febril, Esmeralda sentia-se 
presa de emoes imperiosas. Parecia-lhe que estava deslizando, deslizando...
    Agarrou-se aos botes da camisa dele, precisando de um apoio, e deixou escapar um gemido abafado. Era um som primal, uma reao instintiva quele beijo que se 
tornava cada Vaz mais intenso, s mos fortes que estreitavam com posessividade.
    A fora do desejo que brotava em seu ntimo deixou Adam perplexo. A boca de Esmeralda era convidativa, os lbios entreabertos ofereciam-se sem resistncia. Os 
seios firmes estavam comprimidos contra seu peito de uma forma provocante. Adam afagou-lhe os cabelos inclinou o rosto, aprofundou o beijo, explorando a doura de 
sua boca.
    Assustada, esmeralda empurrou-o. Mas os braos de Adam a imobilizavam. Ele a fitou com um meio sorriso devastador, e Esmeralda experimentou uma nova sensao 
de arrepios, enquanto seu corpo se amoldava ao dele como por vontade prpria.
    Ela j no exibia uma postura de desafio. Seus olhos no revelavam mais frieza e ressentimento. Esmeralda no podia ocultar o desejo que transparecia em seu 
rosto, em seus mnimos gestos.
    Adam desejava-a. Se fosse outro tipo de mulher, ele a possuiria ali mesmo, naquele momento. Mas Esmeralda Jewel no era descartvel. Era uma mulher que fazia 
um homem pensar em promessas, em razes.
    Essa constatao atordoou-o. Sem aviso, deixou as mos carem e afastou-se. Tocou a aba do chapu  guisa de despedida.
    - Tenha bons sonhos, Esmeralda.
    - Ora, v para o...
    Ela no terminou a frase, Manobrou o cavalo e saiu galopando como um raio.
    Adam viu-a afastar-se e no se moveu. Depois, com mos trmulas, enrolou uma cigarro. No sabia de quem tinha mais raiva. De si mesmo. Ou de Esmeralda Jewel.
    
    
    Captulo 9
    
    Com as roupas coloridas que gostava de usar e cabelos negros, quase grisalhos que prendera num coque, a governanta Carmelita ia de um lado para o outro.
    - Ento voc e a seorita Prola ficaram conversando at tarde.
    - Hu-hum - respondeu Esmeralda, mordiscando um talo de cenoura cortada.
    - E agora? Ela j matou a curiosidade? Quando vai voltar para Boston?
    - Dentro de um ou dois dias. Vou mostrar-lhe a fazenda e... A!
    Esmeralda havia esticado o brao para pegar mais um talo de cenoura na tbua sobre o aparador, mas a velha cozinheira a impedira, dando-lhe uma pancadinha na 
mo com uma colher de pau.
    - Escute aqui, mocinha, ser que no pode esperar a comida ficar pronta?  melhor se sentar  mesa. J vou servir o caf da manh.
    Esmeralda fez o que ela dizia. No iria mesmo poder contar a Carmelita o que havia acontecido na noite anterior. E, mais do que nunca, precisava dividir seus 
sentimentos contraditrios com algum. Talvez, mais tarde, falasse disso com Prola.
    Exasperada sentou-se  grande mesa e acompanhou distraidamente o traado de suas iniciais, que havia entalhado na madeira quando era menina e o pai lhe dera 
sua primeira faca.
    - Lembra-se disso? - perguntou a Carmelita quando esta comeou a pr os pratos.
    A governanta espiou a superfcie da mesa e assentiu.
    - Si. Seu pai ameaou tirar-lhe seu pnei favorito se tornasse a estragar a mesa.
    - Para me defender, eu disse que tinha aprendido isso com ele. Papai fazia uma marca na parede todos os anos para ver quanto eu havia crescido. A eu achei que 
tambm tinha direito de marcar minhas iniciais na madeira.
    - Ah, ele ficou to zangado! - Carmelita relembrou com uma risada. - Mas depois acabou admitindo que o fato de voc imit-lo era um elogio. Seu pai tinha muito 
orgulho de voc.
    quelas palavras, Esmeralda sentiu um aperto na garganta.
    Nisso, Carmelita levantou a cabea e divisou um vulto parado  porta da cozinha. Era Prola. Exibia uma expresso infinitamente triste e parecia ter vontade 
de fugir dali. No restava dvida de que ouvira a conversa das duas e devia sentir-se muito mal. Embora aquelas moas tivessem o mesmo pai, levavam vidas completamente 
diferentes. Enquanto uma passava a maior parte do tempo com ele, sendo motivo de alegria e orgulho, a outra era relegada e mantida em segredo como se fosse motivo 
de vergonha para seu progenitor.
    - Venha sentar-se, seorita Prola. Estou preparando algo especial para voc - convidou-a gentilmente Carmelita.
    Logo que Prola instalou-se  mesa, Cal McCabe chegou. Ao v-la, franziu o cenho, um pouco confuso. No sabia como lidar com aquela bostoniana cheia de no-me-toques.
    Ele tocou a aba do chapu para saud-las.
    - Bom dia, senhoritas.
    - Bom dia, Cal - cumprimentou Esmeralda. - Quer comer algo?
    - No, obrigado. Mas aceito uma xcara de caf - respondeu o capataz, sentando-se e estirando as pernas.
    Esmeralda sorriu-lhe e j ia lhe servir caf quando notou as olheiras no rosto da irm.
    - Prola, voc no dormiu bem?
    - No muito bem. Ouvi uivos a noite inteira. Devia ser um lobo. Fiquei com medo e no consegui mais dormir.
    Retesando-se, Esmeralda evitou encar-la. A aluso aos lobos a fazia pensar em Adam...
    - Provavelmente era s um coiote. Mas suponho que para uma moa da cidade grande isso seja assustador - explicou Cal.
    Prola ficou desconcertada com o tom de pouco caso dele.
    Ao perceber sua reao, o capataz emendou depressa.
    - Eles do uivos terrveis, mas no so perigosos, dona.
    Carmelita serviu-lhes sua famosa omelete. Esmeralda encheu o prprio prato e passou-o a Prola, que observou a massa colorida com interesse.
    - O que  isso?
    - Ovos - respondeu Esmeralda apanhando uma torrada. - Vocs no comem ovos em Boston?
    - Mas tem alguma coisa diferente nesses ovos.
    - Essa  a omelete de legumes e pimenta chili de Carmelita. Uma especialidade do Mxico.
    Intrigada, Prola levou uma garfada  boca. Depois tomou rapidamente alguns goles de leite.
    - Meu Deus... isso queima a lngua!
    Ela percebeu que Cal, do outro lado da mesa, estava se controlando para no rir e ficou ainda mais sem jeito.
    Entrementes, Esmeralda continuou a comer, ignorando o desconforto dela.
    - O que acha de dar uma volta na fazenda hoje, Prola.
    - Ento... voc quer que eu fique mais um dia?
    - Sim, um ou dois dias. - Esmeralda encolheu os ombros. - Afinal, voc praticamente atravessou o pas, no ?
    Grata pelo convite, Prola animou-se um pouco. Tinha horror s de pensar em percorrer os incontveis quilmetros que a separavam de sua cidade, sacolejando miseravelmente 
no coche at chegar  estao ferroviria de Abilene.
    -  muita generosidade sua, Esmeralda. Eu adoraria conhecer a fazenda de papai... - Ela se calou ao ver Cal sobressaltar-se. A disse rapidamente: - Eu adoraria 
conhecer a sua fazenda.
    - Voc sabe montar? - perguntou Cal.
    - Receio que no muito bem. Em Boston, fao quase tudo a p. Quando preciso ir a algum lugar mais distante, alugo uma carruagem.
    - Pedirei a um dos rapazes que lhe providencie uma charrete. - Ele ento virou-se para Esmeralda e sorriu com ar malicioso. - E mandarei selar Sunrise para voc... 
a menos que prefira uma montaria mais mansa. Eu detestaria v-la cair do cavalo outra vez.
    Esmeralda quase engasgou. Ficou vermelha como um pimento.
    - No, no... Vou montar Sunrise.
    Depois disso, olhou para o prato e no teve coragem de levantar a cabea at ele se retirar.
    
    Acomodada na charrete, Prola protegeu os olhos com a mo em concha e olhou a seu redor. Para acompanhar Esmeralda, tivera de usar ambas as mos para conduzir 
a charrete e desistira de abrir a sombrinha.
    Agora, havia feito uma pausa no topo de uma colina.
    - Qual  o permetro das suas terras?
    - Daqui no d para enxergar o fim delas. A vista no alcana.
    - A vista no alcana? - espantou-se Prola
    - Sim, todas essas terras  nossa volta fazem parte da fazenda - confirmou Esmeralda, e abarcou a paisagem com um gesto. A seguir, fez uma careta de desgosto. 
- Exceto aquele pedacinho de terra depois do monte, que pertence a Adam Winter.
    - E aquele rebanho? - indagou Prola, contemplando as centenas de animais que a distncia pareciam flocos de neve cobrindo os campos.
    - Deve ter umas mil cabeas ou pouco mais. Na primavera esse nmero dobrar, depois que as fmeas parirem e as reses desgarradas forem recolhidas para o inverno.
    - Mas como  que conseguiro ter lugar para tantos animais?
    - Assim  o Texas. - Esmeralda gesticulava, muito  vontade, enquanto segurava as rdeas com apenas uma das mos. - Papai dizia que esta terra foi feita para 
a criao de gado. Os animais pastam nos prados durante o vero, e no outono, quando ns os recolhemos, esto todos gordos e valem quase cinqenta dlares.
    Prola ouvia a irm com curiosidade. Pelo modo como ela falava, tudo parecia muito fcil. Mas era evidente que a fazenda demandava o trabalho de muitos homens.
    - Como consegue administrar toda a fazenda?
    - Bem, a propriedade  muito grande. Temos postos de controle nas fronteiras mais longnquas.
    As duas comearam a descer a encosta do morro por uma trilha estreita. Esmeralda foi  frente e continuou falando:
    - Cada posto, na verdade,  muito simples, com uma cabana e um curral. Um dos pees fica morando l por seis meses e depois outro vem revez-lo. Enquanto isso 
se no fizer mau tempo, um empregado vai de posto em posto uma vez por ms para saber se no h nenhum peo doente ou com problemas. Depois me traz um relatrio.
    - E o que o peo faz enquanto est no posto?
    - O que ele faz? Ora, um pouco de tudo. Cuida dos animais doentes, tira as vacas atoladas nos pntanos, tosquia as ovelhas, conduz os animais durante as borrascas, 
recolhe as reses desgarradas e impede que outras reses ultrapassem a fronteira.
    Prola escutava-a boquiaberta.
    - Minha nossa! Mas deve ser muito solitrio!
    Esmeralda deu de ombros.
    - Imagino que para algum da cidade grande isso parea o cmulo do tdio. Mas, se quer saber, muitos pees gostam do isolamento. Os que no agentam vo embora. 
No entanto, h sempre um homem pronto para substituir outro no posto. Os vaqueiros so assim mesmo.
    Prola ia abrir a boca para falar, quando ouviram um cavalo se aproximando. Esmeralda fez-lhe sinal para que ficasse quieta; desprendeu o rifle da sela e apontou-o 
para a trilhar  frente. Decorridos alguns momentos, surgiu um cavalo e Esmeralda crispou a mo no gatilho. S afrouxou a presso ao reconhecer Adam. Imediatamente 
sua pulsao se acelerou, e ela maldisse a sua perturbao. At quando iria reagir como uma maluca a cada vez que o visse?
    - Bom dia - saudou Adam.
    - O que tem de bem nele? - retrucou Esmeralda de mau humor.
    Adam sorriu, ignorando as fardas que lhe eram lanadas.
    - Vejo que est com tima disposio hoje. - Ele ento dirigiu-se a Prola: - Que surpresa agradvel! No esperava v-la mais. Pensei que estava a caminho de 
Albilene, srta. Jewel.
    Esmeralda fremiu de indignao.
    - Voc est de novo em minha propriedade, Adam.
    - Pois . Estou mesmo.
    Quando ele tornou a olh-la, foi como se a estivesse tocando. Ou beijando... A esse mero pensamento, Esmeralda sentiu os lbios trmulos.
    - Mas desta vez no foi o meu gado que me trouxe aqui. Foi o seu.
    Adam apontou para o fim da estrada. Instante depois, Zeb apareceu conduzindo uma dzia de vacas.
    - Bom dia, senhoritas - cumprimentou o velho e, com um gesto galante, tirou o chapu. - Estamos trazendo de volta o gado da patroa. Assim ela no vai nos acusar 
de roubo.
    Esmeralda fitou-o desconcertada.
    - Vou falar com Cal para que isso no acontea de novo. Um dos pees deveriam ter apanhado essas vacas antes que elas se perdessem.
    - Isso  o de menos - tranqilizou-a Adam.
    - Mesmo assim, vocs no tm o dia todo para ficar pajeando meus animais. Zeb, se voc seguir a trilha at a bifurcao, vai encontrar meu rebanho atrs da colina.
    - Sim, senhorita. E essa dama, quem ? - quis saber o velho.
    - Prola... - respondeu Esmeralda, e mordeu a lngua. Ainda no conseguia ligar seu sobrenome ao da irm.
    - Eu sou Prola Jewel - apresentou-se a outra polidamente.
    -  um prazer conhec-la. Sou Zebulon Forrest, mas com um nome esquisito desses,  melhor me chamar s de Zeb.
    - Encantada, Zeb.
    Ele recolocou o chapu e foi se afastando.
    - Bem,  melhor eu levar logo esses anim...
    Um tiro ensurdecedor explodiu em seus ouvidos. A bala ricocheteou no cho, entre Esmeralda e Adam. Num ato reflexo, ele arrebatou Esmeralda de sua sela. Segurou-a 
nos braos fortes e virou o cavalo, protegendo-a com o prprio corpo. Quando ficaram em segurana atrs da charrete, Adam depositou-a no cho.
    Houve outro disparo. Adam agarrou Prola e empurrou-a para o cho, onde ela foi se juntar a Esmeralda.
    - Fique abaixada! - Adam ordenou quando Esmeralda fez meno de pegar o rifle.
    Deslizou para o solo, com sua pistola em punho, e agauchou-se. Prola ficou atrs dele, espiando cautelosamente por sobre seu ombro. Esmeralda, por sua vez, 
furiosa, apanhou o rifle e quis se adiantar.
    Nisso, ouviram-se os cascos de um cavalo que partiu a galope.
    No momento em que Esmeralda chegou no alto da colina, seguida pelos outros, o cavalo j sumira de vista.
    Tudo o que puderam ver foi um cavaleiro de costas montado num anima escuro. Ele se embrenhou em um bosque e a vegetao fechou-se s suas costas.
    - O que... - Arquejante e em pnico, Prola lutava para falar. - O que... significa isto?
    - Eu diria que algum estava rondando para matar - disse Adam, guardando a pistola. Trocou um olhar significativo com Zeb. - O problema : qual de ns seria 
a vtima? Eu? - Estreitou os olhos e virou-se lentamente para Esmeralda. - Ou ser que vieram atrs de voc?
    Ela demorou uns bons minutos para se acalmar. Mais que assustada, estava colrica: literalmente cuspindo fogo.
    - Ningum se atreveria a invadir minha fazenda para me ameaar! Alm do mais, essas coisas s acontecem quando est por perto, Adam Winter.  voc que eles querem.
    -  possvel - ele concordou. - Se for verdade, deve manter distncia para no ser apanhada no meio de um fogo cruzado. Mas, se o alvo for voc, precisa tomar 
certas precaues. No cavalgue sozinha, sobretudo  noite. Ande sempre acompanhada de seus pees. E fique longe de reas remotas, onde um malfeitor pode facilmente 
se esconder atrs de rvores ou rochas. - Adam baixou ligeiramente a vos. - O melhor mesmo seria se ficasse em casa at o xerife solucionar esse caso.
    - Em suma, devo meter o rabo entre as pernas como uma covarde intil?
    - No, Esmeralda, no foi isso que...
    L ia ela de novo perdendo as estribeiras...
    - Por que eu deveria acreditar em voc, Winter? Pode ter armado isso s para provar sua inocncia.
    Adam tambm sentia o sangue lhe subir  cabea.
    - Pouco me importa se acredita ou no em mim. Mas, queira ou no, vou acompanh-la at a casa da fazenda.
    - Escute aqui, eu posso muito bem cuidar de...
    - Por favor, Esmeralda - interrompeu Prola, segurando-lhe o brao. - Eu me sentiria bem mais segura se Adam nos escoltasse. - Depois, pateticamente, tentou 
sorrir para mostrar que no estava to assustada quanto na realidade estava.
    S ento ocorreu a Esmeralda que a irm devia estar apavorada. Enquanto para ela o episdio no passar de um grande aborrecimento, para Prola certamente fora 
algo aterrador.
    Esmeralda sorriu cinicamente e disse num tom aucarado:
    - Parece que conseguiu fazer algum acreditar nas suas boas intenes, Adam.
    Nesse momento, vislumbrou um objeto metlico nas mos de Prola e ficou boquiaberta.
    - Isso  uma arma?
    A outra corou at a raiz dos cabelos e enfiou a pequena pistola no bolso do vestido.
    - Um amigo de Boston me avisou que eu precisaria de proteo no Texas.
    Sem proferir uma palavra, Esmeralda montou no cavalo e observou Adam dar a mo a Prola enquanto ela subia na charrete. Sentiu ento uma pontada de ressentimento. 
Seria cime? Impossvel. Fosse como fosse, a viso da pequena pistola derringer suscitava-lhe grandes dvidas quanto a Prola. E quanto a Adam.
    Quando ele subiu na sua montaria, Esmeralda apontou-lhe o rifle.
    Adam estreitou os olhos quase imperceptivelmente.
    - No gosto que apontem armas para mim.
    - E eu no gosto de ser forada a engolir um co de guarda. Se quiser, acompanhe Prola. Quanto a mim, Adam Winter, saiba que eu no preciso de voc!
    Dito isso, saiu voando pelo campo.
    Zeb suprimiu o riso, o que s serviu para enfurecer ainda mais Adam.
    - No a leve a mal. Ela est muito abalada com o que aconteceu, e se sente melhor expressando raiva do que gratido - defendeu-a Prola.
    - Depois de uma nica noite na fazenda voc j aprendeu a conhec-la to bem, srta. Jewel? - ele perguntou.
    - Sim, para mim tambm foi uma surpresa. Esmeralda  como papai. Ele era muito agradvel, cativante, bem-humorado. E tinha qualidades raras como a generosidade 
e a fraqueza. Mas simplesmente no conseguia externar o sofrimento nem aceitar a ajuda de ningum. Esmeralda  muito parecida com ele.
    Adam sorriu-lhe com aprovao.
    -  muito sbia, srta. Jewel. - Ele incitou o cavalo. -  melhor nos apressarmos para no ficarmos para trs.
    -  s o que tenho feito desde que cheguei ao Texas - suspirou Prola, e correu para alcan-lo.
    
    
    Captulo 10
    
    Esmeralda manteve o cavalo num galope constante enquanto voltava para casa. Embora se recusasse a diminuir o ritmo ou olhar para trs, sabia que Prola e Adam 
a seguiam. No era um grande consolo, mas at que ficava contente de saber que ele estava comendo poeira.
    Pela segunda vez Adam roubara-lhe um beijo. E pela segunda vez ela reagira como uma tola. No mais. Dali em diante, trataria de domar suas emoes, prometeu 
a si mesma.
    Estava tremendo. Alm da perturbao que Adam lhe suscitava, havia ainda o ltimo atentado. Detestava ter de admitir, mas ainda sentia aturdida com o incidente. 
Seria possvel que Adam tivesse razo.
    Seu pai fora morto. Nada afastava a hiptese de que o prximo alvo fosse ela.
    Ah... se ao menos o pai lhe tivesse revelado por que estava to furioso na noite de sua morte! A pessoa com a qual fora se encontrar permanecia uma incgnita. 
Seus segredos agora jaziam enterrados com ele, no topo da colina. E o que dizer de Prola? Como o pai pudera calar-se sobre uma parte to importante de sua vida?
    Havia ainda o inquietante fato de a irm portar uma pistola igual  que o matara. Coincidncia? Ou Prola o odiaria por t-la mantido em segundo plano? Teria 
arquitetado uma trama para aproximar-se e conseguir sua parte na fortuna do pai?
    Todas aquelas maquinaes, que iam e vinham num crculo vicioso, deixaram Esmeralda com dor de cabea. Ela ficou aliviada ao avistar a casa. Seu lar. L, cercada 
de empregados leias, sentia-se segura.
    Adam e Prola chegaram logo a seguir. Ele ajudou-a a descer da charrete e examinou discretamente as cercanias. Havia ali centenas de pontos onde um pistoleiro 
poderia se esconder. Uma cabea-dura como Esmeralda requereria um verdadeiro exrcito para proteg-la. E, ainda assim, daria um jeito de escapulir para se meter 
em alguma encrenca.
    Cal e vrios pees chegaram minutos depois, a cavalo.
    - O que faz aqui, Winter? - gritou o capataz.
    - O que voc deveria estar fazendo: zelando pela segurana de Esmeralda.
    - O que significa isso? - Cal perguntou com rispidez.
    - Que houve mais um atentado a bala.
    s palavras de Adam, o outro empalideceu e virou-se para Esmeralda.
    - O que aconteceu? Voc est bem?
    - Sossegue, Cal. Estou bem, sim. Fui levar Prola para conhecer a fazenda e avanamos na direo da fronteira leste. Winter apareceu para devolver algumas reses 
desgarradas e, nisso, algum atirou. A bala passou quase raspando por ns dois.
    - A bala passou quase de raspo. E ele estava na fazenda para devolver gado perdido - recapitulou Cal com ceticismo. Sua desconfiana estava estampada em seu 
rosto, para quem quisesse ver. - E suponho que ningum tenha avistado esse misterioso pistoleiro.
    - Certo - confirmou Adam, sem recuar diante das insinuaes do capataz.
    Notou que todos os homens da fazenda usavam roupas praticamente iguais, calas e jaquetas descoradas de cor indefinidas que poderiam confundir at o observador 
mais atento. Qualquer um ali poderia ser o matador.
    - Onde estava na hora do atentado, McCabe? Perguntou  queima-roupa.
    Cal explodiu:
    - Est sugerindo que sou o autor do atentado?
    Esmeralda viu-o levar a mo ao coldre e tentou acalm-lo.
    - Por favor, Cal, no quero brigas. Precisamos todos ter sangue-frio. Recorrer  violncia no resolver nada.
    - Talvez no. Mas me faria muito bem - murmurou ele, e deixou a mo cair de m vontade. - Eu estava perto no norte da propriedade, vistoriando o rebanho. Cokkie 
passou por mim para levar a bia dos rapazes e me viu. Se duvida, pergunte a ele.
    - Ora, deixe de tolice, Cal.  claro que acredito em voc. Venha, vamos entrar.
    O capataz estacou.
    - E Winter?
    Esmeralda olhou para Adam, que permanecia ao lado da charrete, imvel como uma esttua. Ela no ignorava que sua aparente quietude mascarava uma determinao 
inquebrantvel. Estaca pronto a confrontar Cal se este levasse a cabo sua ameaa de sacra o revlver, sem fazer caso dos numerosos pees que haviam ali.
    - Winter insistiu em nos acompanhar para garantir que chegssemos em segurana. O mnimo que posso fazer  convid-lo para jantar. - Esmeralda virou-se para 
Adam. - Foi uma longa jornada das suas terras at aqui. Espero que fique para jantar conosco.
    Agradavelmente surpreso com o convite, ele tocou a aba do chapu.
    - Obrigado. Eu ficaria desde que voc no cozinhe.
    Os pees acharam graa da brincadeira e sorriram veladamente, fazendo-a corar. Esmeralda ficou irritada. Por que aquele homem insistia em espica-la mesmo quando 
ela se dispunha a trat-lo com cordialidade?
    Cal tampouco pareceu ficar muito contente.
    - Vejo-a mais tarde, Esmeralda - disse de cara amarrada. - Agora vou com os rapazes dar uma olhada no local onde foram atacados. Talvez o responsvel tenha deixado 
uma pista.
    Ela agradeceu com um sorriso breve. Virando o rosto para ocultar seu rubor. A mera perspectiva de sentar-se  mesa com Adam deixava-a agitada. Felizmente, os 
dois no ficariam a ss.
    - Vamos entrar - disse. Apeou sem dar a Adam tempo se ajud-la a desmontar. - Quanto antes comermos, mais cedo Winter ficar livre para retornar a sua fazenda.
    Adam fitou-a em silncio, depois deu a mo a Prola e a ajudou a descer da charrete.
    - Oh, minhas costas... - ela suspirou e pousou as mos atrs da cintura, arqueando levemente o corpo.
    Esmeralda ficou penalizada ao ver seu desconforto.
    - Sinto muito, Prola. No devia t-la levado longe. A charrete  muito desconfortvel.
    - Por favor, no se desculpe. - Prola adiantou-se e fez meno de segurar-lhe a mo; mas era um gesto ntimo demais para duas mulheres que mal se conheciam, 
apesar de serem irms. Assim, ela retraiu-se e disse apenas: - Eu no teria perdido esse passeio por nada no mundo. Mas talvez preferisse uma visita menos... conturbada. 
Fiquei realmente apavorada. E impressionada com a calma que voc e Adam demonstraram.
    Esmeralda riu, pouco  vontade.
    - Talvez Adam estivesse calmo. Eu achei que meu corao fosse saltar pela boca!
    - Verdade? Ora, eu nunca imaginaria. Voc  surpreendente.
    As duas entraram, seguidas de perto por Adam. E ele, ao ouvir as palavras de Prola, concordou silenciosamente. Esmeralda era de fato uma mulher surpreendente.
    Enquanto Adam se afastava, Cal acompanhou seus passos com olhar sombrio. No gostava daquele forasteiro. E no conseguia imaginar por que estava na fazenda.
    O que o capataz no sabia era que Adam estava pensando exatamente a mesma coisa a respeito dele.
    
    - Voc chegou bem na hora - disse Carmelita a Esmeralda, colocando num cesto o po de milho que acabara de preparar.
    - Eu trouxe uma visita. Quero que conhea Adam Winter.
    A governanta interrompeu seus afazeres e olhou-o de modo especulativo. Ento aquele era o homem que havia deixado Hanging Tree em polvorosa. Os boatos que corriam 
na cidade pelo visto no eram infundados, constatou Carmelita. Ademais, ele parecia perigosos em outros aspectos. De fato, portava suas armas como um homem acostumado 
a us-las, o que lhe conferia uma aura de poder. E tambm era bastante atraente. Alto. Enigmtico. Um pouco distante. E isso s aumentava seu carisma.
    - Seor Winter, seja bem-vindo. Sente-se enquanto a comida est quente.
    - Ela fala srio - comentou Prola. - Esta manh, os ovos estavam to quentes que, ao com-los, senti a boca queimando.
    Adam sorriu ao ver ela examinava cautelosamente as tiras de carne e pimenta na travessa sobre a mesa.
    Quando todos ocuparam suas cadeiras, Carmelita ofereceu-lhes po. Foi arranjado pretexto para ficar em torno da mesa, servindo quitutes, cortando mais fatias 
de po, enchendo os copos de gua. Adam lhe despertara viva curiosidade e, com modos casuais, a governanta ia enchendo-o de perguntas:
    - E ento, senr Winter,  novo por estas bandas?
    - Sim, senhora.
    - E onde morava antes?
    Adam estava consciente de que Esmeralda perscrutava-o com toda a ateno. Respondeu laconicamente.
    - Maryland.
    - Por que saiu de Mary-land? - perguntou a governanta, tropeando na palavra enquanto tornava a encher seu copo de gua.
    - Depois da guerra, no sobrou muita coisa de minha casa.
    - Mas a guerra terminou h muitos anos. Por que demorou tanto para vir se estabelecer no Texas?
    - Bem eu... tinha alguns assuntos a resolver. Depois perambulei sem destino por um tempo. Quando cheguei aqui, gostei do lugar e decidi criar gado.
    - E o que est achando da experincia? Pretende se estabelecer definitivamente?
    Adam encolheu os ombros.
    - Quem sabe? Eu tenho viver cada dia, sem fazer planos definitivos para o futuro. O futuro  incerto. E viver  perigoso.
    Sentada a seu lado, Esmeralda quedou-se estranhamente quieta. Pelo tamanho do rebanho dele, pensara que Adam pretendia instalar-se permanentemente no Texas. 
Pelo visto, se enganara. Ele no passava de um solitrio, um cavaleiro errante. Proveria seu sustento, mas no ficaria l para retribuir os frutos da terra. E isso, 
na opinio de Esmeralda, era uma atitude desprezvel.
    Seus pensamentos foram interrompidos pela voz delicada de Prola, que perguntava:
    - No tem famlia em Maryland, Adam?
    - No - ele respondeu com secura.
    Algo em seu tom de Carmelita virar-se para fit-lo. Adam, porm, limitou-se a relancear o olhar para ela, dizendo:
    - Est  a melhor comida que j provei nos ltimos anos.
    - No a achou quente demais?
    - No, no. Passei alguns meses no Mxico e aprendi a gostar de comida bem temperada. Estava com saudade de comer pratos apimentados.
    Carmelita sorriu encantada e insistiu que ele repetisse a carne.
    - Maryland  para mim um lugar to estranho quanto Boston. Como  l? - perguntou Esmeralda.
    - Ah, se eu tivesse de descrever numa palavra, diria que  uma terra... suave. Minha fazenda ficava em meio a colinas verdes.
    Adam encarou-a e, nesse momento, seus olhos se suavizaram, como se as recordaes o transformassem em outro homem. Sem a habitual rigidez, ele parece-lhe muito 
atraente. Mas o que mais a fascinava era aquela inesperada faceta, que nada tinha a ver com o renegado que ela havia encontrado pela primeira vez na priso.
    - De que tamanha era sua propriedade?
    - No era to grande quanto a fazenda Jewel. Mas, para os padres de Maryland, era um bom pedao de terra. Tnhamos cem acres de solo frtil e um rebanho com 
algumas centenas de vacas leiteiras. E outros cem acres eram arrendados por pequenos fazendeiros.
    - Voc trabalhava l com sua famlia?
    - Sim. Meu pai e meus irmos moravam em fazendas vizinhas e dividamos o trabalho de plantar e colher.
    Isso explicava por que Adam tinha msculos bem torneados, pensou Esmeralda. Sentiu um arrepio ao lembrar-se daquele corpo forte colado ao seu...
    - E pretende um dia voltar para sua terra? - indagou Carmelita.
    - No - ele respondeu categoricamente, e toda a brandura que havia em seu olhar se desvaneceu.
    Esmeralda fitou-o intrigada. Por que mudara de atitude to de repente? O que poderia ter acontecido em Maryland para que nunca mais quisesse voltar?
    Ansioso para desviar o rumo da conversa, Adam virou-se para Prola.
    - Como  a vida em Boston?
    Enquanto a irm lhe descrevia sua cidade nata, Esmeralda ficou estudando o perfil de Adam, perdida em pensamentos.
    - No  verdade, Esmeralda? - Prola perguntou-lhe a certa altura.
    - Eu... - Apanhada desprevenida, ela corou. No tinha a menor idia do que a irm estava falando.
    - Viu como  modesta? - insistiu a outra. - Esmeralda, eu estava contando a Adam como tem sido gentil comigo. Nunca esperei encontrar tanta hostilidade aqui.
    Esmeralda corou mais ainda.
    - Ora... eu no fui gentil quando voc se apresentou.
    - Isso  natural. - Prola sorriu-lhe com toda doura. - Sabe, pensei muito. No seu lugar, eu acho que teria reagido da mesma maneira. Afinal, voc nem de longe 
sonhava que tinha uma irm.
    Irm. Aquela palavra ainda soava muito estranha para Esmeralda. Estava ficando tensa de novo. Afastou a cadeira e disse de repente:
    - Agora que terminamos de comer, sei que Adam est ansioso para voltar  sua fazenda. Ele ainda tem um longo caminho pela frente.
    Ele esboou um sorriso, pois percebia seu sbito mal-estar. Esmeralda no sabia esconder suas emoes.
    -  verdade. J est na minha hora. Zeb deve estar furioso, porque o deixei cuidando da fazenda sozinho.
    As trs mulheres ento foram lev-lo at a porta.
    - J o retivemos por muito tempo. Obrigada por ter nos acompanhado - Esmeralda agradeceu, desajeitada, e estendeu-lhe a mo.
    Quando Adam a tocou, ela sentiu de novo que o contato da palma calejada deixava-a como que febril. Um pouco tonta. Com falta de ar...
    Tentou se convencer de que sua reao era apenas reflexo de nervosismo. 
    - No h de qu.  um prazer ajudar um vizinho - disse ele. No deixava transparecer nenhuma emoo e seu tom era seguro, impessoal. Dirigiu-se ento a Carmelita, 
que limpava as mos no avental. - Obrigado pelo jantar. Foi o melhor dos ltimos tempos.
    - D prxima vez que vier, vou lhe preparar um prato com todos os condimentos que puder encontrar.
    - Hum, isso  tentador - Adam disse num tom de gracejo, e a seguir despediu-se de Prola: - Fico feliz que esteja conhecendo um pouco do Texas. Quando vai partir?
    - Eu no sei... Creio que amanh.
    - Faa uma boa viagem.
    Mal ele havia acabado de falar, e todos se deparar com uma viso extraordinria. Como num sonho, uma carruagem ornada com detalhes dourados e prateados, puxada 
por uma parelha de cavalos brancos, surgiu na estrada. Uma carruagem como aquela era rara no Texas, e combinava mais com as ruas de Nova York ou San Francisco.
    Os ginetes brancos avanavam no mesmo ritmo, e os penachos prateados que traziam na crina flutuavam ao vento. Numa espiral de poeira, detiveram-se defronte na 
varanda.
    Todos observaram com crescente expectativa quando a condutora, jovem e elegante, preparou-se para apear. Seus cabelos eram negros e lisos, e esparramavam-se 
pelas costas estreitas at alcanar a cintura. Os olhos amendoados davam-lhe um ar extico. Ela usava um vestido de seda chinesa, com gola alta e fechos trabalhados, 
que lhe chegava quase at os tornozelos. Duas aberturas laterais deixavam entrever suas pernas esguias quando ela desceu da carruagem.
    - De acordo com a orientao do xerife, esta  a fazenda Jewel. Qual de vocs  Esmeralda? Perguntou a desconhecida, com um leve sotaque.
    - Sou eu - respondeu ela, contemplando com verdadeiro fascnio a moa que chegara em uma carruagem de contos de fadas.
    - Ah. Prazer em conhec-la. Eu sou Jade.
    - Jade. - Esmeralda sorriu, pois o nome combinava perfeitamente com a moa oriental. - Qual  a razo de sua visita.
    O sorriso da recm-chegada ficou congelado em seus lbios.
    - Percebo... que no sabe nada a meu respeito.
    - No sei nada a seu respeito? - repetiu Esmeralda, e experimentou uma sbita sensao de pnico.
    Lembrava-se de uma conversa similar... Quando fora? H apenas um dia? Uma sucesso de imprecaes desfilou por sua mente. Oh No! Isso no podia estar acontecendo 
de novo. No, no podia. Da ltima vez que ouvira aquelas palavras, a recm-chegada lhe revelara que...
    - Parti de San Francisco to logo soube do assassinato pelos jornais - a moa explicou com sua voz musical. - Sou Jade Jewel. E Joseph Jewel ... - Ela fez uma 
pausa para se corrigir, visivelmente abalada: - ... era meu pai.
    
    
    Captulo 11
    
    Adam ficou mais afastado observando a cena, como na ocasio em que Prola havia chegado  cidade. Esmeralda permanecia rgida, em estado de choque. Suas mos 
crispavam ao lado do corpo enquanto encarava a desconhecida. E todas as suas emoes refletiam-se em seu olhar. Choque. Raiva. Medo. Rejeio. Mas havia que lhe 
dar um desconto: ao menos engoliu seu protesto e permitiu que a recm-chegada falasse.
    - Eu via papai com freqncia, mas ele era a pessoa mais importante de minha vida. Quando li sobre o assassinato, vim o mais rpido que pude.
    - E seu propsito era visitar o tmulo dele? Perguntou Esmeralda.
    Jade assentiu.
    - Seria uma desonra para sua memria se eu no lhe rendesse uma ltima homenagem.
    - Suponho que tenha uma prova do que est dizendo.
    - Prova? - Jade repetiu, parecendo insultada por duvidarem de sua integridade.
    Naquele momento, ela ergueu o queixo com altivez e determinao. Adam examinou as trs irms e concluiu que, se havia algo em comum entre elas, era a ndole 
desafiadora. E, aparentemente, impulsiva.
    Jade foi at a carruagem e voltou trazendo uma delicada bolsa bordada. Ao abri-la, viu-se em seu interior vrios documentos. Entregou a Esmeralda um deles, espcie 
de pergaminho no qual se lia uma srie de ideogramas chineses.
    - De acordo com a tradio, meu nascimento foi registrado.
    - No entendo esses caracteres - disse Esmeralda.
    - Ah.  claro. O registro atesta que uma menina nasceu da unio de Ahn Lin, filha de Hu Nan e Joseph Jewel, filho de...
    Esmeralda ergueu a mo para interromp-la.
    - No vale a pena ler tudo. Como no entendo o que est e escrito, no tenho como saber se voc est falando a verdade.
    Jade ficou ofendidssima.
    - Mas por que eu mentiria? Tal atitude desonraria meu pai. - Ela remexeu na bolsa. - Olhe, essas so cartas que papai me escreveu. Como pode notar, ele aprendeu 
algumas palavras na lngua de minha me.
    Esmeralda examinou uma das cartas e, entre um ou outro ideograma, viu a inconfundvel letra do pai.
    Prola que estava a seu lado e tambm examinou a carta, disse:
    - Sou forada a acreditar nela.
    - Obrigada - agradeceu-lhe Jade com um sorriso. - E quem  voc?
    - Meu nome  Prola Jewel. Vim de Boston quando soube da morte de meu... - Ela hesitou, sem conseguir dizer nosso. - ... pai.
    - Outra filha?
    Agora, foi a vez de Prola ficar ofendida. quela altura, j deveria estar habituada a semelhantes humilhaes. Mas no estava, e elas lhe causaram grande mgoa.
    - Perdoe-me - Jade desculpou-se com suavidade. - Mas os jornais s mencionavam uma filha chamada Esmeralda. E, como voc viajou de to longe, deve compreender 
por que fiz o mesmo. - Virou-se ento para Esmeralda, que continuava rgida como uma esttua. - O que posso fazer para que acredite em mim?
    - No, h nada que...
    - O pingente! Se  mesmo filha de papai, ele deve ter lhe dado um pingente - interrompeu Prola.
    - Refere-se a isto? - perguntou Jade, afrouxando a gola do vestido e puxando uma corrente de ouro. Nela, pendia o famigerado pingente com duas pedras: um nix 
e uma jade. - Ganhei-o de papai quando fiz quinze anos. Disse que era um lembrete de que ele sempre estaria a meu lado, representado pelo nix, que era sua pedra 
preferida.
    Prola mostrou seu pingente e cutucou discretamente Esmeralda, que a imitou um pouco a contragosto.
    - Sei que isso pode parecer chocante... - cochichou-lhe Prola. - Eu mesma fiquei sem ao. Mas ns devemos fazer o que  direito e... aceit-la como sendo filha 
de papai.
    Ns. Desde quando, indagou-se Esmeralda, eu havia se transformado em ns? Mordeu o lbio, imaginando quantas surpresas mais a aguardavam. Impelida por Prola, 
desceu da varanda e, sem muita vontade, preparou-se para acolher a estranha.
    As duas pararam diante Jade e estenderam a mo. A outra curvou-se ligeiramente antes de apertar-lhes a mo. Tudo foi muito rpido. Um gesto polido e, logo a 
seguir, as trs retrocederam e se entreolharam consternadas.
    Esmeralda indicou o homem e a mulher postados na varanda.
    - Essa  Carmelita, nossa governanta e cozinheira. E esse  nosso... vizinho, Adam Winter.
    Jade curvou-se para saud-los.
    - Bem... - comeou Carmelita, com um n na garganta. Assim como Adam, ela via em cada uma das trs as semelhanas com Joseph Jewel. Comovida, conseguiu enfim 
dizer:- Venha descansar e comer alguma coisa, seorita Jade.
    - Obrigado. Mas, se no importar, antes eu gostaria de visitar a sepultura de meu pai - respondeu ela, sem se mover. 
    - Eu a levarei l - ofereceu-se Esmeralda.
    Adam deteve-a
    - No  prudente. Cal e os pees ainda no retornaram. Se faz mesmo questo de ir ao tmulo agora, ento eu as escoltarei...
    
    - Papai est enterrado aqui - informou Esmeralda, que ia  frente.
    Seguindo-a no topo da colina, Jade apertava contra o corpo um pequeno pote de cermica. Parou defronte da sepultura e ficou imvel, contemplando o monte de terra 
encimado por pedras. Em comparao com seus costumes ancestrais, a sepultura pareceu-lhe muito primitiva. No havia ali ancios para oferecerem preces ao morto, 
nem cantos, incenso ou estatuetas de drages. No havia tampouco cinzas a serem misturadas com a terra e com o vento, a serem atiradas no mar, de modo que o esprito 
fosse levado para o lugar de onde viera. Jade, porem, no queria ofender as outras filhas de seu pai, que obviamente aprovavam aquela tumba rstica.
    Embora no proferisse uma palavra, seu olhar aptico era eloqente.
    Prola, que inicialmente tambm desaprovara a simplicidade do tmulo, pegou um punhado de terra e deixou-a escorrer por entre os dedos.
    - Segundo Esmeralda, este era o lugar predileto de papai - explicou nom tom brando.
    - Ah! Se compreendo bem, houve um motivo especial para escolh-lo como ltima morada de nossa pai? - indagou Jade.
    - Sim. Desta colina, papai podia ver toda a terra que tanto amava - Esmeralda explicou. No se sentindo muito  vontade para partilhar sua dor com aquelas duas 
mulheres, perguntou: - Gostaria de ficar um pouco sozinha, Jade?
    - Oh, no. Creio que papai ficaria feliz de nos ver todas juntas.
    A moa ento destampou o pote que segurava e espalhou um punhado de cinzas sobre o tmulo.
    - O que est fazendo? - quis saber Prola, alarmada.
    - Estas so as cinzas de minha me. Costuma guard-las em um altar, para honrar a memria dela. Se me permite, gostaria tambm de colocar um pouco dessa terra 
dentro do pote. Assim, minha me poder ficar junto de papai.
    Prola no foi capaz de dissimular sua perplexidade, pois era evidente que julgava brbaro aquele costume. J Esmeralda assentiu. A idia de reunir os pais mortos 
em sua ltima morada evocava para ela um apelo potico, romntico, e chegou a considerar a possibilidade de transferir o caixo da me para aquela colina.
    Jade ajoelhou-se e orou, enquanto colhia um pouco da terra e colocava-a dentro do pote. Depois de tap-lo, a moa oriental ficou a olhar a sepultura, esforando-se 
para no demonstrar suas emoes. Mas, quanto mais se esforava, mais difcil ia se tornando reprimir as lgrimas, e por fim ela deu livre vazo a seu sofrimento. 
Assim, Jade e Prola prantearam o pai, cada qual a seu modo, sem reservas.
    Esmeralda ajoelhou-se e tocou reverentemente a pilha de pedras que recobria o tmulo. Aquela era q terra do pai. A terra dela, pensou. Mas, mal esse pensamento 
se formou e outro j lhe ocorria: seria realmente a terra dela agora? Ou uma parte pertencia quelas duas desconhecidas?
    Sabia que, do ponto de vista legal, era a herdeira legtima do pai. Seu impasse tinha uma natureza muito mais pessoal, dizia respeito ao corao e  alma. Como 
o pai teria desejado que ela agisse com relao s irms?
    Perturbada por seu dilema e pelo choro das outras duas, j sentia um n na garganta e as lgrimas que lhe afloravam aos olhos. E afastou-se para no se permitir 
tal fraqueza.
    Adam, que as esperava ao lado da carruagem, esquadrinhava a paisagem na esperana de detectar a presena do pistoleiro misterioso. Porm, seus olhos acabavam 
sempre indo pousar em Esmeralda. Ao ver que ela se afastava das irms, teve vontade de cingi-la nos braos e confort-la. Dizer-lhe que no precisava ter vergonha 
de chorar. E consol-la at que ela finalmente encontrasse alvio no pranto e no tivesse mais lgrimas para derramar.
    Mas, em vez disso, cruzou os braos e forou-se a ficar onde estava.
    As trs moas no tardaram a retornar  carruagem.
    - Obrigado por permitir que eu visitasse o tmulo de papai. Agora devo despedir-me - disse Jade a Esmeralda.
    - Onde est hospedada? - perguntou-lhe Prola. Ela assumira uma atitude protetora para com a moa oriental, lembrando-se perfeitamente da prpria sensao de 
perda e confuso quando chegara a Hanging Tree.
    Jade encolheu os ombros com indiferena.
    - Procurarei uma hospedagem na cidade vizinha. E amanh voltarei para San Francisco.
    Esmeralda mordeu o lbio. Mas em vo. Antes que tivesse tempo de refletir, as palavras escaparam de seus lbios.
    - Temos espao de sobra na casa da fazenda. Por que no pernoita aqui?
    Jade sorriu e deu uma fungadela.
    - Fico muito honrada. Obrigada.
    - timo. Ento... - Esmeralda virou-se para Adam - No queremos mais ret-lo. Volte para sua propriedade e no se preocupe...
    As palavras dela foram abafadas por um estampido alto. Um tiro. Como j acontecera, a bala no os pegou por um triz, passando quase de raspo entre Esmeralda 
e Adam. Ele instintivamente reuniu as trs mulheres e impeli-as para trs da carruagem.
    - No saiam da - instruiu. Sacou sua arma e olhou ao redor.
    - A bala veio daquela direo - disse Esmeralda, usando sua prpria pistola para indicar uma formao rochosa no muito longe dali. Estava louca para revidar.
    No havia nem sombra do pistoleiro. Adam aguardou alguns momentos, com todos os sentidos em alerta. Mas era bvio que o atacante no pretendia se arriscar a 
ser apanhado.
    - Vamos embora. Eu as acompanharei - Adam disse por fim.
    Dessa vez, embora continuasse a brandir sua pistola, Esmeralda no protestou. E, quando olhou para as irms, qual foi sua surpresa ao ver que ambas empunhavam 
pequenas pistolas prateadas!
    - Onde conseguiu isso? - perguntou a Jade.
    - Era da minha me. Sempre a carrego comigo para me proteger.
    - Proteger contra qu? - perguntou Esmeralda, estreitando os olhos.
    - Contra qualquer perigo. - Jade apontou para a arma de Esmeralda. - Voc tambm no anda armada?
    - Eu... suponho que sim.
    Esmeralda devolveu a pistola ao coldre. Isso no significava, porm que estivesse tranqila. Eis que surgia mais uma pistola como aquela que havia matado seu 
pai, nas mos de outra estranha que clamava ser filha dele.
    E, como se no bastasse isso, mais um vez nenhuma evidncia confirmava quem fora a vtima pretendida, se ela ou Adam.
    A volta para casa da fazenda foi silenciosa e tensa. Quando, ao chegarem, Adam apeou, Esmeralda fitou-o espantada.
    - O que pretende?
    - No vejo sinal de Cal e dos pees. Ficarei aqui at que eles voltem.
    - Ora, decerto no acredita que o pistoleiro teria a audcia de tentar me atacar dentro de minha prpria casa...
    Adam pegou-a pelo brao e impeliu-a na direo da porta.
    - No momento, no sei o que pensar.  melhor voc entrar logo.
    Esmeralda olhou para Prola e Jade, que passaram por ela depressa, ansiosas para entrar. E, vacilante, continuou a teimar.
    - No vou entrar. Prefiro ficar aqui. 
    Apesar do perigo que os rondava, Adam no pde deixar de sorrir.
    - Isso eu j percebi. Voc quer evitar ao mximo o contato com aquelas duas, no ? Seu pai a deixou numa tremenda embrulhada.
    Esmeralda suspirou e, pela primeira vez, permitiu-se uma demonstrao de fraqueza:
    - Oh, Adam! O que farei?
    Ele afagou-lhe o cabelo. Prolongou a carcia por um momento, sentindo os fios sedosos de encontro a sua palma spera.
    - Voc entrar l e ser simptica e cativante como sempre.
    Ela praguejou violentamente, o que o fez dar uma gargalhada.
    - Est bem. No precisa ser simptica e cativante com elas. Mas, ao menos, voc pode entret-las com a riqueza de seu vocabulrio. Aposto que essas duas a nuca 
ouviram nada igual.
    Cheia de desgosto, Esmeralda balanou a cabea.
    Adam ficou srio e baixou a voz:
    - Sei que isso no ser fcil. Voc ter de se acostumar com duas estranhas. Mas lembre-se, Esmeralda: seu pai as amava. E. se quiser prezar a memria dele, 
deve procurar conhec-las melhor. Talvez, com Prola e Jade, aprenda coisa sobre seu pai que nunca imaginou.
    - No preciso que elas me digam nada.
    - Est certo. Mas e elas? Nenhuma das duas teve a oportunidade de conviver tanto tempo com seu pai. Enquanto estiverem aqui, talvez voc possa mostrar-lhe como 
ele vivia aqui. Garanto que Prola e Jade s tero a lhe agradecer por isso.
    Os dois estavam muito prximos. Esmeralda ergueu o rosto e seus lbios quase roaram nos de Adam. Ela ainda tentou recuar, mas sentiu-se subitamente paralisada. 
Sentiu o olhar dele faminto, devorando-lhe a boca com um apelo mudo.
    - Voc  sempre to astuto?
    Adam tornou a lhe afagar os cabelos.
    - s vezes, sou ainda mais astuto do que pareo.
    Esmeralda inclinou-se um pouco. Seus corpos agora quase se tocavam.
    - E enquanto eu estiver entretendo minhas irms, o que voc vai fazer?
    - No se preocupe. Vou checar os cavalos no estbulo e depois tomarei uma xcara de caf com Carmelita.
    - Eu bem que deveria saber... Voc est mesmo  interessado nos dotes culinrios de minha cozinheira.
    Adam ficou perfeitamente imvel para no ceder ao impulso de beij-la. Mesmo depois de Esmeralda entrar na casa, ele continuou a sentir o corpo inteiro vibrar, 
como se ainda se aquecesse com o calor dela.
    
    - Est muito quieto seor Winter - comentou Carmelita e, na tentativa de anim-lo, colocou diante dele um prato com generosas fatias de po de milho.
    Adam j cuidara dos cavalos e agora s lhe restava aguardar. Saber que Esmeralda estava a poucos metros dali, to perto e inacessvel, deixava-o agastado.
    - A seorita Esmeralda contou-me sobre o novo atentado. Afinal, quem o pistoleiro pretendia atingir? - perguntou a cozinheira, sentando-se diante dele.
    - No sei - Adam murmurou. - Espero que eu seja o alvo.
    - Por qu diz isso?
    - Estou acostumado a viver na defensiva. E j fui alvejado antes. J Esmeralda  teimosa e descuidada. Sempre teve uma vida muito protegida aqui.
    Carmelita sorriu.
    - A seorita no gostaria de ouvi-lo falar assim. De certa forma, cresceu desfrutando uma liberdade que poucas moas j tiveram. Ao mesmo tempo, o pai a protegia 
muito.
    Os dois olharam para a sala ao lado, onde as irms estavam acomodadas, parecendo bem pouco  vontade.
    - Ele certamente a protegeu at mais do que devia - observou a governanta. - Agora Esmeralda est totalmente desprezada para enfrentar essa nova situao familiar.
    Algum bateu  porta, e todos se sobressaltaram.
    - Est esperando visitas? - Adam perguntou a Esmeralda.
    - No.
    Quando Esmeralda foi abrir a porta, ele a seguiu de perto, com a arma em punho.
    Ao ver o tio, Esmeralda relaxou visivelmente.
    - Tio Chet, que surpresa! O que traz aqui?
    - Ol, minha querida - cumprimentou ele. Tocou o chapu em sinal de deferncia e beijou-a no rosto.
    O sorriso de Pierce se desvaneceu quando ele se deu conta da presena de Adam?
    - O que Winter faz aqui?
    - Veio nos fazer uma visita - explicou Esmeralda embaraada.
    O banqueiro fitou-o com desconfiana, e Esmeralda se ps a falar para tentar atenuar a atmosfera tensa que se estabeleceu entre os dois homens.
    - Por que no janta conosco, tio?
    - No posso, meu bem. Ainda tenho um compromisso na cidade. S passei aqui para apanhar o balano mensal da fazenda.
    Esmeralda levou a mo  testa e exclamou:
    - Oh... Esqueci-me completamente das contas!
    - Bem, ento no se preocupe. Sei que tem estado bastante ocupada. Deixe que eu levo o livro de contas. Meu contador far os clculos.
    De repente, ocorreu a Esmeralda que o balano mensal da fazenda era um pretexto perfeito para evitar o convvio forado com Prola de Jade. Assim, disse impulsivamente:
    - Prefiro fazer eu mesma os clculos. Ser uma forma de eu me inteirar melhor da administrao da propriedade.
    - Ora no  necessrio...
    - Nada disso. No quero que se preocupe comigo - ela disse com um sorriso. - Cuidarei de tudo e logo lhe entregarei o balano.
    Pierce pareceu um pouco frustrado, mas no insistiu. Olhou de esguelha para Adam e depois sorriu para Esmeralda.
    - Nesse caso, j vou indo. Se precisar de algo,  s pedir.
    - Obrigada, tio.
    Depois que ele se foi, Esmeralda deu um suspiro.
    - Receio que tio Chet no tenha ficado muito contente de ver voc aqui.
    - Eu pareo despertar esse tipo de reao na cidade inteira.
    - Ora, no leve o pessoal daqui muito a srio. Acontece que papai foi assassinato e todos querem que a justia seja feita... Bem, se Carmelita perguntar por 
mim, diga que estou trabalhando no escritrio de meu pai, sim?
    Ela fez meno de se afastar, mas Adam a deteve.
    - Precisa de ajuda?
    - No, obrigado. Mas tenho certeza de que Carmelita adorar ficar na sua companhia - replicou Esmeralda, subitamente exasperada porque seu corao havia comeado 
a bater descompassado de novo.
    A voz de Adam soou baixa e insinuante em seu ouvido. - No  a companhia de Carmelita que eu quero.
    Os olhos verdes de Esmeralda reluziram por um fugaz momento, animados por um caleidoscpio de emoes. Sua primeira reao foi surpresa. Depois de satisfao. 
E, por fim, de sedutora provocao.
    - E por que voc haveria de querer a minha companhia, Adam Winter?
    Mal acabou de falar, caiu em si. Estava flertando com ele! Nunca havia feito isso antes com nenhum homem, e a realizao de tal fato a fez corar violentamente.
    Fitando-a com intensidade, Adam disse:
    - Por que voc me fascina, Esmeralda. Nunca conheci uma mulher como voc.
    Depois disso, ele fez um esforo supremo para recuar e voltou sobre seus passos. Precisava manter distncia de Esmeralda, ou ainda acabaria perdendo o controle 
de vez.
    
    
    Captulo 12
    
    - O jantar est pronto - anunciou Carmelita, dando uma discreta batida na porta do escritrio.
    Esmeralda empurrou o livro de contabilidade, aliviada por abandonar temporariamente a rida tarefa de ordenar o amontoado de nmeros que se avolumavam no caderno. 
Foi para a cozinha e logo constatou que Cal e os pees no haviam chegado ainda, pois Adam continuava na fazenda. Seus olhares se cruzaram por um breve instante, 
e Esmeralda virou o rosto depressa. Mas continuou a sentir o calor do olhar dele sobre si.
    - Sentimos sal falta. - disse Prola enquanto todos se sentavam  mesa.
    - Eu estava no escritrio. Preciso fazer o balano da contabilidade para entreg-lo ao tio Chet.
    - Tio Chet? - espantou-se Jade. - Papai nunca mencionou nenhum irmo.
    - Ns na verdade no temos lao de parentesco. Mas conheo Chester Pierce desde que era criana e sempre o chamei de tio.
    - Compreendo. E por que precisa preparar um balano para ele? - perguntou Jade, servindo-se de uma pequena poro de carne com molho e passando a travessa adiante.
    - Porque tio Chet cuida de meus investimentos e precisa saber de quanto dinheiro precisarei para pagar os pees.
    - No  uma quantia fixa?
    - No. Cal sempre chama mo-de-obra extra quando o trabalho se acumula. Precisamos de reforos para ajudar durante a poca de reproduo, para marcar o gado, 
levar os animais at Abilene e recolher as reses desgarradas. O nmero de empregados temporrios vari a cada ms, segundo a necessidade - explicou Esmeralda.
    - Talvez eu possa ajud-la - ofereceu Prola. - Na escola, sempre fui muito boa em matemtica.
    - Fala srio? No se importaria mesmo?
    - Imagine. Seria um prazer e uma forma de retribuir sua hospitalidade.
    Esmeralda ficou a um s tempo surpresa, contente e aliviada. Foi at o fogo e serviu-se de po de milho, sentindo-se subitamente faminta.
    - Ento podemos fazer aquela contas amanh cedo - disse. Depois olhou para Jade. - E  tarde, se voc quiser, daremos um passeio pela fazenda antes de sua partida.
    O rosto da outra iluminou-se com um sorriso.
    - Eu adoraria, obrigada.
    - No se esqueam de levar tambm Cal e um grupo de pees - advertiu Adam.
    - No se preocupe - replicou Esmeralda, num tom carregado de sarcasmo.
    Adam ignorou sua ironia e mastigou um bocado de comida. De repente, levantou os olhos do prato e perguntou:
    - Carmelita, voc  casada?
    - Si. Meu marido se chama Jos.
    - Pois Jos  um felizardo. Esta foi a carne mais macia que j comi.
    A cozinheira sorriu-lhe, encantada, e serviu-lhe mais. Quando Esmeralda, quase fuzilou-o com o olhar. Ficou tambm irritada com Carmelita. Mas ser que a mexicana 
no percebia que Adam elogiava sua culinria s para espicaar a ela, Esmeralda? Isto , no que Carmelita cozinhasse mal, pelo contrrio. Porm...
    Sem fazer caso dos melindres de Esmeralda, ele virou-se para Jade.
    - Voc veio de muito longe, srta. Jewel. Conte-nos um pouco sobre sua vida em San Francisco.
    A pergunta a fez sorrir.
    - Minha me e eu morvamos em um lugar adorvel, com uma bela vista da cidade. De meu quarto, avistava-se o mar e os navios, como o que trouxe minha me da China.
    - E voc freqentou a escola?
    - No. Mas mame sempre contratou tutores para cuidar de minha educao. Aprendi as matrias mais variadas, como cincia e bordado.
    - E em que idioma eram as suas aulas? - quis saber Prola, antes de saborear mais um pedao de carne. Como a comida no fora muito condimentada, ela estava apreciando 
bastante a refeio, que era quase to boa quanto s que sua me preparava.
    - Em chins e em ingls. Eu domino vrios idiomas. Tambm falo francs e alguns dialetos chineses. Em San Francisco,  essencial conhecer diversas lnguas.
    - Por qu? - perguntou Esmeralda.
    - Porque  uma cidade porturia, agitada por excelncia. Pessoas do mundo inteiro passam por l. Quem tem um negcio na cidade precisa lidar com muitos estrangeiros.
    Todos na mesa ouviam-na com ateno. Para ele, San Francisco representava um mundo distante e extico, e era interessante obter uma descrio da famosa metrpole 
em primeira mo.
    - Vocs moravam no prprio centro?
    Jade aquiesceu.
    - Papai tentou convencer mame a aceitar uma casa no campo, longe da agitao do centro. - Ela interrompeu-se ao notar que Esmeralda a fitava com indisfarvel 
constrangimento. Censurou-se por sua falta de tato. No deveria falar mais que o mnimo necessrio sobre a vida que levara com o pai. - Mas minha mo no gostava 
do campo. Tinha muitos vnculos com a cidade.
    - E vocs moraram em uma casa grande como esta? - sondou Esmeralda.
    - No, no. Ns morvamos no andar superior do estabelecimento de mame.
    - Sua me ento trabalhava? - indagou Prola. Ela tomou um gole de gua e enxugou delicadamente os lbios. - Em que ramo?
    - Ela era proprietria do Drago Dourado - Jade respondeu, sem esconder seu orgulho.
    - Drago Dourado? - repetiu Esmeralda, e franziu a testa. - Sua me trabalhava no comrcio de ouro?
    - Oh, no. O Drago Dourado era o maior templo de prazer de San Francisco. Foi l que papai conheceu minha me.
    - O que  um templo do prazer? - Esmeralda fitou-a curiosa.
    Nesse ponto, Adam tossiu discretamente. Mas, antes que pudesse desviar o assunto, Jade perguntou:
    - Vocs no tm nenhum estabelecimento desse tipo em Hanging Tree? Um templo do prazer  um lugar onde os homens vo para se esquecer das preocupaes.
    - Ah, um saloon? - Esmeralda sorriu. - Sua me era proprietria de um saloon.
    - Bem... de certa forma, poderia ser chamado assim. L um homem podia beber e tambm desfrutar outros entretenimentos.
    - Que tipo de entretenimento? - foi a vez de Prola perguntar.
    - Jogos de cartas e de dados. Ou, talvez, a companhia de uma bela mulher.
    Prola corou violentamente. Arregalou os olhos de surpresa, depois estreitou-os de puro horror. Aquela mulher que dizia filha de seu pai, morara com a me em 
um...
    A mera idia parecia-lhe terrvel.
    Esmeralda, por outro lado, nem se abalara.
    - Interessante - comentou, distrada, e empurrou o prato. Claramente, no se dera conta do que realmente era um "templo do prazer". - Carmelita,  impresso 
minha ou estou sentindo cheiro de torta de ma?
    A cozinheira, sentada a um canto, cochilava. Ao ouvir seu chamado, endireitou-se e se recomps.
    -S. Vou cort-la e a servirei em seguida.
    Adam deu a ltima garfada, empurrou o prato tambm e recostou-se na cadeira. Observou as diversas reaes causadas pela revelao de Jade. Esmeralda, em sua 
inocncia, continuava achando que a irm vivera em um saloon. J Prola mal conseguia dissimular o choque. E, quanto a Jade, esta limitava-se a bebericar seu ch 
com a mais perfeita impassibilidade. Para ela, o negcio da me era apenas um fato da vida. Nada mais.
    Ao que parecia, Adam pensou com um sorriso, a rvore genealgico de Joseph Jewel havia gerado mais um fascinante desdobramento.
    
    J chovia ininterruptamente h quase uma hora. Adam estava bebendo sua terceira xcara de caf, quando Cal e os pees finalmente chegaram.
    - Eles voltaram - anunciou Carmelita ao ouvir a aproximao dos cavalos.
    Logo soaram os passos dos homens na varanda. Quando Adam virou-se, deparou com o capataz parado  porta, molhado dos ps  cabea.
    O outro tirou o chapu encharcado. Foi s a que percebeu sua presena.
    - No pensei que ainda fosse v-lo aqui, Winter.
    Adam no se deu o trabalho de fornecer-lhe nenhuma explicao. Terminou de beber o caf em silncio, enquanto Cal franzia o cenho ao ver Jade.
    Esmeralda fez uma pattica tentativa de apresentar a irm:
    - Cal, essa  Jade... Ela ... ou melhor, papai era...
    Notando seu embarao, a moa oriental tomou a palavra.
    - Sou Jade Jewel, de San Francisco, Joseph Jewel era meu pai.
    Por um momento, Cal ficou totalmente sem ao. Depois, esboou um sorriso de boas-vindas um tanto forado.
    - Muito prazer, srta. Jade. Sou Cal McCabe, capataz da fazenda.
    Seguiu-se um incmodo silncio no recinto.
    - Aceita uma xcara de caf? - ofereceu Carmelita.
    - No, obrigado. Acabei de jantar com os rapazes no galpo.
    - Encontrou alguma pista do homem que nos atacou? - indagou Esmeralda.
    Ele meneou a cabea negativamente.
    - No. Talvez ele tenha ido embora e no volte mais.
    - Receio que esteja enganado - Adam disse em voz baixa.
    - O qu?
    - Houve outro atentado.
    Adam foi brindado com um olhar estarrecido de McCabe.
    - Mas... no  possvel! - exclamou o outro. Virou-se para Esmeralda: - Onde?
    - Na sepultura de papai. Levamos Jade l. Ela veio de San Francisco especialmente para visitar o tmulo.
    - E foi como das outras vezes?
    - Sim. A bala passou de raspo. Entre mim e Adam. 
    Cal encarou-o com crescente contrariedade.
    - Parece-me muito estranho que esses atentados sempre aconteam quando voc est por perto, Winter.
    - Sei que  estranho - Esmeralda interveio com brusquido.
    Estava enervada. Muitas coisas andavam acontecendo ultimamente. Disparos fora de hora. Irms que chegavam sem aviso. E Adam Winter... sobretudo Adam Winter, 
que a fazia ter pensamentos que nunca tivera antes.
    Estava perdendo o controle da situao. A nica coisa que ainda sentia que dominava a fazenda e seu capataz.
    - Conversaremos sobre isso amanh, Cal. No momento, prefiro esquecer o assunto.
    - Est bem - ele disse com igual brusquido. - Boa noite.
    E saiu da cozinha pisando duro.
    Esmeralda esperou que Cal se afastasse e ento dirigiu-se a Adam:
    - Boa noite, Adam.
    Ele agradeceu a Carmelita pelo jantar e despediu-se de Prola e de Jade. Esmeralda acompanhou-o at a porta.
    L chegando, Adam segurou-lhe a mo.
    - Aceite um conselho. Sei que voc preza sua liberdade Esmeralda. Mas no saia mais  noite para cavalgar.
    Ele ergueu o queixo, altiva.
    - Agradeo-lhe a preocupao, mas sei me cuidar. Boa noite, Adam.
    Desgostoso, ele girou sobre os calcanhares e, to logo a porta se fechou, dirigiu-se ao alojamento dos pees. L, os homens agrupavam-se pelos cantos, uns contando 
histrias, outros jogando cartas e outros, ainda, executando pequenas tarefas. O som da chuva abafava suas vozes, e de vez em quando suas risadas se alteravam.
    Adam parou  porta e chamou Cal.
    - Preciso falar com voc, McCabe.
    Todos quedaram-se em silncio, observando-os. O capataz hesitou, vestiu a jaqueta e foi ter com ele. Aps um instante, os pees recomearam a falar e rir.
    Cal fechou a porta atrs de si e apertou a jaqueta em volta do corpo para proteger-se da chuva.
    - O que quer agora Winter?
    - Acho que seria sensato colocar homens de guarda em toda fazenda - disse ele sem rodeios.
    - Ah, ? E o que mais voc "acha"?
    Adam no se abalou com a ironia de Cal e disse:
    - Acho que deveria destacar dois pees para vigiar Esmeralda. Ela  teimosa e pode acabar fazendo alguma bobagem para provar que no tem medo do pistoleiro.
    - Desde quando voc  especialista em Esmeralda? - replicou o capataz, trmulo de indignao.
    - O que h, McCabe? Sabe que eu estou certo.
    Cal fincou o indicador no peito dele.
    - Eu s sei que no confio em voc, Winter. E no preciso de seus conselhos. Agora suma daqui e deixe que eu cuido de Esmeralda.
    A voz de Adam soou surpreendentemente calma. E ameaadora.
    - Nunca mais ponha as mos em mim, McCabe. A menos que esteja preparado para perd-las.
    Era a deixa que Cal estava esperando para uma briga. Cego de clera, tocou o cabo da pistola que trazia  cintura. Adam, porm, foi mais rpido e encostou o 
cano de sua prpria arma no peito dele.
    - Jogue a pistola no cho - ordenou-lhe.
    Lentamente, o capataz soltou a pistola. Depois ergueu o rosto, pronto para morrer. Para sua surpresa, Adam tambm deixou a pistola cair.
    - O que significa isto? - perguntou Cal.
    - No  de hoje que voc est pedindo uma briga. Pois muito bem. Vou fazer sua vontade. Mas vamos lutar como homens, de mos vazias.
    - Com todo prazer - disse o capataz, desafivelando o cinto e jogando-o de lado.
    Logo a seguir, desferiu um violento soco no rosto de Adam. Este recobrou-se depressa e conseguiu evitar um segundo golpe. Cal ento perdeu o equilbrio e recebeu 
um poderoso murro na boca do estmago, que o fez dobrar-se com um gemido. Enraivecido, tratou de dar o troco com uma sucesso de golpes na cabea e no peito de Adam. 
Nem todos acertaram o alvo, mas os bem-sucedidos fizeram um considervel estrago.
    Atrados pelo alvoroo do lado de fora do galpo, os pees no tardaram a vir assistir  briga. Sem se importarem com a chuva, fizeram um crculo ao redor dos 
dois adversrios, gritando palavras de encorajamento para o capataz.
    Adam e Cal enfrentavam-se em p de igualdade. Enquanto Adam era mais alto e gil. Cal era mais corpulento e estava determinado a lutar at o fim.
    - Fique longe de Esmeralda! - vociferou o capataz antes de esmurrar o seu queixo. - No quero que torne a pr os ps na fazenda.
    - Pois ento faa seu trabalho direito! Precisa proteg-la! - retrucou Adam, e frisou suas palavras com um soco no nariz dele.
    - No  Esmeralda que me preocupa, seu desgraado! So esses misteriosos atentados, que sempre acontecem quando voc est por perto!
    - Por acaso acha que eu contratei um pistoleiro para atirar em mim mesmo?
    Adam arremeteu de cabea contra o peito de Cal, que tombou na lama. O capataz levantou-se e jogou todo o peso de seu corpo sobre Adam. Os dois caram, rolaram 
atracados no cho.
    - J era hora de voc comear a cuidar dele, McCabe! Ela no passa de uma menina frgil e assustada...
    - Menina? No seja hipcrita! Voc a olha como um homem olha uma mulher!
    Engalfinhados, os dois iam trocando golpes e insultos, at que Cokkie veio apart-los.
    - Chega, chega!Tratem de parar com isso j!
    Como nenhum dos dois parecesse disposto a capitular, o cozinheiro no hesitou em dar um tiro para o alto.
    - O prximo disparo vai acert-los - advertiu. Depois virou-se para os pees. - Quanto a vocs, continuem o que estavam fazendo e parem de bisbilhotar!
    Os empregados obedeceram, aborrecidos por aquela interrupo em seu divertimento.
    Com grande relutncia, Adam e Cal levantaram-se. Cookie mediu-os de alto a baixo com expresso desaprovadora.
    - Olhem s para vocs! Brigando como animais. E por qu? Por um rabo-de-saia, ora!
    Nesse momento, Esmeralda surgiu enrolada em um robe, seguida pelas irms.
    - Ouvi um tiro... o que houve? - ela parou de repente, olhando horrorizada para Adam e Cal. - O que aconteceu com vocs dois?
    - No  da sua conta, Esmeralda - disse Cookie.
    - Como no? - Ela ps as mos na cintura. - Tudo o que acontece nesta fazenda  da minha conta!
    - Isso  assunto de homens.
    - Assunto de homens? No compreendo...
    Jade, que observava os dois oponentes, sorriu. Comeou a puxar Esmeralda discretamente, conduzindo-a de volta  casa.
    - Venha comigo. Eu lhe explicarei - sussurrou.
    Esmeralda lanou um ltimo olhar para os dois homens e deixou-se levar pela irm. Enquanto elas se afastavam, Cal e Adam ainda trocaram farpas verbais. Cookie 
ento mandou Cal para o galpo e pediu a Adam que seguisse seu rumo.
    
    Ladeada por Jade e por Prola, Esmeralda postou-se  janela para ver Adam partir. Depois sentou-se com as irms na beira da cama.
    - No entendo o que deu em Cal... - murmurou.
    - H quanto tempo o conhece? - indagou Jade.
    - Ah, j nem sei mais... desde que eu era pequena.
    Esmeralda levantou-se, irrequieta, e foi at a lareira. Parou, cruzando os braos.
    - Nunca pensei em Cal como um segundo pai - disse por fim. - Sempre fomos bons amigos. Mas, agora que papai se foi...
    - Talvez ele se sinta na obrigao de proteger voc.
    -  possvel... S que isso no explica essa briga. Os dois pareciam que iriam se matar!
    Jade sorriu.
    - Mas no se mataram. No era seu intuito. O que eles queriam era... demarcar territrio - sentenciou.
    Prola refletiu e de repente concordou
    
    
    Captulo 13
    
    - Estvamos  sua espera - disse Carmelita quanto ela entrou na cozinha e sentou-se  mesa.
    Esmeralda acomodou-se na cadeira e sentiu sobre si trs pares de olhos que a perscrutavam atentamente.
    - Dormiu bem? - perguntaram Prola e Jade em unssono.
    - No - foi sua resposta lacnica.
    Carmelita examinou as trs irms  mesa. Era realmente curioso v-las juntas. Embora tivessem em comum uma qualidade indefinvel herdada do pai, na aparncia 
eram bem diferentes. Esmeralda enfiara-se nas roupas masculinas de costume, e camisa de mangas arregaadas, o cinto com o coldre da pistola, os cabelos soltos numa 
massa rebelde de fios cor de fogo. Prola usava um vestido amarelo, de gola alta arrematada por um camafeu, e tinha os cabelos loiros e lisos amarados frouxamente 
por uma fita da mesma cor. E Jade estava com mais um de seus trajes tpicos, com gola chinesa e aberturas laterais, de um vermelho prpuro que lhe realava os cabelos 
negros, longos e escorridos.
    - Estava pensando em Adam Winter? - Jade perguntou a Esmeralda.
    - No seja tola. Por que eu haveria de pensar nele? - Ela fez um gesto de pouco-caso e pegou uma torrada.
    -  inevitvel - Jade disse categoricamente. Via-se no dever de instruir a irm ingnua nos mistrios do mundo. - Quando um homem briga por uma mulher, ela no 
consegue deixar de pensar nele.
    - Adam no lutou por mim. E eu no estava pensando nele.
    Jade no insistiu. Apenas sorriu e bebericou seu ch.
    - Depois do caf, eu a ajudarei com as contas da fazenda. Isso far com que tire Adam da cabea - disse Prola.
    - No estou pensando nele.
    - se  o que diz...
    O tom jovial de Prola s fez enerv-la ainda mais, e ela deu uma mordida na torrada com excessivo vigor.
    Carmelita manteve-se de costa para a mesa, controlando-se para no sorrir. Mas, de quando em quando, no conseguia se reprimir e suas costas eram sacudidas pelo 
riso abafado. Nunca vira Esmeralda to melindrada. Era, com efeito, indito. At pouco tempo antes, mostrava-se sempre muito segura de si, sem medo, sem dvidas.
    Quando a governanta serviu-lhe ovos, molemente assentados sobre uma torrada, Esmeralda franziu o cenho.
    - o que  isso?
    - Ovos poch - informou Prola com orgulho. - Ensinei Carmelita a prepar-los do jeito que minha me fazia.
    Esmeralda testou-os com a ponta do garfo e acompanhou a evoluo da gema que, rompida, deslizou lentamente pelo prato. Experimentou um bocado com ligeira desconfiana.
    -  to... suave - comentou, quando o que queria realmente dizer era "insosso".
    - assim que comemos ovos em Boston - contou Prola, saboreando seu desjejum com toda a delicadeza. - Espero que voc no tenha ficado aborrecida. Achei que 
gostaria de provar algo diferente.
    - Obrigado... Est muito bom. - Esmeralda engoliu os ovos o mais rpido que pde e viu Jade fazer o mesmo.
    Quando terminaram de comer, levantou-se.
    - Vamos cuidar das contas, Prola?
    - Claro.
    - Posso ficar com vocs? - perguntou Jade.
    - Lgico. Vamos trabalhar no escritrio de papai.
    As trs seguiram ento pelo corredor. Ao entrarem no gabinete de Joseph Jewel, Prola e Jade ficaram em silncio, enquanto seus olhares percorriam o aposento 
que mais bem refletia a personalidade do falecido pai. Era uma sala grande, como mveis igualmente imponentes. Numa das paredes havia uma enorme lareira. Na mesa 
avolumaram-se pilhas de livros e papis, e a cadeira estofada, no decorrer dos anos, havia se amoldado ao formato do corpo dele.
    As janela proporcionavam uma bela vista de Widow Peak e, a distncia, das guas espelhada de Poison Creek. No era difcil imaginar Joseph Jewel sentado naquela 
cadeira, fazendo clculos e planejando novos investimentos.
    - Oh, eu sinto a presena de papai aqui - disse Jade.
    Prola concordou com um meneio.
    - Mais do que qualquer cmodo da casa, eu sinto papai neste escritrio.
    Esmeralda foi forada a sorrir.
    -  verdade. Tambm tenho essa impresso, desde que ele... se foi.
    Era estranho, pensou, que as trs tivessem sentido a mesma coisa ali. Mas, afinal, no eram todas filhas de Joseph Jewel? Essa idia a teria chocado ainda na 
vspera, mas no agora. Por alguma razo que no podia compreender, estava comeando a aceitar que havia um forte vnculo a uni-las.
    Tirou o livro de contabilidade da gaveta, abriu-o sobre a mesa e puxou uma cadeira para sentar-se ao lado de Prola. A irm debruou-se sobre as fileiras de 
nmeros e, aps uma hora, balanou a cabea com desgosto.
    - Essas contas esto muito confusas. Vai levar uma eternidade para deslind-las. 
    Esmeralda deu um suspiro de alvio.
    - Isso me tranqiliza um pouco. Pensei que eu  que fosse ignorante demais para entend-las.
    Ouviu-se uma batida na porta e Cal entrou.
    Apesar de estar com os cabelos cuidadosamente penteados, de barba fita e de roupas limpas, o capataz ainda trazia no rosto as marcas da luta da vspera. Tinha 
um olho roxo e a face um pouco inchada.
    Inclinou a cabea para Prola e Jade,  guisa de saudao. No se sentia muito  vontade perto de mulheres, exceto de Esmeralda. Mas ela no contava, pois, por 
seus modos e indumentria, podia quase ser encarada como mais um dos rapazes.
    - Bom dia - disse, dirigindo-se a ela. - Eu gostaria que me acompanhasse at a cidade para falar com o xerife. Precisamos dar parte dos atentados que aconteceram 
aqui.
    Ela pensou por uns momentos.
    - Mas de que adiantaria? Se voc e os rapazes no conseguiram peg-lo, por que acha que o xerife conseguiria?
    Cal j viera preparado para enfrentar sua resistncia. Os Jewel sempre haviam se considerado acima da lei; em sua opinio, o territrio da fazenda era intocvel 
e o xerife no passava de uma figura decorativa.
    Porm, embora ele detestasse ter de admitir, a advertncia de Adam ficara martelando em seu esprito. Esmeralda realmente vinha se revelando um osso duro de 
roer desde a morte do pai. Mas tinha de tentar convenc-la e argumentou:
    - O xerife tem mais informaes sobre os fora-da-lei do que ns. Seria bobagem deix-lo de fora disso.
    - Cal est certo - apoiou Jade. - voc deve relatar o caso ao xerife.
    Prola meneou a cabea com aprovao.
    - Tambm acho. O xerife poderia prestar uma ajuda valiosa.
    - E como ficam as contas? - impacientou-se Esmeralda.
    - Cuidaremos delas mais tarde. Sua segurana  mais importante que a contabilidade - disse Prola, dando-lhe uma palmadinha no ombro.
    Est bem. Irei ver o xerife, depois levarei Jade para conhecer a fazenda. As contas vo ter que esperar at a noite.
    
    - Ora, ora. Mas que coincidncia! - exclamou o xerife Quent Regan ao ver Esmeralda e Cal entrarem em sua sala.
    Sentado diante dele estava Adam. Assim como Cal, fizera a barba e vestira roupas limpas. E, assim como Cal, exibia no rosto vestgios da briga.
    O xerife examinou o olho roxo de Cal e a seguir o corte que Adam tinha no canto da boca.
    - Esto aqui para registrar uma briga com um leo das montanhas, Cal?
    O capataz fez um sinal negativo e perguntou a Adam:
    - Foi por isso que voc veio, Winter?
    - No. O Sr. Winter veio registrar a ocorrncia de atentados a bala na fazenda Jewel - respondeu Regan. - Imagino que foi isso que os trouxe aqui.
    Cal aquiesceu.
    - Conte-me o que aconteceu - pediu-lhe o xerife.
    -  melhor Esmeralda contar.
    Ela respirou fundo, rezando para que sua voz no falhasse. Sentia a boca subitamente seca. Culpa de Adam. Sempre que o encontrava, sentia a boca seca e no conseguia 
ordenar as idias.
    Esmeralda fez seu relato, enquanto Adam a fitava intensamente e Regam a ouvia com ar impassvel. Quando terminou de falar, o xerife a encarou de modo penetrante.
    - Tem certeza de que no est omitindo nada?
    - No. - Ela balanou a cabea. - Nada.
    - Voc e Adam Winter. De novo. Sempre que h um atentado, ele est por perto. De fato, parece que ultimamente Winter tem freqentado bastante a fazenda. O que 
me diz disso?
    Esmeralda plantou as mos na cintura, pronta a revidar.
    - Pois pode... - Ela mordeu a lngua ante o olhar de advertncia de Cal. - No h nada de mais nisso. Somos vizinhos.  natural que acabemos nos encontrando.
    - Todos os dias?
    Esmeralda suspirou agastada. Por que  que todo mundo tinha de fazer insinuaes sobre Adam e ela?
    - E voc, Winter? Tem algo a acrescentar  histria da moa? - inquiriu Quent.
    Diante da negativa dele, o xerife deu por encerrada a entrevista. Suas perguntas no estavam levando a nada.
    - Muito bem, vou investigar o caso.
    - J identificou algum dos homens mortos no tiroteio em Poison Creek? - quis saber Adam.
    - No, nenhum. Troquei informaes com outros xerifes e chequei todos os cartazes de criminosos procurados pela Justia no ltimo ano. Se eles fossem fora-da-lei, 
seriam bem conhecidos.  como se algum tivesse contratado um bando de desconhecidos para realizar um nico ataque. Mas isso no faz sentido.
    Ao ouvi-lo, Adam ficou pensativo.
    O xerife acompanhou-os at a porta. Quando saram para a rua ensolarada, Quent reparou nas duas damas que aguardavam na elegante carruagem enfeitada.
    - Bom dia, senhoritas - cumprimentou, tocando a aba do chapu.
    Pelo modo como ele se postava na calada de madeira, sem dar mostras de arredar o p dali, Esmeralda logo concluiu que esperava ser apresentado s suas irms. 
Aquela altura, todos na cidade ardiam de curiosidade para saber o que andava acontecendo na fazenda Jewel.
    Pelo canto do olho, viu as mexeriqueiras Lavnia e Gladys se aproximando. Pronto. Era s o que lhe faltava...
    - Bom dia, Esmeralda - disse Gladys com voz aucarada. - Estvamos passando e resolvemos parar para saber como voc est.
    - Estou bem, obrigada.
    As duas mulheres sorriram para o atraente xerife e depois para Adam e Cal. Mas a repararam nas marcas da briga e arregalaram os olhos.
    - Minha nossa! Foi uma luta e tanto, hein? Espero que tenha valido a pena - disse Gladys.
    - E valeu mesmo - murmurou Cal entre os dentes.
    Ao perceber que ele no se dispunha a entrar em detalhes, as duas decidiram mudar o alvo de seu ataque e fitaram Prola e Jade.
    - Creio que ainda no fomos apresentadas, Esmeralda. Poderia fazer as honras? - pediu Gladys.
    - Eu... claro. Gladys Witherspoon, Lavnia Thurlong e xerife Quent Regan, essas so minhas... - Ela vacilou. - Essas so Jade Jewel w Prola Jewel.
    - Jewel. Como  que vocs duas tm o mesmo sobrenome de Esmeralda? - Lavnia praticamente ronronou.
    - Temos o mesmo pai - Prola esclareceu num tom polido. J conhecera muitas bisbilhoteiras como aquelas e fora objeto de sua maledicncia. Ali, porem, longe 
de casa, ela pouco se importava com a opinio daquelas estranhas. S lhe desagradava que Esmeralda ficasse exposta a zombarias em sua prpria cidade.
    O xerife tirou o chapu num gesto corts.
    - Encantado em conhec-las, srta. Prola e srta. Jade.
    - O prazer  meu, xerife Regan. Se no fosse pela sua orientao, eu jamais teria encontrado a fazenda - disse Jade.
    - Foi um prazer poder ajud-la. Sabe, cheguei a recear que se perdesse e me censurei de no a acompanhar. Afinal, no  todo dia que Hanging Tree tem a honra 
de receber damas to distintas.
    Jade e Prola sorriram.
    Quanto Gladys e Lavnia, no desistiram de seus mexericos.
    - Pretendem estabelecer-se em Hanging Tree? - Gladys perguntou s duas.
    - Oh, no seja impertinente - repreendeu-a Lavnia. - Voc sabe que Esmeralda mal conhece as irms...
    Assim que falou, tapou a boca, horrorizada com a prpria indiscrio.
    Gladys fitou Prola e Jade com simpatia e voltou  carga:
    - Oh, mas esperamos que seu pai tenha deixado dinheiro suficiente para viverem folgadamente. Afinal, ele era o homem mais rico do Texas. Seria inadmissvel que 
tivesse lhes deixado apenas seu... sobrenome.
    Adam, que observava Esmeralda, percebeu que ela estava perdendo a pacincia. Se as mexeriqueiras tornassem a abrir a boca, Esmeralda no teria papas na lngua 
para despach-las com uma saraivada de improprios.
    - Se me do licena, preciso voltar  minha fazenda para cuidar das reses. Vai ficar, Esmeralda?
    - No. Tambm tenho muito a fazer - disse ela, agradecida, e virou-se para o capataz. - Vamos, Cal.
    McCabe j ia montar no cavalo, quando uma multido de homens surgiu ao longe, gravitando em torno de uma figura a cavalo.  medida que se aproximavam, eles abriram 
espao para revelar uma mulher deslumbrante, com um vestido de cetim escarlate, sentada de lado na sela. Seu decote era profundo, deixando  mostra o colo alvo. 
A moa usava um chapu igualmente vermelho, adornado de plumas. Tinha cabelos e olhos castanhos, e a boca carnuda era realada pelo batom de cor vibrante.
    Ela entregou as rdeas da montaria a um rapaz e, antes que desmontasse, vrios homens se acotovelaram para ter a honra de ajud-la a apear.
    - Mon Dieu! Foi uma viagem longa e enfadonha. Mas finalmente cheguei - exclamou.
    Caminhou gingando insinuantemente e, vendo o distintivo de Regan, parou diante dele.
    - Xerife, gostaria que me desse uma informao - disse com forte sotaque francs.
    Quent, de queixo cado, levou alguns segundos para se recompor.
    - Pois no?
    - Procuro a fazenda Jewel...
    Esmeralda sentiu aquele peculiar zumbido na cabea e perguntou-se vagamente por que a terra no se abria a seus ps para engoli-la. Seria bem mais fcil que 
enfrentar aquela multido de curiosos. Isso porque, mesmo sem ouvir o resto da frase, Esmeralda tinha impresso de que aquilo j fora dito antes.
    No pescoo da moa, claramente visvel, pendia um cordo com um pingente de duas pedras: um nix e uma gema cor de sangue.
    - Meu nome  Rubi - ela disse com um sorriso caloroso. Estendeu a mo enluvada para o xerife, que a aceitou como se recebesse um tesouro precioso. - Rubi Jewel 
- acrescentou, para delrio da multido. - Parti de Nova Orlenas assim que soube da morte trgica. Joseph Jewel era mom pre. Meu pai.
    A multido mergulhou em comoo total. Os espectadores aglomeraram-se em volta de Esmeralda e Rubi para assistir ao iminente arranca-rabo. Algumas mulheres, 
escandalizadas com as maneiras daquela desconhecida, tentavam em vo arrastar os maridos para casa. Mas a verdade  que ningum queria perder a cena, a comear por 
Lavnia e Gladys.
    - Bem, madame - comeou Quent Regan, aps breve hesitao -, acho que a pessoa mais indicada para tratar disso ...
    - Sou eu - completou Esmeralda, contendo-se ao mximo para no trair seu verdadeiro estado de esprito. - Meu nome  Esmeralda Jewel e estava justamente voltando 
para casa. Importa-se de me acompanhar?
    O sorriso de Rubi ampliou-se, revelando uma covinha.
    - Seria um prazer. Mas no irei importun-la, chrie?
    - De modo algum. - Esmeralda apontou para as duas irms na carruagem. - Gostaria que conhecesse Prola Jewel e Jade Jewel.
    As outras duas acenaram para Rubi.
    - Prola. Jade. Enchante. Isso  mais do que eu esperava.
    Do alto de sua montaria, Adam notava a mudana na atitude de Esmeralda. Pouco dias antes havia ameaado enxotar Prola a tiros. Agora, apresentava a ela e Jade 
diante de toda a cidade. E, pelo visto, parecia disposta a aceitar a recm-chegada.
    Mas ele no deixou de reparar que Esmeralda crispava as mos nas rdeas de sua montaria.
    Entrementes, Rubi subiu em seu cavalo, ajudada por vrias mos obsequiosas, e distribuiu sorrisos e agradecimentos em voz aveludada.
    Depois, com Esmeralda seguindo na dianteira, ladeada por Cal e Adam, a pequena comitiva afastou-se pela rua, deixando atrs de si a multido atnita.
    
    
    Captulo 14
    
    - Imagino que gostaria de visitar o tmulo de papai - Esmeralda disse a Rubi.
    Viu Adam e Cal olharem-na sem esconder a perplexidade. Mas manteve os olhos na estrada. No momento, sentia-se esgotada demais para discutir. Perguntava-se quantas 
surpresas mais lhe seriam reservadas. O melhor era acabar com aquilo quanto antes e despachar logo as outras filhas de seu pai.
    -Oui. Foi por isso que suportei uma viagem to longa. - Rubi tocou seu pingente. - Tenho sentido o corao to pesado desde que soube da morte de papai!
    - Suponho que o pingente tenha sido presente dele.
    - Oui. Ganhei-o quando completei quinze anos. Papai me disse que era para eu no esquecer que ele sempre estaria a meu lado.
    - Ele... - Esmeralda sentiu um n na garganta. - Ele deu a cada uma de ns um pingente parecido com esse.
    Rubi olhou para a carruagem que seguia mais atrs.
    - Eu no sabia nada sobre Prola e Jade. E s soube de voc pelos jornais.
    Mais uma vez, Esmeralda sentiu uma pontada de mgoa por todos os segredos que o pai havia lhe ocultado.
    - E como reagiu ao ler nos jornais que ele tinha outra filha?
    A voz de Rubi tremeu de emoo quando ela respondeu:
    - Ah, eu pensei que voc era realmente uma moa de sorte, porque tinha papai por perto o tempo todo, enquanto eu s o via durante visitas espordicas. Mas, de 
qualquer forma, o tempo que passamos juntos foi precioso.
    Oh, como ela deve me odiar! Pensou Esmeralda, cheia de amargura. Como todas elas devem me odiar! De repente descobria que vivera uma iluso. A falsa sensao 
de segurana que sempre tivera ao lado do pai cara por terra.
    E ento, viu algo que a chocou mais ainda: do bolso do vestido de Rubi, apontava um pequeno objeto metlico. Olhando-o com mais ateno, Esmeralda percebeu que 
se tratava de uma delicada pistola. Exatamente como a que havia matado seu pai.
    Era bem estranho, ponderou, que aquelas trs mulheres carregassem o mesmo tipo de arma. Talvez no fosse estranho que ela devesse recear. Talvez o perigo a rondasse 
dentro de seu prprio crculo familiar...
    Suas reflexes foram interrompidas quando novamente, como uma recapitulao do que j vinha acontecendo h dias, chegaram ao topo da colina que abrigava a sepultura 
de Joseph Jewel. Todos apearam. As quatro mulheres detiveram-se defronte da sepultura, enquanto Adam e Cal mantinham-se a certa distncia.
    Rubi examinou o montculo de terra coberto de pedras.
    Esmeralda suspirou e preparou-se para entoar a ladainha de sempre.
    - Sei que este tmulo pode lhe parecer primitivo - desculpou-se. - Mas...
    - Oh, no, pelo contrrio - interrompeu-a Rubi. Falava em voz baixa, como se estivesse em um santurio. - Como papai era muito rico, eu temi que fossem lhe erigir 
uma cripta cheia de ornamentos. Isso seria to impessoal, ao passo que aqui... - Ela apontou para o diploma de Prola e o pote de Jade, e depois para a paisagem 
ao redor. - Aqui papai est perto de tudo o que mais amava.
    Com os olhos marejados, ajoelhou-se e deixou as lgrimas correrem livremente por seu rosto. Enquanto chorava, parecia mais jovem e vulnervel, menos autoconfiante 
e sofisticada.
    Rubi chorou at no ter mais lgrimas para derramar. Ai, tirou do bolso uma medalha de ouro com figuras de santos. Beijou-a e fincou-a na terra.
    - Voc no compartilha a nossa f, papai, mas pedirei a esses santos que o guiem em sua jornada para o outro mundo, onde sei que encontrar muita paz e seus 
entes queridos.
    Suas palavras provocaram um calafrio em Esmeralda. E, pela primeira vez ela olhou, para aquela jovem mulher. No viu o vestido sedutor nem as caras plumas de 
seu chapu. Nem o ruge que lhe recobria as faces pesadamente. O que Esmeralda viu foram seus olhos lavados de pranto e seus lbios que murmuravam uma orao. E seus 
ombros encurvados pelo sofrimento.
    Ela havia se preparado para no gostar de Rubi. Na verdade, quisera desesperadamente no gostar dela, da mesma forma como tentara rejeitar Prola e Jade. Mas, 
a cada vez que uma das irms revelara a profundidade se sua dor, o corao de Esmeralda fraquejava. No era ressentimento que nutria por aquelas trs mulheres: identificava-se 
com elas naquela situao de perda e tristeza.
    Mas, lembrou a si mesma, isso no significava que tivesse qualquer lao afetivo em relao a elas. A nica coisa que as unia era o sobrenome.
    - Esmeralda, j e hora de voltarmos - chamo-a Cal.
    Ela meneou a cabea em assentimento. Com relutncia, as outras trs irms a acompanharam.
    Ao montar no cavalo, Esmeralda viu que Rubi lanava um ltimo olhar ao tmulo. Num impulso, perguntou:
    - J tem lugar para pernoitar?
    - Eu... no tive tempo de pensar nisso. A nica coisa que me importava era encontrar a sepultura de papai.
    - A casa da fazenda  grande. Se quiser, pode ficar conosco.
    A outra sorriu, com os lbios ainda trmulos.
    - Merci. Eu gostaria de ver a casa de papai. Ele falou dela muitas vezes.
    Percorreram um trecho do caminho em silncio. Quando atingiram a fronteira entre a fazenda Jewel e a propriedade de Adam, ele se preparou para deix-los.
    - Adam... Ser que pode vir conosco? - pediu Esmeralda.
    Ele estreitou os olhos.
    - Por qu? Cal est aqui.
    - Eu... - Esmeralda olhou de soslaio para o capataz que falava com Prola e Jade. - Eu queria falar com voc. A ss.
    - Est bem - concordou Adam, encolhendo os ombros pressentiu que Esmeralda estava bastante tensa. Perguntou-se o que ela poderia querer conversar e preparou-se 
para mais um de seus famosos duelos verbais.
    Ao chegarem, foram recebidos por Carmelita e Cookie na varanda. Os dois sorriram e imediatamente ficaram srios quando detectaram a presena da desconhecida 
em meio ao grupo.
    - Tenho que ir ver os pees - Cal disse a Esmeralda, sem desviar o olhar de Adam. - Prometa-me que no vai se afastar daqui.
    - Sim, claro.
    Ela ento virou-se para governanta e o cozinheiro. Queria fazer as apresentaes e livrar-se logo daquela incmoda situao.
    - Carmelita, Cookie, quero que conheam Rubi Jewel. Ela veio de Nova Orleans quando soube da morte de papai. Rubi, Carmelita  nossa governanta e Cookie cuida 
da alimentao dos pees.
    - Srta. Rubi,  um prazer conhec-la Estou certo de que Nova Orlenas deve ter muitas moas encantadoras, mas nenhuma to bonita quanto voc - Cookie disse galantemente.
    Ela sorriu, percebendo que o cozinheiro tentava deix-la  vontade.
    - Logo farei o almoo, seorita Rubi. Vamos entrando - convidou Carmelita.
    - Merci. Se fosse possvel, eu gostaria de lavar o rosto para me refrescar um pouco.
    - Rubi passar a noite aqui, Carmelita. Por favor, prepare um quarto para ela - pediu-lhe Esmeralda. Depois virou-se para Prola e Jade: - Ser que poderiam 
mostrar a casa a Rubi? Adam e eu cuidaremos dos cavalos.
    Assim, ele ajudou suas irms a apearem e os dois dirigiram-se para a estrebaria. Esmeralda comeou a desencilhar os cavalos. Absorta em pensamentos, movia as 
mos com segurana e eficincia. Adam respeitou seu silncio e nada disse.
    Quando concluram a tarefa, ela cruzou os braos e se ps a andar de um lado para outro. Adam, recostado  parede, aguardou. Mais cedo ou mais tarde, Esmeralda 
tocaria no assunto que a estava inquietando.
    - Quando  que esse pesadelo vai acabar? Quantas surpresas mais meu pai preparou para mim? Estou comeando a detestar as idas  cidade! - ela desabafou abruptamente.
    - No deve se importar com os mexericos.
    Esmeralda se deteve para fit-lo.
    - Acha que eu me preocupo com esses idiotas? - Balano a cabea e continuou a andar. - Eles podem rir de mim. Que riam at estourar! Eu no me importo. O que 
me incomoda  a reputao de papai. No me agrada a idias de que todo o Texas esteja torcendo a cara  meno de seu nome. Cada vez que um forasteiro chega  cidade, 
eu tremo nas bases s de pensar que papai aprontou mais alguma. Isso pode durar meses. Anos. E no h nada que eu possa fazer. Nada!
    Esmeralda voltou-se para ele, os olhos cintilando de fria.
    - Mas existe uma coisa que eu posso fazer, e diz respeito a voc, Adam.
    - Eu imaginei que mais cedo ou mais tarde acabaria me explicando por que queria falar comigo.
    - Jade me disse que voc e Cal brigaram por minha causa - Esmeralda esclareceu sem rodeios.
    Viu a surpresa estampada no rosto de Adam. A seguir os olhos cinza endureceram e a boca bem-feita curvou-se em um sorriso.
    - Ah, ? E o que mais Jade disse?
    - Que suas inteno para comigo no so nada paternais.
    O sorriso dele se apagou. Esmeralda teve impresso de que a olhava com um predador que ronda sua presa.
    - Que droga, Adam! Pare de me olhar desse jeito. Diga alguma coisa.
    Sem pensar, ela segurou-lhe o brao.
    - Jade est perto? Foi por minha causa que vocs brigaram?
    Adam recorreu a todo o seu autocontrole para ignorar o toque de Esmeralda.
    - Foi por isso que me trouxe aqui? Para satisfazer sua vaidade feminina?
    -  isso que est pensando? Acha que quero satisfazer minha vaidade? - ela perguntou, tremendo de clera.
    - E no quer?
    - V para o inferno!
    Esmeralda ia dar-lhe as costas, mas ele segurou-a pelo ombro e obrigou-a a encar-lo.
    - Ser que poderia ser mais especfica? O que exatamente Jade falou sobre a briga?
    - Bem, ela s disse que... - Tomada de surpresa e vagamente assustada, esmeralda passou a lngua nos lbios. - Que voc queria demarcar seu... territrio.
    Os olhos dele obscureceram-se e depois se reavivaram com um brilho enigmtico. A mo forte aumentou imperceptivelmente a presso no ombro de Esmeralda quando 
Adam atraiu-se para si e sussurrou:
    - Jade tem razo.
    O corao de Esmeralda disparou. Decididamente no havia previsto o rumo que os acontecimento tomariam. Antecipara uma negativa ultrajada. Ou uma explicao 
eloqente. Agora, porm, sentia-se muito confusa. E estranhamente envaidecida.
    Com os lbios quase cobrindo os seus, Adam imobilizou-se um instante, como se pesasse as conseqncias de que estava preste a fazer.
    Naquele momento, ela experimentou uma necessidade imperiosa de colar seus lbios aos de Adam. Queria que ele a beijasse. Mais do que tudo. Sem se dar conta, 
ficou na ponta dos ps, clamando silenciosamente pela satisfao daquele seu desejo.
    Adam suspirou. E desistiu de lutar. No momento seguinte, apossou-se da boca de Esmeralda com uma nsia febril. Ela sentiu as coxas grossas que pressionavam as 
suas, a sbita evidncia do desejo masculino, a fora dos braos que a cingiam. Adam poderia subjug-la sem esforo. No entanto, Esmeralda percebia que ele se controlava, 
como se tivesse plena conscincia da prpria fora. E isso era profundamente... ertico.
    Com ardor, quase violncia, Adam intensificou o beijo. Apanhado em uma vertigem de desejo, perdeu os ltimos vestgios de razo. Seus beijos tornaram-se mais 
exigentes, mais possessivos. Os dois foram se precipitando para algo que nenhum dos dois era capaz de controlar.
    -Esmeralda... oh, meu Deus... - Adam sussurrou de encontro a sua boca, e correu as mos por suas costas, provocando-lhe um longo arrepio. - Tentei negar isso, 
dizer a mim mesmo que era errado. - Estreitou-a contra si, e Esmeralda sentiu as furiosas batidas do corao dele, que se equiparavam s do seu prprio corao.
    Adam mordiscou-lhe os lbios at que se entreabrissem. E ento explorou sua boca, atiando-a, e sem perceber Esmeralda viu-se imitando os movimentos dele, cada 
vez mais vida.
    Os beijos de Adam eram alternadamente selvagens e ternos. Sua boca era rude, depois macia, assim como suas mos, que em um momento a apertavam instintivamente 
e em outro a afagavam com infinita delicadeza.
    Esmeralda entregou-se quelas sensaes compartilhadas e deixou-se levar pelo mpeto dele. Enquanto se beijavam e abraavam sofregamente, ajoelharam-se sobre 
o feno com os corpos colados. Esmeralda deixou a cabea pender para trs, ofereceu o pescoo alvo s carcias de Adam. E ele deixou a lngua quente deslizar para 
o colo macio, ali se deteve, arrancando gemidos abafados de Esmeralda, fazendo-a arquejar. Enredou os dedos nos cabelos ruivos, puxou-os de leve, fechou a mo entre 
as mechas macias, e com os lbios continuou espalhando beijos midos sobre sua pele abrasada.
    - Eu nunca imaginei... nunca sonhei... - ela sussurrou com voz entrecortada.
    - No...
    - Desde a primeira vez em que vi voc.
    Esmeralda estremeceu ao sentir os dedos dele nos botes de sua camisa, abrindo-os um a um. Impaciente, Adam curvou-se para beijar-lhe os mamilos tmidos, sem 
fazer caso do tecido fino da combinao rendada.
    Trouxe-a para mais perto, deitou-a no feno macio e estirou-a seu lado.
    - Voc no imagina como esperei por este momento, Esmeralda.
    As mos msculas seguiram a trilha de seus lbios, e ele desatou-lhe os laos da combinao eliminando a ltima barreira que se interpunha entre seus corpos 
ardentes.
    Todos os pensamentos foram varridos da mente de Esmeralda. Toda a razo a abandonou, restando apenas o turbilho imperioso das sensaes...
    E, de repente, ela teve medo de perder totalmente o controle e sucumbir. Teve vergonha de sua fraqueza. Afastou Adam com um gesto suplicante, baixou o rosto.
    - Estou com medo, Adam - disse num tom quase inaudvel.
    Ele a fitou.
    - Medo? De mim?
    - No. De mim mesma. Disto... - Esmeralda fez uma pausa, sem saber como se expressar. - Tudo aconteceu rpido demais... No sei mais o que  certo ou errado. 
Eu queria... eu queria... Oh, Adam, me ajude!
    Adam percebeu que Esmeralda tremia. Aninhou-a nos braos e acariciou-lhe os cabelos, enquanto abafava o prprio desejo que clamava por ser satisfeito.
    - Venha, Esmeralda.
    Ele a ajudou a se levantar, amarrou as fitas da combinao e abotoou-lhe a camisa.
    -  melhor voc ir ver Rubi - disse. Quando se afastou dela, experimentou uma aguda sensao de dor e perda.
    Ao perceber que ele se preparava para partir, Esmeralda chamou-o.
    - Quando vou v-lo de novo?
    Adam apanhou as rdeas e montou em seu cavalo.
    - No se preocupe. Eu estarei por perto.
    Assim, ele se foi. Sem olhar para trs, para resistir ao mpeto de voltar sobre seus passos e tom-la nos braos.
    
    
    Captulo 15
    
    - Sua casa  maravilhosa, chrie, - disse Rubi, afundando-se em uma poltrona perto do fogo.
    Esmeralda assentiu, esforando-se para tirar Adam do pensamento. Durante toda a tarde permanecera retrada, enquanto os outros riam e falavam. Absorta, captara 
apenas fragmentos de conversas. Fora o bastante, porm, para que tivesse uma idia de como era a vida de Rubi.
    A irm de Nova Orleans mostrava-se to intrigante quanto as outras. Sua me fora uma descendente dos colonizadores franceses, mulher arrebatada e cheia de vivacidade, 
que no fazia caso de praticar certas... indiscries, como furtar, mentir ou trapacear para sobreviver. Ento ela conhecera o carismtico Joseph Jewel. E sua vida 
mudara para sempre. Ele lhe comprara uma casa luxuosa e cuidara para que Rubi e a me tivessem todo conforto.
    Esmeralda intua que Rubi guardava ainda muitos traos da falecida me. Era uma moa forte e capaz, que faria o que fosse preciso para sobreviver.
    - Papai e eu no nos preocupvamos muito com a casa. Ficvamos muito envolvidos com a administrao da fazenda - disse Esmeralda num dado momento.
    - Voc se refere  fazenda como se falasse de um amante - comentou Rubi, com os olhos perdidos nos picos distantes das montanhas, sobre os quais j cara o manto 
do crepsculo.
    Esmeralda tentou ignorar o arrepio que lhe percorreu o corpo.
    - Conte-me de sua vida com papai - desconversou.
    - Ele era encantador. Todos os outros homens pareciam meras sombras ao lado dele - derreteu-se Rubi.
    -  verdade - concordou Prola, com sbita animao. - Nenhum homem chegava aos ps de papai quando se tratava de cativar as pessoas. Lembro-me de uma vez em 
que me levou ao circo.
    Ela narrou animadamente os detalhes de sua aventura com o pai. Mal terminou de falar, e Jade j se saiu com a histria de um dia passado em San Francisco com 
o pai. Depois, foi a vez de Rubi fazer outro relato.
    Esmeralda ouviu-as em silncio, enquanto aprendia a conhecer o pai atravs do olhar daquelas trs mulheres. Exatamente como Adam dissera, as irms mostravam-lhe 
aspectos que ela ignorava at ento.  medida que a noite corria, viu Joseph Jewel de perspectivas diferentes, inesperadas, que iam alm da figura do fazendeiro 
texano. Ele havia sido um aventureiro, homem de muitas faces. E de muitas paixes.
    Quando o fogo esmoreceu na lareira e todas se prepararam para dormir, Esmeralda deu-se conta de que aqueles relatos tinham, de certa forma, amenizado seu sofrimento 
e lhe proporcionado algum alvio. Mas isso dizia respeito a seu pai.
    O que ela faria quanto a Adam?
    
    Cal estava preocupado com Esmeralda. No bastasse a perda do pai, havia ainda a apario daquelas irms surgidas do nada e os ataques do pistoleiro que continuava 
 solta. E os nervos de Esmeralda comeavam a ficar abalados. Ela estava com o pavio curto. Mais curto que de costume.
    Nos ltimos dias, do raiar do dia at o anoitecer, ela forara-se at o limite. Preenchera as horas com interminveis passeios pela propriedade, arrastando Prola, 
Jade e Rubi sem nem perceber o desconforto que lhes impunha com semelhantes jornadas. Foram ver os rebanhos que pastavam em pontos distantes, percorreram vales e 
colinas, visitaram um posto de controle e at almoaram certa vez com os vaqueiros.
    Em algumas ocasies, Esmeralda avistara Adam ao longe. E, a cada vez, sentira um aperto na garganta e estranhas palpitaes. Mas ele invariavelmente desviava 
seu caminho e tomava a direo oposta. Na primeira vez que isso ocorrera, Esmeralda pensara tratar-se de uma simples coincidncia. Na segunda e na terceira vez, 
porm, teve certeza de que era deliberado.
    Se ver Adam de longe era doloroso, sentir que ele a rejeitava constitua uma verdadeira tortura. Parecia lhe que estava sempre  beira de um sobressalto, de 
uma punhalada no corao. J no estava mais suportando a situao. Quando repelira Adam, tivera plena conscincia de que corria o risco de v-lo afastar-se. Mas, 
em algum recesso profundo de seu corao. Acalentara a esperana de que ele fosse dar-lhe tempo. Dar tempo ao tempo.
    Em vez disso, Adam simplesmente desistira dela.
    Para tir-lo da cabea, Esmeralda decidira ocupar-se ao mximo. No pensar. Assim, lanara-se s tarefas cotidianas da fazenda quase com furor, quase com um 
sentimento de vingana contra o mundo.
    Os dias era tolerveis, pois distraa-se com a atividade frentica e companhia do grupo que a rodeava. As noites, ao contrrio, em vez de lhe trazerem a paz 
do sono, povoavam sua mente com imagens de Adam. E ela ficava deitada no escuro do quarto, ruminando at achar que iria enlouquecer com a urgncia de sentir o toque 
dele.
    Mas precisava continuar naquele ritmo alucinado. Tinha medo do que poderia acontecer se parasse...
    - Outra excurso pela fazenda, Esmeralda? - Cal perguntou-lhe numa daquelas manhs. Franzindo o cenho, tomou o ltimo gole de caf e apanhou o chapu. - Acho 
que j no h coisas para ver.
    - Ah, no. H muitas partes que ainda no visitamos - Esmeralda protestou.
    - Mas levaria meses para visitar tudo. E, mesmo assim, as moas ainda perderiam muita coisa.
    - A  que est. Por mais que eu lhes mostre a fazenda, sempre h mais para ver.
    A voz suave de Jade interrompeu-os:
    - Eu no fazia idia que a propriedade de papai fosse to vasta e complexa.  simplesmente impossvel imaginar algo to grande. Eu s fui compreender e extenso 
da fazenda depois que a vi.
    As outras duas concordaram com um meneio de cabea.
    - Quando eu estava em Boston e papai me falava do Texas, eu nem sonhava com isto - disse Prola.
    - Nem eu, chrie - emendou Rubi com uma risada. - A Louisiana inteira provavelmente seria engolida por essas terras texanas.
    - Ento... vocs no esto cansadas de percorrer a fazenda? - quis saber Esmeralda, olhando de uma para outra.
    - Por mim, em nunca me cansaria de admirar uma paisagem to bel - opinou Prola.
    Com um suspiro de resignao, Cal dirigiu-se  porta.
    - Vou verificar quantos pees poderei liberar para escolt-las.
    Esmeralda seguiu-o at a porta e baixou a voz, de modo que as irms no a ouvissem.
    - Cal, j se passaram vrios dias e o pistoleiro no voltou a atacar. Talvez ele tenha desistido...
    - E talvez no tenha - replicou o capataz, categrico.
    - Mas eu me sinto culpada por voc desperdiar sua mo-de-obra por motivo to ftil. Sei que precisa dos rapazes. Por que no deixa apenas dois deles conosco.
    Cal muniu-se de pacincia e explicou:
    - Porque prefiro que muitos homens acompanhem vocs. Eu me pergunto se no houve outro atentado justamente porque esto cercadas de muito pees. O pistoleiro 
poderia atacar mulheres, mas seria arriscado demais enfrentar um grupo numeroso de homens. Portanto, no se preocupe. Quando quiser passear pela fazenda, eu liberarei 
quantos pees forem necessrios.
    Esmeralda sorriu e tocou-lhe o brao. Embora Cal fosse muitos anos mais novo, s vezes falava como seu pai.
    - Obrigada. No vou me esquecer disso.
    Surpreso com o gesto dela e mais que satisfeito com sua inesperada brandura, Cal ponderou que talvez a companhia feminina estivesse lhe fazendo bem. Se assim 
fosse, esperava que as trs irms prolongassem sua estada ali.
    Enterrou o chapu na cabea e encaminhou-se para o alojamento dos pees. Adam Winter nunca mais poderia acus-lo de descuidar da segurana de Esmeralda.
    
    A visita noturna dos predadores e de outros animais deixara resto de ossos, sangue e uma confuso de pegadas de lobos, coiotes, raposas e at de abutres.
    Adam ajoelhou-se, estudando o que restara da carcaa do touro. Fizera um bom investimento nele e, se estivesse vivo, poderia ter lhe dado um retorno compensador.
    Era estranho que lobos atacassem um animal to feroz. Era bem verdade que o tempo havia esfriado e havia agora neve nas colinas. Mesmo assim, as alcatias geralmente 
procuravam presas mais vulnerveis.
    Com um suspiro de desgosto, Adam comeou a se levantar. Foi a que vislumbrou um brilho metlico perto de um arbusto. Afastando os galhos, curvou-se e apanhou 
um cartucho de munio usado. Examinou-o por um longo minuto e guardou-o no bolso.
    Restava descobrir quem disparara aquele tiro. E por qu.
    
    Durante o dia, Esmeralda levara as irms deliberadamente para perto da fronteira com as terras de Adam, na esperana de v-lo, mesmo que a distancia. A pequena 
cabana, porm, no indicava nenhum sinal de vida. Desanimada, concluiu que ele a Zeb provavelmente tinham levado o rebanho para pastar s margens de Poison Creek.
    - Voc est quieta demais - observou Prola enquanto jantavam.
    - Tenho certeza de que foi por causa da visita que fizemos ao tmulo de papai. A morte dele nos afetou de uma maneira estranha - disse Prola, com sua voz suave.
    - Pois eu me sinto... arrasada - confessou Rubi.
    - Estou tranqila - contraps Prola. - Papai descansa em paz. E, mesmo tendo morrido, ele conseguiu nos reunir.
    Prola cobriu a mo de Esmeralda com a sua.
    - Deve ser especialmente difcil para voc, que vive na casa que compartilhou com papai.
    Esmeralda assentiu mudamente, com receio de que sua voz a trasse. Mas censurou-se pela prpria covardia. Deixava as irms pensarem que a nica causa de seu 
desconforto era a saudade do pai, quando na verdade tambm se angustiava com... Adam. Sentia falta dele , no conseguia afast-lo do pensamento. Aquele sentimento 
seria... amor?
    Oh, no... Tudo menos amor...
    - Coma, que vai lhe fazer bem - disse Carmelita enquanto lhe servia tortilhas recheadas de carne. -  uma pena que o seor Winter no esteja aqui. Gosto de cozinhar 
para ele.
    Esmeralda ruborizou-se na mesma hora. A governanta nada notou, mas as trs irms, sim.
    - Poderamos convid-lo para jantar - props Prola, estudando a reao de Esmeralda.
    Ao notar embarao dela, Jade pensou que, com efeito, no se enganara: Esmeralda no era to imune a Adam Winter quanto fazia crer.
    - Eu apio. Adam  uma companhia muito agradvel. No acha, Esmeralda? - perguntou.
    - Eu nunca reparei nisso.
    Assim dizendo, ela empurrou o prato. Tinha perdido a fome.
    A estava mais uma razo para detestar Adam Winter, pensou exasperada. Ele estava estragando seu apetite!
    Mas, no fundo, sabia que a coisa no era to simples. Por mais que tentasse, no encontrava em seu corao nenhum motivo para detest-lo. S queria t-lo perto 
de si. Aquela reao no passava de uma estpida fraqueza feminina. Se isso era amor, preferia manter distancia. Nunca se sentira to miservel na vida.
    
    - Oh, Esmeralda, voc me assustou. Pensei que todos estavam dormindo.
    Prola, vestindo um roupo ornado de laarotes, parou ao p da escada ao avist-la.
    Diante da lareira, Esmeralda enrolara-se numa manta e estava aboletada na poltrona predileta do pai.
    A irm aproximou-se, erguendo a lamparina para enxerg-la melhor.
    - Est sem sono?
    - Estou.
    - Eu tambm. Importa-se se eu ficar aqui com voc? Esmeralda encolheu os ombros.
    - Acho que no sou boa companhia esta noite. - Ela levantou o rosto para a outra. - Por que desceu?
    - Pensei em tomar um pouco de leite morno. Minha me sempre me dava leite morno quando eu no conseguia dormir. Quer um copo tambm?
    - Pode ser - disse Esmeralda sem entusiasmo.
    Prola retirou-se e, momentos depois, voltou trazendo dois copos de leite. No primeiro gole, Esmeralda teve vontade de deixar o copo de lado. Mas, para no desapontar 
a irm, tomou tudo de uma vez e ficou aliviada quando terminou.
    - Obrigado, Prola. Estava muito... bom.
    As duas viraram-se ao ouvir passos na escada. Jade usando um robe de seda, hesitou ao v-las. Uniu as mos e disse num sussurro:
    - Desculpe-me. No queria importun-las.
    - Fique conosco. Esmeralda e eu estamos sem sono.
    - Eu tambm. - Jade sorriu. - Estava indo preparar uma xcara de ch. Querem um pouco?
    As outras duas assentiram e ela foi para a cozinha. Voltou pouco depois com uma bandeja e trs xcaras fumegantes.
    As trs ento beberam em silncio.
    - No  calmante? - perguntou Jade.
    - Hum... sim - respondeu Prola.
    J Esmeralda no disse nada. Mas tratou de esvaziar a xcara para no magoar a irm.
    Decorridos alguns minutos, quem desceu foi Rubi, com sua camisola de veludo vermelho e chinelo ornado de plumas combinando.
    - O que  isto? Uma festa?
    - No estvamos conseguindo dormir - explicou Prola.
    - Ah, nem eu - disse ela, e aproximou-se.
    Prola apontou para xcara e os copos vazios.
    - J tentamos leite morno e ch quente. Tem alguma outra sugesto?
    - Oui. Mame sempre dizia que um clice de cherry era um santo remdio para a insnia.
    Ela olhou em torno de si. Ao avistar uma fileira de garrafas e copos numa cristaleira, apanhou quatro clices e verteu-lhes o lquido vermelho-sangue. Distribuiu-os 
ento alegremente.
    - Meu Deus! - exclamou Prola, sentindo uma deliciosa ponta de culpa. - As nicas ocasies em que mame e eu bebamos lcool era quando papai vinha  cidade.
    - No Drago Dourado, as moas no podiam beber. Minha me dizia que o lcool enfraquecia a resistncia da mulher e fortalecia a determinao do homem - contou 
Jade.
    - Pois no seria preciso muita bebida para enfraquecer minha resistncia - disse Rubi com uma risada. Sentou-se no sof, entre Prola e Jade. A olhou para Esmeralda. 
- voc parece triste, chrie.
    Esmeralda balanou a cabea de forma vaga e experimentou o cherry. Era to suave como leite morno e mais reconfortante que ch quente. E, definitivamente, acalmava 
os nervos.
    Pouco habituada a beber, ela esvaziou o clice de uma s vez.
    - Voc deve beber pequenos goles - aconselhou Rubi.
    Esmeralda assentiu. Serviu-se de mais um clice e, dessa vez, esvaziou o clice e, dessa vez, esvaziou o clice pela metade. Suspirou, mais relaxada. Sem que 
percebesse, as palavras simplesmente escaparam de seus lbios;
    - Alguma de vocs j foi beijada por um homem?
    As outras trs trocaram olhares e a seguir viraram-se para ela.
    - Beijar um homem?  isso que a est inquietando, chrie? - indagou Rubi
    - Claro que no - Esmeralda apressou-se em replicar. - Eu s pensei...
    - Eu fui beijada uma vez. Ele era um dos meninos mais bonitos de Boston - disse Prola.
    - Meninos? Quantos anos voc tenha? - quis sabe Rubi.
    - Doze.
    - Isso no conta, chrie. - Rubi tornou a encher o clice de Esmeralda. - A questo aqui  beijar um homem, no um menino.
    - Imagino que voc tenha experincia no assunto - comentou Prola com um leve tom de desaprovao.
    - Na verdade, no. Aprendi a furtar, a trapacear e a atrair os homens. Mas minha me me advertiu de que, se fosse provocar os sentimentos de um homem, poderia 
me dar mal.
    - ... assim que me sinto - admitiu Esmeralda. Levantou-se e comeou a andar para c e para l. - E no sei o que fazer. 
    - Talvez, se voc se explicasse melhor, ns pudssemos ajud-la - encorajou-a Prola.
    - Bem... eu nunca precisei de nenhum homem. E, se fosse escolher um, iria querer um homem que tivesse suas razes no Texas. Mas ele ... arrogante, autoritrio 
e... cheio de segredos. Ora... tudo o que sei a seu respeito  que foi proprietrio de uma fazenda em Maryland.
    - Maryland? Oh, Adam Winter - disse Prola. Esmeralda mal a ouviu. Cruzou os braos e continuou:
    - Uma hora, ele est no estbulo, querendo... - Interrompeu-se bem a tempo de flagrar o olhar das trs irms que a fitavam intensamente. Prola parecia chocada. 
Jade mostrava-se plcida, como se sempre tivesse sabido de tudo. E Rubi sorria de orelha a orelha, ardendo de curiosidade. - Depois, passo dias sem v-lo. E sei 
muito bem - a voz dela tornou-se um sussurro - que ele est me evitando.
    As trs irms a rodearam, penalizadas.
    - Voc ama Adam Winter? - perguntou Jade.
    -  evidente que no! - Esmeralda negou com indignao.
    - Se acha que est perdendo o sono por causa de um homem que voc detesta, engana-se muito - declarou Rubi.
    Esmeralda fez um gesto de negativa.
    - Papai me criou exaltando os ideais mais elevados. E Adam  um homem sem eira nem beira, um...
    - Perfeito cavalheiro - interrompeu Prola de maneira enftica.
    - Pois ele no beij... ele no tem nada de cavalheiro.
    - Vamos deixar isso de lado por enquanto - disse Jade. - Responda: voc gostaria de v-lo de novo?
    Dando de ombros, Esmeralda afetou indiferena.
    - Bem... acho que sim. Mas s para mostrar que, da minha parte, no h nenhum ressentimento quanto ao... ao que aconteceu no estbulo.
    - Mas afinal, o que aconteceu no estbulo? - indagou Rubi.
    - Ele... ns... nos beijamos. E ento eu... pedi-lhe que parasse.
    Prola suspirou aliviada.
    - Que bom!
    - Mas no sei se eu realmente queria que ele parasse - confessou Esmeralda.
    - Isso j no  to bom - ponderou Jade.
    - Ah, que romntico! - exclamou Rubi.
    Todas se quedaram em silncio. At que Jade disse com firmeza:
    - Comida, bebida e uma mulher encantadora fazem uma combinao irresistvel para um homem. Vamos convid-lo para jantar.
    Entretanto, Esmeralda j ia se dirigindo para a escada, mais derrotada do que nunca.
    - Isso no dar certa. Ele no vir. De qualquer forma, foi bom desabafar com vocs. Boa noite.
    As outras trs viram-na subir as escadas lentamente. Quando escutaram a porta de seu quarto fechar, fizeram um crculo e, cochichando, comearam a armar um plano.
    
    
    Captulo 16
    
    - O senr Winter aceitou seu convite para jantar - anunciou Carmelita assim que Esmeralda entrou na cozinha.
    O sol j se levantara havia horas, e s agora ela estava conseguindo levantar. Nos ltimos anos, no se lembrava de ter ficado at to tarde na cama.
    Segurou-se na borda da mesa. Era um sonho ou ouvira mesmo aquilo? Seu esprito estava confuso, povoado de perguntas. S podia ser efeito do vinho.
    - Meu convite? No entendo... quando foi que o convidei?
    - As trs adorveis seoritas pediram que Cal fosse at a propriedade do seor Winter esta manh, para fazer-lhe o convite. O seor Winter enviou sua resposta.
    - Onde esto - o tom dela tornou-se duro - essas trs adorveis senritas? - Esmeralda mal podia esperar para tirar satisfao com as irms.
    - Foram at a cidade com Cal e vrios pees. Devem estar de volta a qualquer minuto. - Carmelita viu-a dirigir-se para a porta e perguntou: - Aonde vai, senrita?
    - Ao estbulo. Preciso trabalhar um pouco para acalmar meus nervos... antes que faa algo de que poderei me arrepender mais tarde.
    Algo como despachar trs alcoviteiras, pensou com mal-estar. Como  que elas tinham coragem de fazer isso sem consult-la? Esmeralda franziu o cenho. Ou ser 
que a tinham consultado e ela  que no se lembrava? No estava muito certa do que dissera ou fizera na noite da vspera. Por Deus, como pudera revelar segredos 
to ntimos? E, no entanto, aps alguns clices de cherry, parecera-lhe a coisa mais natural do mundo...
    Horrorizada, levou a mo ao pescoo. O que estava acontecendo com ela afinal? Dentro em breve, comearia a pensar que todas poderiam viver como uma alegre famlia 
e que falaria com as irms to abertamente quanto costumava falar com o pai.
    
    - Ah, a est voc, Esmeralda. Venha ver o que lhe trouxemos - disse Prola, parando  porta do curral.
    - Uma corda para eu me enforcar? - perguntou ela com azedume. O trabalho duro no havia atenuado nem um pouco seu mau humor.
    - No seja boba. Vamos para casa. As outras esto esperando para lhe mostrar o que compramos na cidade. 
    - No estou interessada.
    - Carmelita preparou seu prato favorito. Tortilhas e carne.
    Esmeralda ficou com gua na boca. O trabalho duro abrira-lhe o apetite. Alm disso, embora detestasse ter de admitir, estava curiosa para saber por que as irms 
haviam ido  cidade. Assim, acompanhou Prola. Parou  porta da cozinha para limpar os ps e viu as outras rodeando a mesa, onde estavam dispostos vrios apetrechos 
femininos.
    - Veja o que compramos para voc - disse Prola, apontando para o vestido de cetim branco que Jade segurava.
    - Foi o vestido mais bonito que encontramos na cidade - explicou Jade. - No sabemos se vai servir perfeitamente, mas temos tempo para pedir que uma costureira 
faa ajustes. E compramos tambm roupas ntimas combinando.
    Prola mostrou-lhe ento uma chemise com detalhes de fita prateada e uma delicada angua.
    - Espera que eu use... isso? - gaguejou Esmeralda, arregalando os olhos.
    -  claro, chrie - disse Rubi. Olhou-a de alto a baixo. - Antes, porm, precisa se banhar.
    - A gua do riacho est muito fria. H provavelmente uma camada de gelo... - Esmeralda comeou a protestar.
    Rubi silenciou-a com um gesto.
    - Voc tomar banho aqui, na cozinha. Tambm vamos lavar e perfumar seus cabelos.
    - Perfumar meus cabelos? Ora, eu no...
    - Mas  absolutamente necessrio, chrie! - replicou Rubi com uma risada.
    Esmeralda ps as mos na cintura.
    - E por que  "absolutamente necessrio"?
    - Porque, minha querida, ns no mandamos exatamente um convite para Adam Winter. Ns mandamos um desafio. E ele, sendo homem, percebeu o desafio implcito no 
convite e aceitou-o.
    A despeito de sua obstinao, Esmeralda esboou um lento sorriso. Nada a agradava mais que a idias de um desafio. Sobretudo quando envolvia Adam Winter.
    O que no se dava conta  que suas reaes eram transparentes e que as irms haviam se aproveitado disso para convenc-la.
    Enquanto almoavam, Carmelita esquentou gua e encheu a banheira. E, quando terminaram, Prola disse: 
    -  hora de voc se despir.
    - Est bem. Assim que sarem - respondeu Esmeralda.
    - Ns no vamos sair, chrie. Ficaremos aqui para ajud-la - protestou Rubi.
    - No  preciso. Tomo banho sozinha desde que era menina.
    - Talvez - interveio Jade com suavidade. - Mas voc nunca tomou um banho como este.
    Ela e Carmelita estenderam algumas toalhas de linhos ao redor da banheira. Depois de tirar a roupa, Esmeralda mergulhou na banheira com um suspiro. Jade passou-lhe 
um sabonete perfumado com essncia floral e ela se esfregou vigorosamente. A seguir, Rubi e Prola lavaram-lhe os longos cabelos.
    Logo que ela saiu da banheira, Carmelita ofereceu-lhe uma grande toalha de linho que estivera sendo aquecida perto do fogo.
    - Como se sente, chrie? - indagou-lhe Rubi.
    - Maravilhosa. Como uma princesa em um conto de fadas...
    - Ah, mas o conto de fadas mal comeou - disse Prola com um sorriso.
    - Agora vamos subir e ver que mgica poderemos conjurar - declarou Jade.
    
    Mgica. Era bem isso que suas irms estavam fazendo, pensou Esmeralda ao sentar-se diante do espelho. As trs mulheres iam e vinham ao redor dela. Sua pele foi 
perfumada e hidratada at ficas lisa e macia como seda.
    Seus cabelos cor de fogo foram desembaraados, escovados e enxugados com toalhas. Porm, escov-los somente no era suficiente para ajeitar a massa de cachos.
    - Vamos prend-los com grampos - sugeriu Prola, erguendo a massa de fios e estudando a imagem de Esmeralda no espelho.
    - Austero demais - opinaram as outras.
    - Podemos fazer um coque no alto da cabea - props Jade, e enredou os cabelos ruivos.
    - Muito formal - replicou as outras.
    - Que tal prend-los do lado? - perguntou Rubi, enquanto atava a cabeleira com uma fita prateada, deixando que as mechas cascateassem sobre um dos seios de Esmeralda.
    - Perfeito! - elogiaram todas, sem dar ouvidos ao protesto de Esmeralda.
    - Agora, vamos s roupas de baixo - comandou Jade.
    Rubi puxou a toalha que cobria Esmeralda e examinou-a por um momento.
    - Com um corpo desses, ela no precisa usar corpete - avaliou.
    - Que escndalo! - desaprovou Prola.
    Mas a opinio de Rubi prevaleceu, e Esmeralda sentiu-se grata por no ter de usar o incmodo adereo. Ergueu os braos e deixou que as irms a ajudassem a vestir 
a chemise e as anguas.
    - E minhas botas? - quis saber.
    - Use esses sapatos que lhe compramos - ofereceu Prola, e mostrou-lhe um par de delicados sapatos forrados. 
    Ela obedeceu. Depois foi a vez de colocar o vestido. As trs irms a cercaram e ajudaram. Depois que a fileira de botes de cristal foi fechada e a longa saia 
alisada, recuaram para apreciar o resultado.
    - Perfeito! - avaliou Jade. - Mas ficou largo na cintura. - Ela ento atou uma faixa de cetim prateado para dissimular o excesso de tecido.
    - O decote est muito baixo - queixou-se Esmeralda.
    - Est como deve ser. S precisamos de um colar - assegurou-lhe Rubi.
    Esmeralda apanhou a corrente e o pingente, que deixara sobre a penteadeira. Prola colocou a jia em seu pescoo e estudou o efeito no reflexo do espelho.
    A incrustao de esmeralda e nix brilhou no colo nu.
    - Minha nossa... - foi tudo que Prola conseguiu dizer.
    - Voc est... linda - elogiou Rubi.
    - Pois acredito que Adam Winter ficar de queixo cado - resumiu Jade com orgulho.
    - Adam? De queixo cado? - Esmeralda sorriu. - Isso eu gostaria de ver!
    - Agora, o toque final - disse Jade, pegando um pequeno frasco de perfume.
    Devidamente perfumada, Esmeralda semicerrou as plpebras e respirou fundo. Cheirava as flores do campo.
    - Agora precisamos nos aprontar. Nossos convidados devem chegar dentro de pouco tempo - urgiu Prola.
    - Convidados? - Esmeralda franziu o cenho.
    - Esquecemos de lhe dizer, querida. Convidamos tambm Cal, o xerife e seu tio Chet, para que Adam ficasse  vontade.
    - Vocs se esqueceram de me dizer... H algo mais de que se esqueceram? - perguntou Esmeralda contrariada, e j ia sentando na beira da cama quando Prola a 
deteve.
    - Voc no pode se sentar. Vai amassar o vestido!
    - Est dizendo que terei de passar a noite toda de p? - Ela horrorizou-se.
    - Claro que no! Quando for a hora do jantar, poder sentar-se  mesa. Mas, at l,  melhor que fique de p.
    Esmeralda foi dominada por uma onda de pnico.
    - E o que devo fazer at Adam chegar?
    - Estude seu reflexo no espelho. E pratique um pouco seu sorriso - sugeriu Jade.
    - Meu... sorriso?
    - Oui. Deve sorrir de uma forma sedutora - ensinou Rubi com voz aveludada.
    Depois, as trs irms deixaram-na sozinha. Esmeralda viu-se ento apavorada. Por Deus, como permitira que isso acontecesse? Como  que as irms poderiam sequer 
imaginar que aquela noite seria divertida? Pois ela estava passando maus bocados! J sentia um bolo no estmago e at um pouco de falta de ar...
    Ao distinguir o som de cascos de cavalos, correu para a janela e, com o corao aos saltos, observou enquanto Adam apeava e amarrava sua montaria.
    A distancia, ouvia-se a aproximao da charrete de Chester Pierce e do cavalo do xerife Regan.
    Mas foi a viso de Adam que a deixou paralisada. A seguir, ele desapareceu, e sua voz grave soou  soleira quando Carmelita foi abrir-lhe a porta.
    - Seorita Esmeralda, seu convidado chegou - chamou a governanta, segundos depois, aos ps da escada.
    De repente, Esmeralda sentiu-se nua dentro daquele vestido. Cobriu o colo com a mo nervosamente. Ora, teria de suportar o olhar de Adam a noite inteira... Com 
um suspiro, relanceou o olhar para seus trajes habituais que estavam sobre a cadeira.
    Teve um impulso de arrancar o vestido e enfiar-se nas calas e na camisa desbotada, to confortveis e... seguras.
    Mas j era tarde demais. Respirou fundo e saiu do quarto. A no teve mais tempo para hesitaes: as irms j a esperavam no corredor e arrastaram escada abaixo.
    Prola usava um vestido amarelo-claro, de gola alta e mangas longas. Jade, um vestido chins de seda verde. E Rubi, um vestido vermelho que lhe moldava as curvas 
sinuosas.
    Antes de Esmeralda pudesse abrir a boca para protestar, foi empurrada para a sala de estar, onde Adam as aguardava, postado diante da lareira.
    
    Adam olhava com ar ausente para o fogo. Perguntava-se o que dera nele para aceitar aquele convite. A ltima coisa de que necessitava no momento era de semelhante 
distrao. Havia um perigoso matador  solta e um predador que ameaava seu rebanho. No conseguira descobrir ainda se ao atentados a bala e os ataques a suas reses 
tinham alguma conexo. Fosse como fosse, precisava ficar alerta.
    E, no entanto, a perspectiva de rever Esmeralda fora tentadora demais para que ele resistisse. Alm disso, consolava-o saber que seria um mero jantar. Saborearia 
a comida de Carmelita, desfrutaria a agradvel companhia das irms Jewel e voltaria para casa...
    Esse foi o ltimo pensamento coerente que Adam foi capaz de formular.
    Quando se virou, viu trs belas mulheres aproximando-se da porta. A viu Esmeralda. E depois no viu mais nada, pois s teve olhos para ela.
    - Esmeralda... - Adam tomou-lhe a mo nas suas. Estava to bonita, que quase lhe tirava o flego. Parecia uma princesa. - Voc est... maravilhosa.
    Mal falou, e achou suas palavras totalmente vazias, inapropriadas.
    - Obrigada. E voc tambm est muito... distinto - retribuiu Esmeralda, admirando-lhe o terno escuro e a camisa branca em cujos punhos se via um par de abotoaduras 
caras.
    Ela nunca esperaria v-lo assim. Era uma faceta de Adam que desconhecia completamente.
    - Eu estava olhando esse retrato. Era sua me? - perguntou-lhe ele.
    Sobre a lareira havia um quadro que mostrava uma jovem mulher de olhos verde e cabelos cor de fogo. Era bonita, mas, na opinio de Adam, nem de longe to bonita 
quanto a mulher de carne e osso que estava a seu lado.
    - Sim - respondeu Esmeralda. - Mas quase no me lembro de minha me. Sempre que olho para esse quadro,  como se estivesse diante de uma bela desconhecida.
    - Mas voc  a imagem dela.
    O rosto de Esmeralda iluminou-se com um sorriso.
    - Verdade?
    - Verdade. Especialmente com esse vestido.
    O sorriso dela se apagou. Ento era s o vestido que Adam admirava? Bem, pouco importava. Guerra era guerra.
    Nesse momento, as vozes animadas de Chester Pierce e Quent Regan soaram no vestbulo. Instantes mais tarde, eles entraram na sala de estar. Ao verem Adam, estacaram 
tensamente, sem saber ao certo como agir.
    Cal, entretanto, tivera a tarde inteira para acostumar-se  idia de se senta  mesa com Adam. Estendeu-lhe a mo e praticamente murmurou:
    - Ol, Winter.
    - Cal...
    Os dois trocaram um aperto de mo formal que, ao menos, serviu para descontrair um pouco o ambiente.
    Nisso, Cal viu Esmeralda e ficou um momento sem ao.
    - Esmeralda! Voc est linda! Parece uma rainha. Eu... nem sei o que dizer.
    A reao dela no foi nada sutil ou graciosa. Em vez de ficar lisonjeada, plantou as mos na cintura.
    - Pois perca as esperana de me ver sempre vestida assim. Eu jamais conseguiria montar um cavalo enfiada numa roupa dessas!
    Mais que depressa, Prola, Jade e Rubi ficaram entre os dois e comearam a desempenhar o papel de anfitris. Logo, puseram todos  vontade. Com simpatia e bom 
humor, serviram clices de cherry aos convidados, e no demorou para que o grupo entabulasse uma conversa mais amena.
    - Sei que hoje no  seu aniversrio, Esmeralda. A que devemos a honra de seu convite? - indagou Chester Pierce.
    - Bem... - hesitou ela.
    - A ns - socorreu-a Rubi, com um sorriso deslumbrante que fez todos os homens na sala se derreterem. - Antes da nossa partida, Esmeralda queria nos dar a oportunidade 
de conhecer os cidados mais proeminentes de Hanging Tree.
    - Parece que vocs esto se dando muito bem - comentou secamente o xerife Regan, que vinha observando a camaradagem entre as quatro irms.
    Em resposta, Prola deu o brao a Esmeralda.
    - Voc no acreditaria nas coisas que aprendemos umas sobre s outras.
    Esmeralda corou e olhou para os sapatos novos enquanto a irm apertava-lhe a mo.
    Quando Prola se afastou, Adam perguntou-lhe:
    - Que coisa?
    - Apenas... coisas - respondeu Esmeralda, evasiva. Censurou-se a si mesma pela prpria inaptido. Sempre que Adam estava por perto, as palavras pareciam lhe 
faltar...
    Quando Carmelita anunciou que o jantar estava pronto, Chester Pirce deu-lhe o brao. Ela sentiu-se um pouco aliviada por afastar-se de Adam e poder relaxar um 
pouco. Porm, olhou por sobre o ombro e viu Adam dar o brao a Jade. E, sem quere, sentiu uma ponta de cime que a deixou bastante embaraada.
    - Oh, eu nunca tinha visto esta sal! - exclamou Prola, quando entraram na sala de jantar.
    A grande mesa estava coberta com uma toalha de linho branco. Os talheres de prata e os copos de cristal reluziam na claridade dourada dos candelabros e do lustre 
que pendia de uma viga macia.
    - Meus pais costumavam fazer as refeies aqui. Depois que mame morreu, todos preferimos comer na cozinha - explicou Esmeralda.
    - Desta vez, voc se superou, Carmelita - disse Cal, servindo-se de carne.
    A seu lado, Prola procurava escolher as iguarias menos temperadas. Jade e Rubi, por outro lado, pareciam apreciar os pratos condimentados da mexicana.
    - Vou lhe ensinar algumas receitas de minha me - disse Jade a Carmelita. - So pratos bem apimentados.
    - Pois aposto que as receitas da minha terra so ainda mais apimentadas - comentou Rubi.
    O xerife ergueu os olhos de seu prato.
    -  por essa razo que a Louisiana tem mulheres to interessantes?
    Rubi endereou-lhe um sorriso devastador.
    - Talvez, xerife Regan. Mas estou certa de que h muitas outras razes.
    - Ora, ora, Quent. Parece que voc est ficando vermelho como uma pimenta! - provocou Cal, rindo.
    O xerife baixou o rosto para o prato, no sem antes dar uma ltima espiada em Rubi. Ela era muito atraente, mas, disse a si mesmo, era tambm a mulher errada 
para um homem de gostos simples como ele.
    Tendo terminado de comer, todos se demoraram mais um pouco  mesa.
    - Digam-me, no esto se aborrecendo em uma cidade pequena como Hanging Tree? - Chester perguntou polidamente s irms de Esmeralda.
    - Nem um pouco - Jade respondeu, para surpresa dele. - Poderamos ficar aqui para sempre. H tanto para ver!
    - E Prola est me ajudando a organizar a contabilidade da fazenda - contou Esmeralda.
    - Vocs duas esto trabalhando nas contas? - ele estranhou. - Mas ser que isso  sensato, minha querida? Afinal, seu pai nunca quis que estranhos se inteirassem 
de sua contabilidade.
    - Prola no  uma estranha, tio Chet. Ela faz parte da famlia.
    - Bobagem. No se preocupem com essas contas. Deixe sua irm aproveitar a estada na fazenda de uma maneira mais agradvel.
    Prola dez um gesto de protesto.
    -  um prazer ajudar Esmeralda.
    Chester Pierce ia replicar algo, mas nisso Carmelita escancarou as portas da sala de estar e chamou-os para tomar licor.
    Todos se acomodaram nas poltronas e sofs.
    Adam ergueu seu clice.
    - Vamos fazer um brinde - props.
    - A que brindaremos? - perguntou Esmeralda.
    - A Joseph Jewel - disse Cal.
    - E  sua herana - ajuntou Adam.
    - Refere-se  fazenda? - Esmeralda quis saber.
    - No. Refiro-me - ele disse com brandura - a voc, Prola, Jade e Rubi. Porque, atravs de vocs, seu pai viver para sempre. Vocs sero a continuao dele 
nesta terra.
    Esmeralda sentiu os olhos marejados. Era verdade. Se agora se apercebia do preciosos presente que o pai lhe deixara.
    Sua filhas.
    Irms dela.
    Graas a Prola, Jade e Rubi, ela nunca mais teria de viver na solido.
    
    
    Captulo 17
    
    - J est na hora de eu voltar  cidade - disse o xerife. Deixei Charles sozinho e, a esta altura, ele j deve estar dormindo o sono solto na minha cadeira. 
- Ele virou-se para o banqueiro: - Voc est pronto, Chester.
    - D-me um minuto.
    Pierce foi at onde Esmeralda e Adam estavam.
    - Querida, permita-me levar o livro de contabilidade da fazenda. Assim, poderei devolv-lo amanh e aprontar a folha de pagamento dos pees em dois dias.
    - Nada disso.  muita gentileza sua preocupar-se, mas para mim  questo de honra aprontar essas contas.
    Assim dizendo, Esmeralda beijou-o na face, deu-lhe o brao e acompanhou-o at a porta. No vestbulo, entregou-lhe seu casaco e seu chapu. Depois virou-se para 
Regan. - Estou muito contente que tenha vindo, xerife.
    Regan sorriu, apertou-lhe a mo e saiu, seguido de Chestre Pierce.
    - Jos acabou de chegar para me buscar. Boa noite para todos - despediu-se Carmelita.
    Adam, Esmeralda e as irms agradeceram-lhe o jantar. A governanta, encabulada, acenou-lhes e saiu.
    - Acho que est na minha hora tambm. Amanh terei de acordar cedo - disse Cal.
    - Voc se importaria se o acompanhssemos at o alojamento? Indagou-lhe Rubi.
    - Para que? - espantou-se Prola.
    Mas a irm de Nova Orleans dirigiu-lhe um olhar de reprimenda e indicou discretamente Adam e Esmeralda.
    - Oh, claro - Prola concordou depressa. - Uma passeio para tomar ar fresco nos faria muito bem.
    Num piscar de olhos, Cal afastou-se com as trs irms.
    Adam fitou Esmeralda, achando graa da maneira nada sutil com que Prola, Jade e Rubi haviam sado de cena.
    - Bem, parece que ficamos sozinhos. Voc planejou tudo isto com antecedncia?
    Esmeralda corou violentamente.
    - No. Minhas irms cuidaram de todos os preparativos. Eu apenas segui as instrues.
    - Certo. E qual  o prximo passo agora?
    Ela baixou o rosto.
    - Acho que sorrir sedutoramente para voc...
    - Ah.
    O tom de voz de Adam j dizia muito, e Esmeralda sentiu-se gelar.
    - Isso poderia ser muito perigoso - disse ele e, mesmo sem olh-lo, Esmeralda soube que estava muito prximo.
    - Perigoso? Por qu? - ela perguntou, e ergueu o rosto para encar-lo.
    Ele desligou os dedos na curva de seu ombro nu, fazendo-a estremecer.
    - Porque, mesmos sem sorriso sedutores, eu tenho vontade de tocar voc sempre que estamos sozinhos.
    Adam pousou as mos em seus ombros e puxou-a para si. Inclinando-se, depositou beijos midos em seu colo exposto. A presso dos dedos dele aumentou de repente 
em sua carne macia.
    - Mas eu no confio em mim mesmo quando estou sozinho com voc, Esmeralda. Quando a toco, quero mais...
    As mos fortes escorregaram para os braos dela, atraram-na para mais perto.
    - Oh, o que devo fazer com voc, Esmeralda? - sussurrou-lhe ao ouvido.
    Ela podia sentir a evidencia do desejo dele, podia ouvir-lhe a voz embargada, que indicava quando se esforava para manter o autocontrole.
    Adam traou uma trilha de beijos em seu ombro e deteve-se no pescoo. Sem pensar, Esmeralda atirou a cabea para trs e suspirou. Ele continuou depositando beijos 
errticos no colo, nos ombros, no pescoo, enquanto suas mos comearam lentamente e acariciar-lhe os seios, estimulando os mamilos at que ficassem tmidos.
    - Ah, Esmeralda...
    Ele ento beijou-a com sofreguido, sorvendo a doura de sua boca, at que ambos ficassem ofegantes.
    - voc me enfeitiou - Adam murmurou de encontro a seus lbios. - Eu no consigo pensar. E no consigo parar... Desde que voc apareceu nesta sala, eu vejo diante 
de mim um anjo. Um anjo irresistvel.
    Os olhos cinza obscureceram-se ao percorrer o corpo de Esmeralda. Ele apertou-a nos braos.
    - Eu gostaria de arrancar seu vestido e possu-la aqui mesmo.
    As suas palavras, Esmeralda ficou rgida.
    Sem entender sua reao, Adam ergueu o rosto para fit-la.
    - O que foi, Esmeralda? O que h de errado?
    - ... sou eu. - Ela desvencilhou-se e recuou um passo. Ah, como lhe doa afastar-se assim, quando o queria tanto! Mas tinha de faz-lo. No podia mentir. No 
para ele. -  isto - concluiu, apontando para o vestido.
    - No entendo.
    - Oh, Adam? No percebe? Esta no sou eu, mas apenas uma iluso. Nada disto sou eu. O jantar o carter, as conversas polidas e este vestido. No fui eu que o 
escolhi. Minhas irms o compraram para mim na cidade.
    O tom dele suavizou-se.
    - Eu sei.
    Esmeralda arregalou os olhos
    - Sabe?
    - Claro. Mas que mal h em usar belas roupas? Enquanto soubermos quem somos e o que somos, no vejo nenhum problema nisso.
    - Eu me sinto ridcula. Tentei fingir que era sofisticada como minhas irms. E agi como se o amor fosse uma espcie de jogo de salo, com vencedores de um lado 
e vencidos do outro.
    - Voc sabe que no  nada disso. - Ele afagou-lhe o rosto. - E eu tambm, O amor verdadeiro no faz caso de roupas caras, dinheiro ou do que os outros pensam. 
Quem ama s quer o melhor para a pessoa amada.
    Amor. Eles estava falando de amor verdadeiro.
    - Ada, por que... - Esmeralda teve que fazer uma pausa, pois sentia um n na garganta. - Por que estava me evitando?
    Ele deixou a mo cair.
    - Porque ns no fomos feitos um para o outro - disse, e sua voz traiu uma profunda emoo.
    Esmeralda ia protestar. Ele silenciou-a, pousando o indicador em seus lbios.
    - E agora que pude conhecer um pouco melhor a maneira como voc vive, tive a confirmao disso.
    - No compreendo...
    - Talvez porque sempre tenha sido muito protegida por seu pai no passado. Ou talvez porque haja tantas coisas que deixei para trs no meu passado. Seja l como 
for,  melhor eu me afastar de voc.
    - No quero que se afaste, Adam.
    Ele meneou a cabea.
    - Naquele dia, no estbulo, voc estava certa. Se algo tivesse acontecido entre ns, poderia prejudic-la. No v? Precisa se guardar para um homem especial, 
que seja digno de uma mulher como voc.
    - E se eu j tiver encontrado esse homem?
    - Ah, agora quem  que est se iludindo? - replicou ele com voz dura. - Este terno  um resqucio do meu passado. Hoje eu sou apenas um homem que trabalha duro 
e sabe manejar uma arma. E paguei caro por isso. - Seu tom abrandou-se quase imperceptivelmente. - No deixe ningum mud-la, Esmeralda. Voc  bela e surpreendente, 
to indomvel quanto esta terra. Voc merece o melhor. Sei que um dia vai encontrar algum  sua altura.
    Adam calou-se, olhando-a longamente. Fez meno de tocar-lhe o rosto, mas a seguir pensou melhor e desistiu.
    Ele girou sobre os calcanhares e saiu, deixando-a petrificada de choque. Esmeralda viu-o abrir a porta, ouviu seus passos na varanda e, minutos depois, o som 
dos cascos de seu cavalo. E continuou ali, paralisada.
    Pouco depois, quando as trs irms retornaram, a sala estava deserta. No primeiro andar, a porta do quarto de Esmeralda estava trancada. E embora elas batessem 
e chamassem seu nome, no houve resposta.
    
    Adam galopou furiosamente. Seus pensamentos eram to sombrios quanto a noite que se adensava.
    Fora melhor assim. Rpido. Definitivo.
    Aquela noite quase fora sua runa. Esmeralda estava linda. Encantadora. E vulnervel. E quando ele lhe dissera o que achava que ela precisava ouvir, Esmeralda 
parecera magoar-se.
    Se ao menos no fosse uma mulher to sem artifcios... Mas no: todas as suas emoes estavam bem ali, para quem quisesse ver.
    Adam preferiria morrer a feri-la. Entretanto, um dos dois precisava ser forte e racional o bastante para perceber o erro que seria entregar-se a tais sentimentos. 
Esmeralda merecia um futuro brilhante ao lado de um homem que pudesse lhe proporcionar o mesmo que o pai lhe havia dado.
    Chegando s suas terras, ele deixou o cavalo no curral e foi andando at a cabana s escuras. Ficou contente de Zeb estar em Poison Creek com o rebanho. No 
estava para conversas aquela noite.
    
    Ajoelhada em rente  janela, Esmeralda contemplava as estrelas. No saberia dizer h quanto tempo estava ali. Horas talvez. Ou apenas minutos. Parecia-lhe, porm, 
uma eternidade.
    A saia do vestido estava amarfanhada sob suas pernas. Ela nem notou. O quarto mergulhara na escurido e a temperatura estava caindo agora que o fogo da lareira 
havia se extinguido. Mas Esmeralda pouco se importava com isso.
    Ela se dava conta de que o momento que estava vivendo chegava a ser pior que a morte de seu pai. Quando perdera o pai, fora dominada pela fria e pelo desejo 
de vingana, que a impeliam  ao. Mas a dor que havia se instalado em seu corao essa noite era pior que o luto. Deixava-a prostrada, angustiada, incapaz de tomar 
qualquer atitude.
    Seus olhos estavam secos. No chorara e no iria chorar. Sentia-se vazia, derrotada, anestesiada.
    Adam Winter no a queria. Era tudo muito simples. Os sentimentos dela no eram correspondidos. Era preciso aceitar esse fato e continuar a viver.
    Fechou os olhos. No era possvel continuar a viver. Adam havia se transformado em sua vida. Aquele homem calado, forte, cheio de segredos tinha arrebatado seu 
corao. Depois a rejeitara.
    As palavras dele ainda ecoavam dolorosamente em seus ouvidos: ns no fomos feitos um para o outro... talvez porque sempre tenha sido muito protegida por seu 
pai no passado. Ela decerto no sabia tanto quanto Jade sobre as relaes entre homens e mulheres. No era, porm, nenhuma criana.
    Num impulso, levantou-se e comeou a andar de um lado para o outro. Sua ndole naturalmente inflamada comeou a levar a melhor sobre seu estado de prostrao. 
E ela recordou ainda outras palavras de Adam: talvez haja tantas coisas que deixei para trs no meu passado... quem ama s quer o melhor para o ser amado.
    Esmeralda parou de andar. O que significava tudo aquilo? Por acaso Adam havia decidido que no estava  altura dela?
    Claro. Como no percebera isso antes?
    - Oh, Adam... como pude ser to cega? - disse em voz alta, com o corao cheio de angstia.
    Com gestos nervosos, comeou a desabotoar o vestido, arrancando alguns botes na pressa que estava de se despir. Livrou-se das e enfiou rpido um cala e uma 
camisa. Colocou as botas, a jaqueta e, apanhando o rifle, virou-se para a porta. Jade, Prola e Rubi j no a chamavam mais. Mas pareceu-lhe ouvir cochichos do outro 
lado da porta. Pensando melhor, Esmeralda calou a fechadura da porta com uma cadeira e deslizou para fora da janela. 
    Minutos depois, j montava sua gua, galopando em direo s terras de Adam.
    
    Adam estava deitado na cama, com um dos braos sob a cabea. Tinha um cigarro aceso entre os lbios e, embora suas plpebras estivessem cerradas, no dormia. 
Na realidade, estava mais desperto do que nunca, e a tenso que crescia em seu ntimo tornava-se quase insustentvel.
    Ele devaneava. Via a si mesmo e a Esmeralda, juntos, comeando uma vida num lugar distante. Ao mesmo tempo, seus pensamentos eram atormentados pelas lembranas. 
Ele no podia mudar seu passado. E nem seu futuro com Esmeralda.
    Atirou o cigarro ao fogo e, ouvindo a aproximao de um cavalo, levantou-se de um salto. Empunhou o rifle e colocou-se  parede, espiando por uma e colou-se 
 parede, espiando por uma fresta na parede.
    Quando reconheceu Esmeralda, escancarou a porta.
    - O que est fazendo aqui sozinha? Onde esto seus pees?
    Ela ignorou-o. Apeou e amarrou o cavalo a uma cerca antes de dirigir-se  cabana.
    Adam ento explodiu:
    - Sua teimosa! H um pistoleiro  solta e ele est s esperando uma oportunidade como esta. - Ele puxou-a impaciente pela manga da camisa. - Voc sabe quais 
so as regras.
    Inesperadamente, Esmeralda sorriu-lhe de forma provocativa.
    - Decidi seguir o seu exemplo e quebrar as regras.
    - O que...
    Ao perceber o olhar determinado dela, Adam soltou-a e retrocedeu. Esmeralda seguiu-o para o interior da cabana e fechou a porta atrs de si. Agora que chegara 
ali, todo o seu tumulto interior parecia ter-se aquietado, dando lugar a uma estranha... expectativa.
    Ele encostou o rifle  parede e, como se precisasse colocar um pouco de distncia entre ambos, cruzou a sala. Sem saber o que fazer com as mos, apanhou uma 
acha de madeira e lano-a ao fogo.
    Esmeralda limitou-se a olh-lo. Adam estava sem camisa, com os cabelos despenteados.
    - Algum sabe que voc est aqui? - ele perguntou.
    - No.
    - Vou me vestir levarei para casa.
    Assim dizendo, virou-se e pegou a camisa jogada sobre uma cadeira. Mas, ao ouvir Esmeralda, imobilizo-se de imediato:
    - No vou para casa, Adam. Vou ficar aqui.
    Ela aproximou-se e tocou-lhe as costas. Adam retesou-se, mas no se voltou.
    - Impossvel. No pode ficar aqui.
    - Por qu?
    Esmeralda pousou a mo em seu ombro e roou a face em suas costas.
    - Porque... - Ele fez uma ligeira pausa, pensando na melhor maneira de afast-la dali. - Porque tenho mais o que fazer alm de bancar a ama-seca de uma menina 
apaixonada.
    - Menina! - Esmeralda deu um passo para trs. Observou quando Adam se virou devagar. Projetou o queijo para a frente, na familiar pose de desafio. - Foi por 
isso que fugiu esta noite? Estava com medo de uma menina?
    Exasperado, Adam cerrou o punho.
    - Devo lembr-la que no fugi.
    Ao ver a mudana em sua atitude, ela sentiu-se mais segura. Sabia muito bem levar a cabo uma boa briga.
    - Fugiu, sim. Como se o diabo em pessoa estivesse nos seus calcanhares.
    Embora Esmeralda usasse as roupas de sempre, tudo que Adam via diante de si era o voluptuoso corpo feminino, que o vestido havia enfatizado. Piscou um par de 
vezes, tentando expulsar aquela viso como se fosse uma miragem.
    - No foi por medo que fugi.
    - Oh, est bem - Esmeralda pousou a mo no peito amplo, sentiu sob os dedos as batidas de seu corao. - Foi pelo nobre desejo de me salvar de mim mesma.
    Adam j no sabia se lhe restavam foras para resistir. Em todo caso, fez uma ltima e herica tentativa. Segurou-lhe o pulso e repeliu-a, como se o toque dela 
o desagradasse.
    - No me restou alternativa, pois parece que voc no tem o mnimo bom senso para se preservar.
    Esmeralda esboou um lento sorriso. No fora at ali para ouvir um no.
    - E se eu no quiser me preservar?
    - Esse  o ponto. Algum tem que zelar por voc.
    Ficando na ponta dos ps, ela aproximou os lbios dos dele. Tudo foi to rpido, que Adam no teve tempo de recuar. Seu corpo reagiu de forma puramente fsica. 
Sem pensar, cingiu-a e beijou-a. No podia mais ficar longe dela. No podia mais conter as emoes que cresciam em seu mago.
    Estava perdendo o controle. Perdendo o controle...
    Respirou fundo e imobilizou-se. No deveria permitir que aquilo continuasse, ou seria a runa para ambos.
    - Est bem, Esmeralda. Admito que gosto de beij-la. Mas voc no  irresistvel. Agora deixe-me lev-la para casa.
    Por um momento ela se sentiu derrotada. Chegou mesmo a ensaiar alguns passos em direo  porta. E ento, de repente, virou-se e tornou a se aproximar.
    - Voc disse que no me acha irresistvel. Mas penso que est mentindo, Adam.
    Sem desviar o olhar, levou a mo  frente da camisa e comeou a desaboto-la com gestos deliberados.
    - O que est fazendo, mulher?
    - Provando que voc  um grande mentiroso.
    Ela despiu a camisa.
    - Pare com isso, Esmeralda.
    - Pois tente me fazer parar.
    A voz dela soou baixa e aveludada, e envolveu-o como uma carcia. Adam estremeceu. Quando deu por si, estava enredando os dedos nos cabelos vermelhos e trazendo-a 
para junto de si.
    -  isto que quer? - perguntou com voz rouca, antes de cobrir seus lbios num beijo selvagem.
    Mas, se pensava que iria intimid-la, enganava-se. Em vez de se retrair, Esmeralda amoldou seu corpo ao dele e sussurrou:
    - Sim, Adam. Isto... e mais.
    - Voc no sabe o que est fazendo - ele murmurou, apertando-a nos braos potentes e mordiscando-lhe o lbulo da orelha.
    - No. Mas voc sabe. E vai me mostrar o que tenho de fazer.
    Esmeralda fez meno de despir a combinao. Adam, porm, segurou-lhe a mo, levando-a aos lbios e beijando-a com infinita ternura. Fitou Esmeralda com uma 
intensidade abrasadora.
    - Compreenda que depois no haver volta.
    - Eu no me importo - ela disse baixinho, e Adam perdeu-se nas profundezas de seus olhos verdes.
    - Ento que Deus nos perdoe. Porque voc no tem idia do que acaba de provocar em mim, Esmeralda...
    
    
    Captulo 18
    
    - No sei se conseguirei me refrear por muito tempo - ele murmurou. - Eu a desejo tanto e, agora que est aqui, de livre e espontnea vontade...
    - Shh. No quero que se refreie. Eu s quero voc.
    Ela tocou-lhe os lbios e ofereceu a boca para um beijo.
    Adam emoldurou-lhe o rosto entre as mos. Com um suspiro, roou os lbios na fronte dela, em suas plpebras, nas faces. Beijou-lhe a ponta do nariz, beijou-a 
na boca.
    - Esmeralda, Esmeralda... - sussurrou seu nome, como uma carcia.
    Diante de Adam, ela se sentia bela e desejvel. Era uma sensao inebriante...
    Com a ponta da lngua, ele acompanhou o contorno de sua orelha, mordiscou-lhe o lbulo. Esmeralda riu baixinho, de puro deleite, ao experimentar uma sucesso 
de arrepios. Mas, no momento seguinte, o riso deu lugar a um gemido quando Adam resvalou os lbios em seu pescoo. Ela deixou a cabea pender para trs e segurou-se 
languidamente nos ombros dele. Suas pernas fraquejaram, tinha medo de perder o equilbrio, colhida que estava por uma onda de vertigem...
    Como se lesse seus pensamentos, ele puxou-a para o cho. Estiraram-se no tapete rstico, perdidos nos braos um do outro.
    A cabana estava silenciosa, iluminada apenas pelo fogo. Adam examinou a mulher aninhada em seu peito. Na claridade do fogo, ela parecia uma criatura etrea, 
com os cabelos refulgindo com a mesma intensidade das chamas, os olhos verdes lanando centelhas mgicas, a pele muito branca que lembrava a alvura da porcelana.
    Ele lutou contra a paixo impetuosa que o dominava, que ameaava roubar-lhe toda a razo. Tinha to pouco a oferecer a Esmeralda... Mas havia uma coisa que poderia 
lhe dar. Faria tudo para que sua primeira vez fosse tudo o que ela esperava. E muito mais.
    Esmeralda percebia como ele continha seu desejo e isso s lhe aumentava a excitao. Retribui s caricias de Adam com total abandono. Os beijos tornaram-se mais 
ardentes  medida que ele comeou a explorar o corpo curvilneo. Impaciente, despiu-lhe a combinao e beijou-lhe os seios. E Esmeralda gemeu alto, um pouco surpresa 
com as deliciosas sensaes que Adam lhe despertava.
    A intensidade de sua prpria reao assustou-a e, involuntariamente, ela se retraiu. Adam captou o medo em seu olhar e, no mesmo momento, moveu as mos com mais 
vagar, at v-la relaxar. Beijou-a com delicadeza, sem exigir nada. Esmeralda foi embalada por um prazer indizvel, como se estivesse num sonho. Respondeu aos pacientes 
estmulos de Adam com uma renovada confiana.
    Confiana. Ele pressentiu sua mudana de atitude e exultou intimamente. No se tratava de uma rendio. De uma mulher indomvel como Esmeralda, jamais desejaria 
uma mera rendio. O que desejava era toda a paixo, todas as promessas que ela trazia dento de si.
    Agora, enquanto a despia, sentiu o fogo que a consumia. Esmeralda j no estava quieta ou serena. Agora todo o seu ser evocava ardor, impetuosidade, fora. E 
ela lhe pertencia, pensou Adam com possesividade. Ela lhe pertencia.
    Contemplou-a  luz do fogo. Seu corpo nu era ainda mais belo do que Adam ousara imaginar. O corao dele batia descompassado quando Esmeralda buscou instintivamente 
os botes de sua cala. Ficaram frente a frente, ajoelhados, os corpos unidos em um abrao, molhados de suor. O extico perfume dela embriagou-o como um vinho caro, 
atordoou-lhe os sentimentos. Desejava-a mais que tudo no mundo.
    Apossou-se da boca de Esmeralda com um beijo selvagem. De incio, ela surpreendeu-se com o sbito mpeto de Adam. Mas logo a seguir, quando seu prprio mpeto 
acordou e se igualou ao dele, retribuiu o beijo com renovado ardor.
    Esmeralda jamais esperara encontrar tamanha paixo em um homem. Era um misterioso labirinto de sensaes e desejo, que pouco a pouco se descortinava. E Adam 
era capaz de despertar-lhe a mesma paixo com um simples toque, um simples beijo.  medida que suas carcias tornaram-se mais encimas, ela foi conhecendo novas faces 
do desejo. 
    - Adam, por favor... - gemeu, quando j no podia mais refrear a tenso que brotava em seu mago e exigia alvio.
    Com a lngua, os dentes e as mos, ele a alou a novos pices de prazer. Com a ponta dos dedos, enlouquecendo-a de xtase.
    Esmeralda comeou a toc-lo tambm, fez com que estremecesse e arquejasse. Satisfeita por aquele novo poder que descobria em si mesma, curvou-se para beij-lo 
no ombro, no peito e mais abaixo, da mesma forma como Adam a havia acariciado.
    At aquele momento, ele havia se controlado. Agora que sentia a paixo dela equiparar-se  sua, estava finalmente livre para dar vazo  necessidade primitiva 
que se apossava de seu ser. Livre para fazer tudo o que tivera vontade de fazer desde a primeira vez em que a vira. Livre para lhe dar a eternidade de um momento 
de amor.
    Com m novo ardor, Adam beijou-lhe o corpo inteiro, explorou cada recanto secreto, cada ponto sensvel. Para Esmeralda, o mundo havia se reduzido quela cabana, 
quele homem. Sentiu a carne rija dele contra a sua, penetrando-a, vibrando... Abraou-o com fora, murmurou seu nome incontveis vezes, enquanto deixava escapar 
gemidos abafados. E, sem se dar conta, comeou a mover-se no mesmo ritmo que ele, primeiro devagar, depois mais rpido e mais rpido, numa espiral ascendente, num 
abismo, numa exploso de cores e sons.
    Juntos, alcanaram o sol, a lua e as estrelas. Chegaram ao pice de tudo e, lentamente, iniciaram a jornada de volta  terra.
    Ficaram deitados, muito quietos, seus corpos molhados se suor, trmulos pela violncia do xtase que haviam compartilhado.
    Devagar, o ritmo furiosos dos dois coraes que pulsavam em unssono aquietou-se, at se normalizar.
    - Mau Deus, Esmeralda... - murmurou Adam, beijando-lhe a fronte. - Eu no queria machuc-la.
    - Voc no me machucou - ela disse baixinho, e acrescentou com uma ponta de riso na voz: - No muito.
    Mas ele no notou o gracejo que permeava suas palavras.
    - Como pude ser to egosta? Voc era virgem e eu a possu no cho, como um vaqueiro bbado.
    - No, Adam. Foi experincia mais maravilhosa de minha vida. ... sempre assim?
    Ao ouvi-la ele sentiu que seu corao falhava uma batida. Depois transbordou com uma sensao de triunfo, pois havia conseguido satisfaz-la.
    - Nem sempre respondeu, e beijou-lhe a ponta do nariz. Rolou para o lado, aninhando -a nos braos. - Mas, quando duas pessoas sentem o que ns dois sentimos, 
 sempre maravilhoso.
    - E como est se sentindo, Adam?
    - Como o homem mais afortunado do mundo. Sabe h quanto tempo eu esperava este momento?
    - Desde que me viu pela primeira vez.
    Ele sorriu, roou os lbios em seus cabelos.
    - E como  que sabe disso?
    - Voc me contou. No estbulo.
    Adam apertou os lbios e franziu o cenho ao recordar a cena. Tivera de recorrer a todo o seu autocontrole para afastar-se dela naquele dia.
    - Mas como podia me querer? - quis saber Esmeralda. - Voc estava na priso eu havia ido procur-lo para vingar a morte de meu pai.
    - No sei... Talvez eu no resista a uma mulher que veste roupas de vaqueiro e saca uma arma do cano da bota.
    Esmeralda estava rindo agora, e o som de sua voz aqueceu o corao de Adam. Sabia que, ultimamente, ela tivera poucos motivos para rir. Comovido, estreitou-a 
contra o peito e beijo-lhe os lbios. Esmeralda afastou-se um pouco para fit-lo.
    - Eu realmente pretendia atirar em voc - disse, ficando sria. - Estou muito contente que tenha me impedido a tempo.
    Adam sorriu.
    - Eu tambm.
    Ela endereou-lhe um sorriso cheio de malcia.
    - Sem voc, eu nunca aprenderia as coisas maravilhosas que acabou de me ensinar.
    - Oh, no tenho dvida de que haveria muitos vaqueiros dispostos a tomar meu lugar...
    Embora as palavras de Adam fossem entremeadas de riso, ele sentiu uma ponta de desconforto ao imaginar outro homem abraando-a daquela forma.
    Esmeralda meneou a cabea.
    - Eu jamais teria permitido que outro homem se aproximasse de mim, Adam. Meu pai me ensinou que certas coisas so inevitveis. E  assim que me sinto em relao 
a ns dois. No faz sentido lutarmos contra isso. Voc  meu destino. E eu sou o seu.
    Ele beijou-a de leve nos lbios.
    - Est querendo dizer que estou inapelavelmente preso a voc?
    - Receio que sim...
    Num impulso, Esmeralda sentou-se. Seus cabelos esparramaram-se sobre o peito de Adam. Ela ento segurou as mechas macias e fez com que deslizassem preguiosamente 
no peito dele. Os olhos cinza toldaram-se numa nova onda de desejo, e Esmeralda sentiu todo o poder que exercia sobre ele. Aquele homem, to forte e determinado 
a ponto de enfrentar uma dzia de oponentes sem demonstrar medo, estremecia ao seu mero toque. Com uma segurana recm-adquirida, ela acariciou-o com as mos e com 
os lbios. Queria lev-lo a novas fronteiras de prazer, v-lo perder o controle e murmurar seu nome em um rasgo de paixo.
    Com as plpebras semicerradas, Adam a olhava. O corpo de Esmeralda era firme e curvilnio, com seios empinados e uma cintura to fina que ele poderia facilmente 
abarc-la com as mos. Sua pele clara era marcada de sardas, e ele tinha vontade de beij-la uma a uma.
    - Feiticeira - sussurrou. - Voc tem noo do que est fazendo comigo?
    Ela sorriu-lhe enigmaticamente.
    - Espero que seja o que me dispus a fazer quando sa de casa.
    - Ah, ? O que?
    - Seduzir voc.
    Adam passou os braos em torno dela e apertou-a contra si. Seus lbios se encontraram quando murmurou:
    - Nesse caso, saiba que alcanou seu objetivo plenamente...
    Rolando sobre ela, cobriu-a com seu corpo e os dois foram arrebatados por uma nova torrente de prazer, dessa vez ainda mais intensa.
    
    A escurido persistia no firmamento. Mas os primeiros raios de sol j se insinuavam no horizonte com uma plida luminosidade.
    Durante a noite, Adam havia carregado Esmeralda para sua cama. Os dois, porm, haviam dormido pouco. O ardor que os consumia parecia insacivel. Amaram-se repetidamente, 
ora com violenta paixo, ora com delicada ternura.
    Esmeralda estava de costas para ele. Adam envolvia-a com os braos, tendo passado uma perna sobre o quadril de Esmeralda. Escondera o rosto na curva do ombro 
dela, e seu hlito morno fazia-lhe ccegas no pescoo, provocando-lhe arrepios.
    Ela flutuava numa espcie de limite entre o sono e a viglia, invadida por uma sensao de paz. No queria nada alm daqueles preciosos momentos ao lado de Adam, 
confortada nos braos fortes. Com um suspiro, aconchegou-se a ele.
    Seu movimento despertou-o. Adam estreitou-a. A palma calejada encontrou o seio rijo e ficou ali. Ao seu toque, o mamilo intumesceu-se, e Adam comeou a acarici-lo 
preguiosamente. Com a mo livre, palmilhou a parte interna da coxa Del, enquanto mordiscava-lhe a nuca.
    Esmeralda gemeu baixinho, deliciada, Adam intensificou as carcias, excitando-a cada vez mais. Ela quis virar-se, mas a perna dele imobilizava-a.
    - Adam...
    - Shh.
    Ele continuou espalhando beijos errantes em seus ombros, em seu pescoo, ao mesmo tempo em que movia os quadris com sensual lentido. Depois, posicionando o 
membro ereto entre as coxas macias, penetrou-a sem parar de acarici-la.
    Esmeralda virou o rosto para olh-lo, e suas bocas fundiram-se em um longo beijo. E, ainda abraados, os dois mergulharam novamente no sono.
    A luz do dia j clareava o interior da cabana pelas frestas das paredes quando Adam acordou. Vendo que o fogo estava prestes a se apagar, ele alimentou-o com 
mais algumas achas. Enquanto se ajeitavam sob as cobertas, ela tocou com a ponta do dedo uma cicatriz que lhe ia do ombro ao quadril.
    - Que tipo de ferimento deixaria uma cicatriz dessas? - perguntou.
    No mesmo instante, ele se retesou.
    - Perdoe-me, Adam. No quis ser indiscreta. Mas no suporto a idia de saber que algum o machucou.
    - Isso foi h muito tempo. No tem mais importncia.
    Esmeralda encarou-o fixamente.
    - Tudo o que lhe acontece me importa. Ser que no percebe? Eu amo voc, Adam.
    Amor. Ele ficou perplexo. Por uma frao de segundo, foi incapaz de falar. Aquela simples palavra despertava-lhe um turbilho de sentimentos. Sentimentos que 
nunca esperar reviver.
    - No devia me amar, Esmeralda - conseguiu dizer por fim. - No  sensato. E certamente no  seguro. 
    - Porque o pessoal da cidade tem medo de voc?
    Adam fez um gesto negativo. Apoiou-se no cotovelo e acompanhou o contorno dos lbios dela com a ponta do polegar.
    - Porque coisas terrveis aconteceram a todos aqueles que eu amei.
    - No compreendo - disse Esmeralda, com expresso preocupada.
    Respirando fundo, Adam preparou-se para falar. Ao se dar conta de quanto Esmeralda confiava nele, viu-se na obrigao de retribuir essa confiana.
    - Estou me referindo  minha famlia em Maryland.
    Ela limitou-se assentir mudamente, receosa de proferir uma palavra que fosse. Havia algo no olhar de Adam que nunca vira antes. Era um misto de fria clera e 
dor.
    - Minha famlia viveu na mesma comunidade por trs geraes, a comear pelo meu av paterno. Quando veio a guerra, meus irmos e eu tomamos partido da faco 
do Norte.- Adam hesitou um momento. Quando voltou a falar, baixou a voz quase imperceptvel: - A guerra foi um episdio infernal. Mas tivemos sorte. Meus irmos 
e eu lutamos e sobrevivemos. Voltamos ento para cs. Tudo o que queramos era esquecer os horrores do campo de batalha. E, no entanto... descobrimos que a guerra 
no havia realmente terminado. O dio ainda persistia.
    Esmeralda esperou pacientemente que ele tomasse flego e prosseguisse.
    - Pouco depois do nosso regresso, numa noite, fomos atacados. Recebi um golpe de machado e fui abandonado para sangrar at morrer.
    - E sua famlia?
    - Todos mortos. Minha me, meu pai, meus irmos... minha esposa e meu filho.
    Por um momento, ela prendeu a respirao, chocada demais para falar.
    - Oh, Adam... deve ter sido horrvel! Ouvi muitas histrias sobre os grupos de soldados que no se conformavam com o fim da guerra.
    - Minha famlia no foi morta por soldados. Talvez tivesse sido mais fcil aceitar tamanha violncia da parte de estranhos. Mas foram os nossos vizinhos que 
perpetraram o crime. Homens e mulheres que havamos conhecido a vida inteira. Gente a quem meu pai emprestara dinheiro nos tempos difcies e a quem minha me ajudara 
como parteira. Gente que meus irms e eu tnhamos auxiliado nas pocas de colheita, quando as chuvas ameaavam arruinar a safra.
    Esmeralda balanou a cabea devagar. No conseguia acreditar no que ouvia.
    - Por qu, Adam?
    - s vezes, a explicao para certas coisas  mais simples que se imagina. Fomos trados por pessoas em quem havamos confiado a vida inteira. Pessoas que haviam 
se posicionado contra o Norte. No podiam vingar-se do pas inteiro por sua derrota. Mas podiam culpar-nos. ramos um alvo fcil.
    Aps um longo silncio, Esmeralda disse:
    - Graas a Deus, voc sobreviveu.
    - A parte mais dura foi ter de enterrar as pessoas que eu mais amava no mundo. E saber que eu continuaria vivendo sem elas. S que nem longe previa o que ainda 
estava por vir.
    Esmeralda sentou-se, alarmada.
    - O que aconteceu depois?
    - Eu fiquei cego de dio. S pensava em vingana. Acabei preso por atacar meus vizinhos. Os crimes deles nunca foram punidos. Houve um julgamento,  verdade, 
mas era minha palavra contra a deles. O juiz jamais daria crdito a um prisioneiro acorrentado.
    Ao recordar-se de como Adam parecera enfurecido no tribunal de Hanging Tree, Esmeralda compreendeu como devia ter-lhe sido penoso aceitar os grilhes novamente. 
    Ele respirou fundo e continuou.
    - Quando fui solto, no suportei mais viver perto daquela gente miservel. Fui para o Mxico, onde conheci Zeb. L lutamos juntos e, quando decidi tentar a sorte 
no Texas, ele me acompanhou.
    Agora Esmeralda o fitava com os olhos marejados. Adam secou-lhe as lgrimas com um gesto terno.
    - Est chorando? Por minha causa? Eu no mereo suas lgrimas, Esmeralda. - Ouvindo-o, ela desatou a chorar.
    - Voc  o homem de mais valos que jamais conheci, alm de meu pai. No suporto pensar em quanto sofreu...
    - Shh. J acabou. A guerra. A dor. A solido - ele sussurrou-lhe.
    Esmeralda soluou.
    - Sim... - disse com voz embargada. - O sofrimento acabou. Para ns dois.
    Ela beijou-o como se selasse uma promessa. Com se naquele beijo houvesse o blsamo que curaria as velhas feridas de ambos.
    
    
    Captulo 19
    
    - Fiz caf - avisou Adam enquanto apanhava uma camisa limpa e cruzava a soleira com o rifle em punho. Coloque a trava na porta depois que eu sair.
    Esmeralda alcanou-o para dar-lhe um beijo rpido.
    - Se demorar muito para tomar banho, posso surpreend-lo com um caf completo.
    - No tenho muito tempo... - Ele beijou-a e empurrou-a suavemente para dentro. - Alm disso,  melhor deixar que eu cozinhe. Quero estar vivo esta noite para 
fazer amor com voc.
    O som da gargalhada de ambos preencheu a pequena cabana. Esmeralda cerrou a porta e ficou  janela olhando-o afastar-se, com o andar seguro e relaxado que lhe 
era to peculiar. Ela mal podia esperar que voltasse.
    Sozinha, examinou a pequena sala, encontrando ali vestgios do passado de Adam. Uma pea de linho, com os nomes Caroline e Adam bordados; havia uma data tambm, 
maio de 1860. A Dara de seu casamento.
    Esmeralda imaginou Caroline, uma mulher pequena e confiante, capaz de organizar uma bela casa, cozinhando iguarias e costurando roupas finas. Surpreendeu-se 
ao perceber que no sentia cimes ou mal-estar. Adam tinha direito de guardar suas reminiscncias. Mas, doravante, ela queria fazer parte de sua vida.
    Folheou a Bblia surrada, leu ali o nome dos pais e dos irmos de Adam, de sua esposa e de seu filho. Agradava-lhe saber que ele crescera no seio de uma famlia 
unida. Visualizou Adam com o filho nos braos e pensou que, uma semana antes, imagin-lo com uma criana ter-lhe-ia sido impossvel. At ento, julgara-o um pistoleiro, 
um fora-da-lei. Agora, porm, sabia que Adam era o homem mais ntegro e sensvel que jamais conhecera.
    Alisou as cobertas da cama, e suas mos demoraram-se nas dobras, de onde ainda emanava calor. Seu corao transbordava de ternura pelo homem que compartilhara 
com ela no s seu amor, mas tambm seu sofrimento mais profundo. Esmeralda tinha certeza de que os dois conseguiriam deixar o passado para trs e concentrar-se 
no futuro.
    Juntos. Aquela palavra a comovia. Juntos encontrariam o pistoleiro que assassinara seu pai e agora os rondava. E descobririam sua motivao. Se soubessem por 
que o pai fora morto, no seria difcil chegar o culpado.
    Agora que Adam lhe contara seu passado, ela conseguia compreender por que se solidarizara com seu luto. A idia de que ele houvesse perdido toda a famlia em 
um massacre brutal fazia-a estremecer. E seu desalento voltava-lhe  memria: Fomos trados por pessoas em que havamos confiado a vida inteira.
    Confiado a vida inteira... Por Deus... Como ela pudera ser to cega?
    Esmeralda praguejou violentamente. O motivo para a morte do pai estivera bem diante dela o tempo todo. E no era s sua vida que corria perigo. Prola tambm 
estava vulnervel a um ataque. E jade e Rubi...
    Escreveu um bilhete s pressas e vestiu a jaqueta. Correu para o curral, montou no cavalo e partiu a galope.
    
    Adam lavou-se rapidamente nas guas geladas. Quando chegasse a primavera e a temperatura subisse, traria Esmeralda ali. E poderia fazer amor com ele nas margens... 
em cada centmetro daquelas margens...
    Ao perceber a aproximao de um cavalo, apanhou o rifle. Porm, logo viu Zeb e relaxou.
    - Devo avis-lo de que temos visitas na cabana.
    - Visitas, hein? - O velho ajoelhou-se  beira do riacho e bebeu gua nas mos em concha. - Seria por acaso uma gata selvagem de cabelos vermelhos?
    - Seria.
    - Eu bem que me perguntei se a moa no teria pernoitado aqui. Acabei de v-la passar como um raio na estrada.
    Adam imobilizou-se com as mos no boto da camisa.
    - Passar como um raio?
    - . Ela parecia estar com uma pressa danada.
    - Que direo Esmeralda seguiu? - perguntou Adam com um mau pressentimento.
    _ Acho que estava indo para casa.
    Adam agarrou o rifle e correu para a cabana. Leu o bilhete de Esmeralda. A no perdeu tempo: calou as botas, pegou munio e foi selar seu cavalo. E, todo 
o tempo, praguejou contra cada precioso minuto que estava perdendo.
    
    Esmeralda incitou a montaria, curvando-se na sela. Tinha de chegar  fazenda o mais rpido possvel. Tinha de chegar ao escritrio do pai antes que...
    Um tiro ecoou nas colinas. A bala atingiu o solo, a poucos centmetros dos cascos e Sunrise. A gua assustou-se, empinou. Esmeralda conseguiu equilibrar-se e 
sacou a arma. Outro disparo quase a atingiu.
    Isso foi s um aviso. O prximo tiro no falhar. Largue a arma - disse-lhe uma voz masculina.
    Sem alternativa, Esmeralda obedeceu. O pistoleiro saiu de trs de uma rocha.
    - Quem  voc? - ela perguntou.
    - Redmond, se  que isso lhe interessa - respondeu o desconhecido com displicncia. Arrancou-lhe as rdeas das mos e atou-lhe os pulsos com movimentos precisos 
e rudes.
    Esmeralda engoliu em seco.
    - Para onde pretende me levar?
    - Voc faz perguntas demais.
    - Eu sei quem o contratou - ela disse de chofre.
    O estranho encolheu os ombros com descaso. Seu tom era impessoal, soturno. Tratava-se de um matador de aluguel, disposto a fazer qualquer coisa em troca de dinheiro. 
    - Ento sabe mais do que eu, dona.
    Assim dizendo, partiu a galope, puxando a gua de Esmeralda. Dentro de poucos minutos, os dois deixaram a estrada e se internaram em um territrio isolado, que 
mais parecia um labirinto de rochas.
    
    - Cal, precisamos falar com voc - disse Prola, aflita. Atrs dela vinha Jade e Rubi.
    Ele fora chamado s pressas enquanto ainda dormia. Sonolento e despenteado, franziu o cenho.
    -  melhor que seja um assunto importante.
    - No sabemos par onde Esmeralda foi. Arrombamos a porta de seu quarto e ela no est l. A cama nem foi desarrumada. Achamos que passou a noite fora.
    Cal olhou para cada uma das irms.
    - Esmeralda no deu nenhuma pista de seu paradeiro? 
    As trs fizeram um gesto negativo.
    - Ela se trancou no quarto ontem, depois do jantar. Fomos cham-la, mas no abriu a porta - contou Jade com uma nota de preocupao na voz.
    - Vocs ouviram alguma coisa anormal durante a noite?
    - No. Nada - disse Prola.
    Jade refletiu um momento.
    - Eu pensei ter ouvido o som de cascos de cavalo - admitiu. - Mas podia ter sido um dos pees.
    - Talvez ela tenha ido para as terras de Adam Winter - sugeriu Rubi.
    Cal estreitou os olhos. Fitou-a com desconfiana.
    - Por que diz isso?
    Sua expresso era to ameaadora, que Rubi ficou intimidada.
    - Porque... - Ela umedeceu os lbios, escolhendo as palavras com cuidado. - Esmeralda gosta de Adam.
    Cal explodiu.
    - Era s o que me faltava! A tola no teve nem o bom senso de ficar com medo! H um pistoleiro  solta que pode muito bem ter sido contratado por Adam Winter. 
E ela sai  noite para um encontro romntico, indo para os braos de um homem que talvez seja um assassino!
    - Adam Winter no  um assassino - protestou Prola, muito ressabiada.
    - Ento voc no passa de uma tola tambm.
    Exasperado, o capataz virou-se e saiu. Decorridos poucos minutos, ele e um grupo de pees partiam a toda velocidade para as terras de Adam, enquanto um dos vaqueiros 
era despachado para o posto do xerife. Cal queria convocar a lei quando finalmente tivesse oportunidade de vingar a morte de Joseph Jewel.
    
    Esmeralda fora deitada e amarrada no cho. Por mais que se debatesse, no conseguia se mover. Aparentemente, seu raptor fora alertado quanto ao esprito combatido 
dela e tivera o cuidado de no lhe dar nenhuma oportunidade de escapar.
    Ah, se ao menos pudesse afrouxar um pouco a corda e pagar uma arma...
    Parou de se contorcer de repente, pois lhe ocorreu uma questo. Por que o pistoleiro a havia prendido ali, em um local to visvel? Por que no a escondera atrs 
das rochas? A resposta veio-lhe de sbito: ela no seria a nica vtima naquele dia. Seria usada como isca para atrair uma segunda vtima.
    Adam. Por Deus, Adam...
    
    Carmelita e as trs moas olharam ansiosamente para a porta ao ouvir as batidas.
    - Esmeralda! - gritou Prola, pulando da cadeira.
    - A seorita entraria sem bater - lembrou-lhe a governanta.
    Todas foram at a porta, para encontrar Chester Pierce parado na varanda.
    - Bom dia, seor Pierce. A seorita Esmeralda no est aqui foi logo dizendo Carmelita.
    Ele sorriu.
    - No estou de visita. Vim apenas apanhar o livro de contabilidade.
    Mas Esmeralda lhe disse que ainda no terminamos as contas - replicou Prola.
    - Isso no tem importncia. - Ele entrou e dirigiu-se para o escritrio. - Como banqueiro, lido com cifras todos os dias. Terminarei as contas em dois tempos 
e prepararei o pagamento dos pees.
    - Creio que Esmeralda no iria gostar que levasse o livro durante sua ausncia - alertou Prola, indo atrs dele. No sabia at que ponto deveria insistir, pois, 
afinal, aquilo no lhe dizia respeito.
    Chester contornou a grande mesa, fechou o livro e enfiou-o debaixo do brao. Com um sorriso satisfeito, virou-se para as mulheres paradas  porta do gabinete.
    - No se preocupem. Venho cuidando dos negcios de Joseph Jewel muito antes de vocs nascerem. Agora, se me do licena, preciso voltar  cidade.
    Elas se entreolharam com impotncia. Sabiam que Esmeralda pretendia organizar a contabilidade sem a ajuda dele. Ao mesmo tempo, nenhuma delas se sentia  vontade 
para contrariar um amigo ntimo da famlia.
    Aproveitando-se de sua hesitao, Chester despediu-se e partiu.
    
    Adam foi forado a rastrear os passos de Esmeralda, o que retardou sua busca. Mas, quando descobriu onde o raptor dela havia apeado, o resto foi relativamente 
simples. Simples demais at.
    Ele tentou ignorar o vago pressentimento de que estava prestes a cair numa armadilha. No havia tempo para refletir e preparar um plano. A vida de Esmeralda 
corria perigo, e a prpria segurana dele no era nada perto disso... porque dali por diante, a vida sem Esmeralda no faria nenhum sentido.
    Deteve-se em uma trilha sinuosa paralela s margens de Poison Creek. Fora naquele ponto que Joseph Jewel sofrera o ataque fatal. Adam ergueu o rosto e olhou 
para a elevao de Window's Peak, com uma sensao de perigo iminente. Avanando mais um pouco, divisou uma figura estirada no cho, a cerca de cem passos dali.
    P um longo momento, ficou paralisado de puro terror.
    Teria chegado tarde demais?
    Ento ouviu a voz dela e sua pulsao se acelerou.
    - Volte, Adam!  uma armadilha!
    Ele pegou o rifle e pulou do cavalo, buscando cobertura atrs de uma rocha.
    Mais uma voz desconhecida o deteve:
    - Vou gostar disso. Vai ser mais divertido que um duelo, Winter. Ouvi dizer que voc  o melhor gatilho das redondezas. Mas tenho ordens a cumprir. A menos que 
largue a arma, serei forado a matar a mulher.
    A frieza na voz do matador fez Adam ter certeza de que o outro no estava blefando. Endireitando-se, jogou o rifle no cho e levantou as mos acima da cabea.
    - Muito bom, Winter. Gosto de homens que sabem obedecer ordens.
    Adam caminhou at onde Esmeralda estava e ajoelhou-se a seu lado, ignorando o vulto que sara de seu esconderijo e se aproximava.
    - Aquele desgraado machucou voc? - perguntou a Esmeralda.
    - No, Adam. Lamento que tenha cado nesta armadilha. Agora sei quem matou papai. Eu guardava uma prova contra ele em casa e...
    Ela calou-se e ambos olharam para a figura encasacada que viera postar-se a seu lado, apontando-lhe uma pequena e letal pistola derringer.
    - Voc sempre foi um amigo ntimo da famlia. Ns confivamos em voc - disse Esmeralda, com voz trmula. - Como pde nos trair, tio Chet?
    
    Frustrado, Cal imprecou violentamente quando encontrou a cabana de Adam deserta. Ao sair, deparou com Zeb, que retornava conduzindo o rebanho.
    - Onde est Winter? Perguntou sem rodeios.
    O velho coou o queixo.
    - No sei... Ele partiu como raio quando soube que sua patroa havia desaparecido.
    - Esmeralda, desaparecida? - Cal agarrou-o pelo colarinho. - O que est dizendo?
    Zeb repeliu-o e alisou a camisa, cheio de dignidade, antes de responder.
    - Adam estava se banhando no rio quando soube que sua patroa tinha ido para casa. Ela deixou-lhe um bilhete. Est sobre a mesa.
    - E que dizia o bilhete?
    - No sei. No era da minha conta, por isso nem olhei.
    Cal precipitou-se para a cabana. Quando tornou a sair, ordenou que os pees o seguissem a toda pressa.
    - Esperem - gritou Zeb, indo buscar munio.-Vou com vocs.
    - Achei que isso no era da sua conta - contraps Cal, irritado.
    - Agora .
    
    - Como teve coragem de matar seu melhor amigo? - perguntou Esmeralda enquanto Adam a ajudava a levantar-se.
    Mas o banqueiro recusou-se a responder.
    Adam manteve os olhos fixos na pistola dele e disse:
    -  simples. A velha histria de sempre. Dinheiro. Cobia. Ele queria se apropriar do que seu pai ganhou com trabalho honesto e suor. E faria tudo para consegui-lo.
    Ao perceber que ele olhava para sua pistola, Pierce fez sinal para que o pistoleiro se aproximasse, at que o cano de seu rifle encostasse no peito de Adam.
    Mas, ignorando Redmond, Adam acrescentou:
    - At mataria seu melhor amigo.
    - E por que no? - replicou Pierce, cheio de desprezo. - Por que Joseph Jewel haveria de ficar com tudo para si?
    - Talvez por ele ter trabalhado duro para conseguir a riqueza que acumulou - Adam respondeu com suavidade. - Um homem precisa ser especial para fazer fortuna 
em um territrio que ainda no foi desbravado. E Joseph Jewel era um homem especial. SE voc o invejava, por que no abandonou o ramo bancrio e comprou sua prpria 
fazenda.
    Pierce riu. Sua voz soou desagradvel.
    - Eu no precisei fazer isso. Deixei que os fazendeiro cuidassem do trabalho duro e, cada ms, abocanhei um pouco do seu dinheiro. Quando eles ficaram em dificuldades, 
pude me apropriar de suas terras auferir lucros. Voc talvez no saiba - disse, com sbito orgulho -mas tenho quase tantas terras quanto Joseph Jewel tinha antes 
de ir para o outro mundo. E graas a isto - apontou para o livro de contabilidade - conseguirei ainda mais propriedades.
    Adam encarou-o com expresso severa.
    - Quanto roubou, Pierce?
    O banqueiro deu os ombros.
    - Algumas centenas de milhares de dlares.
    Esmeralda ficou atnita com a enormidade do desvio.
    - Mas Joseph podia bancar o prejuzo. - disse Pierce. - Sempre que ele viajava, eu providenciava para que suas despesas fossem altas. E consegui viver muito 
bem... por certo tempo.
    - Depois papai descobriu tudo - concluiu Esmeralda.
    Ele assentiu.
    - ... Seu pai detectou as discrepncias na contabilidade. Acho que ficou mais decepcionado comigo que propriamente preocupado com o desvio de seu dinheiro. 
Precisei agir rpido. Armei um plano...
    - E eu fui seu bode expiatrio, no ?
    Mais uma vez, o banqueiro assentiu, contente com a prpria astcia.
    - Bloqueei o curso das guas para as suas terras, com intuito de comear uma rixa pblica entre voc e Joseph. Assim, mais tarde, as suspeitas recairiam sobre 
voc. Pena que aquele juiz tenha privado a cidade de um belo enforcamento.
    Esmeralda cerrou os punhos e dirigiu-lhe um improprio.
    Mas Pierce prosseguiu, impassvel:
    - Enfim, seja l como for, tudo deu certo. Atra Joseph para o rio com o pretexto de que queria conversar sobre a questo a salvo de ouvidos indiscretos. E ele 
veio. Mas, depois, surgiu outro problema. Eu precisava destruir o livro de contabilidade para que os desvios no fossem descobertos. Contratei pistoleiros para rapt-la. 
Assim, eu poderia pagar o resgate, que somaria exatamente a quantia de dinheiro desviado. Mas no contava com a percia de Winter no gatilho.
    - E meu gado? Por que estava matando minhas reses? - perguntou Adam.
    - Para que voc falisse. Eu tenho a hipoteca de suas terras. Ficaria com elas e, assim, seria dono de toda esta parte do Texas.
    Esmeralda suspirou. Estava indignada, inconformada.
    - E fez tudo isso por dinheiro? No passa de um monstro! Quantas pessoas mais ir matar em nome de sua ambio?
    Ele sorriu calmamente e virou-se para o pistoleiro que os ouvia em silncio.
    - Quantas forem necessrias. A comear por Redmond... - Sem aviso, ele alvejou o matador, que cambaleou com um grito e tombou sem vida. - Como v no posso me 
arriscar.
    Esmeralda encolheu-se, transita de horror. E, para piorar a situao, viu a elegante carruagem de Jade vindo em sua direo. Dentro dela, iam sua trs irms.
    Pierce ficou um momento sem ao. A carruagem parou e as moas desceram, cada qual empunhando uma pistola.
    - Sabamos que vocs corriam perigo e no pudemos esperar que os pees nos acompanhassem - disse Prola, olhando de Esmeralda para Adam.
    - Podemos entrar em um acordo - disse o banqueiro depressa, dirigindo-se s trs. - Se me deixarem ir, eu darei em troca uma pequena fortuna para cada uma de 
vocs.
    Prola, Jade e Rubi se entreolharam. Esmeralda ficou com a respirao em suspenso, sem saber o que se passava na mente delas.
    - Estou avisando. Se resistirem, morrero como esses dois a - insistiu Chester, num tom ameaador.
    - No, voc  que vai morrer - replicou Jade com suavidade. - No sei quanto s outras, mas eu no quero seu dinheiro sujo. E tome cuidado, porque sei usar esta 
arma.
    Prola e Rubi aquiesceram sem pestanejar.
    Uma lgrima solitria deslizou pela face de Esmeralda. Estava comovida com a lealdade daquela trs mulheres.
    - Compreenderam o perigo que correm por minha causa.
    - Voc  minha irm. Eu correria qualquer risco por voc, chrie - garantiu-lhe Rubi.
    - Eu tambm - concordou Jade. 
    - Estamos juntas nisso - disse Prola.
    Pierce fez uma careta de desdm.
    - Quanta nobreza! Pois saibam que acabam de me dar uma nova arma...
    Com um movimento rpido, ele encostou o cano da pistola na cabea de Esmeralda.
    -Se atirarem em mim, Esmeralda morre agora mesmo! - vociferou.
    Depois de vacilarem, as trs soltaram as pistolas.
    - Assim  melhor. Muito melhor. - Pierce virou-se para Adam.- Desamarre Esmeralda.
    - O que vai fazer? - ela perguntou, alarmada.
    - Tenho um plano muito bom. Veja bem... Digamos que Winter tenha raptado vocs e eu vim salv-las. Infelizmente, cheguei tarde demais e s encontrei os corpos. 
Quando a Winter e ao pistoleiro, podem ter se desentendido por causa da partilha do dinheiro. E lutaram at a morte. No  mesmo uma histria trgica? Esta noite 
queimarei o livro de contabilidade e no restar mais nada que me incrimine.
    Esmeralda foi invadida por uma incontrolvel onda de nusea. A seu lado, Adam estudava a pistola de Pierce. Tinha de encontrar um meio de desarmar o banqueiro 
para proteger Esmeralda. E, num gesto desesperado, lanou-se sobre Pierce. Ouviu o som de um tiro enquanto suas mos apertavam a garganta do outro. Depois sentiu 
uma pontada lancinante de dor e caiu de joelhos. Discerniu ento os gritos desesperados de Esmeralda. Foi a ltima coisa que ouviu antes de perder a conscincia.
    
    
    Captulo 20
    
    O inconfundvel som de disparo reboou pela plancie como um trovo. Cal e os pees pararam de repente, viraram-se e precipitaram-se na direo dos tiros, com 
o velho Zeb seguindo-os de perto. 
    O xerife, que vinha pela estrada, apontou para uma colina distante e, instigando sua montaria, saiu a galope com seu assistente Charles.
    Todos convergiram para a pequena trilha sinuosa s margens de Poison Creek. E, enquanto avanavam, cada um deles recordava involuntariamente a horrvel descoberta 
do corpo de Joseph Jewel naquele mesmo local.
    Dobraram uma curva e estacaram diante da cena que se desenrolava mais adiante. Quatro mulheres histricas choravam e soluavam, agarradas a dois homens.
     medida que o grupo se aproximou, a cena tornou-se ainda mais incompreensvel.
    Esmeralda e Prola lutavam para afastar Adam Winter de Chester Pierce. Os dois estavam cobertos de sangue e Winter tentava estrangular o banqueiro. Quando finalmente 
as moas conseguiram apart-los, Jade e Rubi resgataram suas pistolas do cho e apontaram-nas para Pierce, obrigando-o a deitar-se no solo, com as mos na cabea. 
Gritavam-lhe toda sorte de imprecaes, de uma maneira nada feminina.
    A recatada Prola, sem se importar com as dzias de homens que agora os rodeavam, tentava freneticamente arrancar o cordo de seu corpete e no demonstrou nenhum 
pudor quando conseguiu seu intento e o corpete se abriu.
    Esmeralda debruava-se sobre Adam Winter, chorando convulsivamente enquanto lhe abria a camisa encharcada de sangue. Nenhum daqueles homens jamais a vira derramar 
nem uma lgrima sequer, e tiveram certeza de que ela estava fora de si.
    O xerife logo viu que teria de pr ordem ali.
    - Muito bem, senhoritas - gritou ao desmontar do cavalo. - Percebo que no esto lidando muito bem com esta crise. Mas  incompreensvel. Moas indefesas como 
vocs provavelmente nunca ficaram diante de um assassino. Agora, por favor, afastem-se para que eu cuide do fora-da-lei.
    Quando ele fez meno de se aproximar de Adam, Esmeralda deteve-se com um gesto imperioso.
    - No o toque. No v que ele est sangrando? O tiro pode ter sido fatal!
    - Uma punio merecida. Mas o Dr. Prentice o curar para que lhe mostremos como so tratados os criminosos no Texas.
    - No entende, xerife? - interviu Prola, puxando-o pela manga da jaqueta. - O assassino est ali...
    Ela indicou o banqueiro, que continuava deitado sob a mira de Jade e Rubi.
    Regan ficou atnito.
    - O qu? Ento Winter  inocente?
    Prola rasgou sua angua em tiras e passou-as para Esmeralda. Esta usou-as para tentar estancar o sangue que vertia do peito de Adam, enquanto explicava:
    - Chester Pierce desviava dinheiro de papai h nos. Foi por isso que no conseguamos ordenar o livro de contas.
    O rosto de Cal McCabe ficou transfigurado de clera. Antes que pudessem impedi-lo, agarrou o banqueiro pelo casaco e obrigou-o a ficar de p.
    - Voc matou meu melhor amigo? Voc assassinou Joseph Jewel?
    Chester apenas piscou. Depois levou um soco certeiro no queixo e bateu contra uma rocha. O capataz preparou-se para esmurr-lo de novo, mas Esmeralda segurou-o 
pelo brao.
    - Por favor, no faa isso. Cal! Sei como se sente... todos ns sentimos o mesmo. Eu, mais do que ningum, quero justia. Mas aprendi algo com Adam. No faa 
justia com a prprias mos. Deixe que a lei se encarregue disso.
    - Sim - disse o xerife. - Adam Winter est certo. Chester Pierce pagar pelo que fez. Ir para a forca, a exemplo do que acontece com todos os assassinos que 
so apanhados em Hanging Tree.
    O banqueiro caiu de joelhos e escondeu o rosto entre as mos ao se dar conta da enormidade de seus crimes e da punio que o aguardava.
    Esmeralda voltou para junto de Adam. E, no mesmo instante, gritou com desespero:
    - Acudam! Adam est morrendo!
    A carruagem puxada por uma parelha de cavalos brancos cruzou vales e colinas. Adam, deitado no assento de trs, cerrava os dentes cada vez que a carruagem sacolejava. 
Pelo menos, ainda no estava morto, pensou. Mas, em certos momentos, a dor era tamanha que at gostaria de estar.
    Havia um burburinho de vozes. Nada do que diziam fazia sentido. Vozes mais distantes, agudas, descontroladas. E outra mais prxima, grave. Ele a reconheceu. 
Queria tranqiliz-la, porm, no era capaz de lhe dar nenhum consolo.
    - Ada, por favor, no me deixe - Esmeralda sussurrava, abraando-o. - Eu ao suportaria perder voc.
    Ah, como ele queria viver! Mais do que tudo queria dizer a Esmeralda que lutaria para viver. Em vez disso, fechou os olhos e sentiu que sua cabea comeava a 
girar.
    - Parem a carruagem! Ele est perdendo muito sangue - desesperou-se Esmeralda.
    - Adam no parece nada bem. Nunca chegara vivo  cidade - disse Zeb. -  melhor esperarem quanto eu vou buscar o mdico. E, nesse meio tempo, vamos limpar o 
ferimento com usque, para que no infeccione...
    Adam sentiu o peito em chamas quando o lquido mbar foi vertido sobre o ferimento. Depois mergulhou em uma abenoada inconscincia.
    
    - Sorte sua ser to forte e saudvel - disse Cosmo Prentice ao terminar de fazer o curativo em Adam. A seu lado, em uma bacia, via-se a pequena bala que o acertara 
a poucos centmetros do corao.
    - Obrigado, doutor - ele murmurou.
    O mdico virou-se para os outros, que o fitavam na expectativa.
    - Winter ficar bem, S precisar de cuidados e de repouso.
    - Isso no ser problema. Eu lerei em voz alta para ele sempre que se aborrecer - declarou Prola.
    Adam tentou no gemer.
    - Ns o lavaremos e trocaremos suas roupas - disse Rubi.
    Ao ouvi-la, ele se retraiu.
    - Eu queimarei incenso e rezarei para os deuses - ofereceu-se Jade.
    - E eu lhe prepararei pratos deliciosos - garantiu Carmelita.
    Cal aproximou-se do leito e segurou a mo de Adam.
    - Gostaria que soubesse que meus homens e eu lhe somos muito gratos. Eu estava enganado a seu respeito.
    Trocaram um aperto de mo e Adam sorriu debilmente. Mas fez uma careta de dor to logo o outro se virou.
    Percebendo seu desconforto, Zeb inclinou-se  cabeceira e perguntou-lhe em voz baixa:
    - Precisa de alguma coisa?
    - Por favor, tire-me daqui.
    - Lamento, mas o doutor disse que no pode se mexer.
    - Ento... tire essa gente daqui.
    Zeb sorriu.
    - No est acostumado com tanta gratido e afeto, no ? Est bem. - Virou-se para os outros e falou em voz alta: - Vamos deixar o nosso heri descansar. O doutor 
tomar todas as providncias necessrias para que ele fique confortvel. Alm disso, acho que Esmeralda quer ficar um pouco a ss com Adam.
    Diante de argumentos to incontestveis, todos se apressaram a sair.
    Prola parou um instante  porta.
    - Quanto tempo Adam ter de ficar de repouso, doutor?
    - At que recupere as foras para caminhar - respondeu o mdico, fechando sua maleta preta.
    - Ento ns lhe daremos banho...
    - Acenderemos incenso...
    - Faremos comida...
    O Dr. Prentice fechou a porta, o som das vozes morreu. Afinal, Esmeralda e Adam ficaram sozinhos.
    O silncio foi muito bem-vindo aps todo aquele burburinho tumultuado.
    - Voc foi muito corajoso.
    - Hu-hum. Segundo suas irms... - Ele gemeu. - ... um heri.
    Esmeralda sorriu ao pensar em Jade, Rubi e Prola. Depois franziu o cenho.
    - Do modo com fala, faz a palavra heri parecer um insulto, Adam.
    - Eu estava morto de medo.
    - Medo de morrer?
    - No. De que voc se ferisse.
    Novamente, as lgrimas rolaram pelo rosto de Esmeralda. Ela fungou.
    - No sei o que est dando em mim. Eu nunca choro. - Fitou-o intensamente. - Tem certeza de que est bem?
    Ele assentiu. Esmeralda ento roou os lbios em sua fronte, com receio de machuc-lo.
    - Acha... que pode me dar um beijo melhor que este? - Adam perguntou com um dbil sorriso.
    Ela inclinou-se e acariciou-lhe os cabelos.
    - No est contente de ter arranjado uma mulher forte como eu, em vez de uma beldade plida e frgil?
    Contente? Ele se sentia o homem mais feliz do mundo...
    S que o homem mais feliz do mundo estava bastante fraco e voltou a perder os sentidos logo em seguida.
    
    Os dias transcorreram tediosamente, entre lapsos de memria. Do raiar do dia at o anoitecer, as visitas de solidariedade se sucediam na fazenda Jewel. Carmelita, 
encantada com a movimentao, no parava de preparar pratos maravilhosos para os visitantes. O xerife vinha todos os dias para trazer novas informaes do caso. 
Cal ia sempre ao quarto de Adam, assim como o Dr. Prentice, que costumava chegar coincidentemente  hora do jantar. At mesmo o jovem pastor Wade Weston passara 
a freqentar a casa.
     medida que o ferimento cicatrizava, ficou evidente quanto Adam estava irrequieto. Mal via a hora de abandona o leito. Ao mesmo tempo, ressentia-se de deixar 
Esmeralda e trilhar seu caminho solitrio. Esse era, porm, o futuro que lhe cabia. Um futuro vazio. E inevitvel.
    
    Esmeralda entrou na cozinha e imediatamente pressentiu que havia algo errado.
    - Ol, Carmelita. Por que est com essa cara?
    - o seor Winter no quer jantar. Ele est l em cima, preparando-se para partir.
    - Partir? Mas... - Esmeralda dirigiu-se para as escadas. - Venha comigo, Carmelita.
    Mal deu dois passos e encontrou Prola, que disse com um muxoxo:
    - Adam no quer que eu leia para ele hoje porque est de partida.
    - Carmelita me contou. Venha tambm.
    Ela avanou mais um pouco e deparou com Jade e Rubi, que carregavam a banheira.
    - Chrie, no vai acreditar, mas...
    - Deixe que eu adivinho. Adam no quer tomar banho porque est de partida.
    - Oui. E ele praticamente nos expulsou do quarto.
    - Homens... quando esto fortes o bastante para cuidar de si mesmos, comeam a se ressentir de todas as coisas que antes apreciavam - declarou Jade.
    O corao de Esmeralda falhou uma batida. Ser que Adam no iria mais quer-la quando ficasse curado?
    - Vamos falar com ele - falou, galgando os degraus de dois em dois.
    Foi ao quarto de Adam com passos decididos e abriu a porta sem bater. Encontrou-o completamente vestido, afivelando o cinto.
    - Aonde vai? - perguntou, com o corao disparado.
    - Estava indo procur-la para me despedir.
    Ele ensaiou um passo na direo de Esmeralda, mas se conteve. No seria recomendvel toc-la. Especialmente na frente de outras pessoas. O que tinha a dizer 
j era, por si s, bastante doloroso.
    - Vou aproveitar que esto aqui para expressar minha gratido por tudo que fizeram por mim. No fosse pela sua ajuda, minha recuperao teria sido muito mais 
lenta.
    - Mas por que no fica mais alguns dias? - indagou Carmelita.
    - Preciso retornar  minha fazenda e ajudar Zeb. No  justo deix-lo sozinho cuidando de tudo.
    - Eu compreendo. Precisa voltar para seus afazeres - disse Jade, beijando-o no rosto.
    As outras mulheres tambm o beijaram na face, e todos trocaram palavras de simpatia. S Esmeralda continuava imvel, lutando para controlar sua indignao.
    - Mas por que... - foi tudo o que conseguiu dizer.
    Adam beijou-lhe a face. 
    - Voc tem um imprio para administrar, Esmeralda. Eu j a estorvei por muito tempo.
    Ele ento saiu, seguido pelas quatro mulheres, que o acompanharam at a porta.
    Quanto a Esmeralda, permaneceu onde estava, completamente sem ao, rezando para que ele mudasse de idias e voltasse para seus braos.
    
    A cabana estava silenciosa quando Adam chegou. Zeb deveria ter sado para vigiar o rebanho. Adam depositou seu pequeno fardo no cho e acendeu um cigarro. Olhou 
em torno de si pensativo. No podia deixar de recordar a ltima noite que passara ali, com Esmeralda. Nunca conhecera to doce seduo. Ou um mpeto de paixo to 
poderoso quando ambos atingiram o clmax.
    Sentia falta dela. A ausncia de Esmeralda provocava-lhe uma pontada aguda no corao. Porm, j tivera o bastante da casa de Joseph Jewel. Precisava tomar rdeas 
de sua vida novamente. Es sua prpria casa. Custasse o que custasse.
    A solido parecia ainda mais esmagadora agora que ele havia tido uma vida em famlia, aps tantos anos de isolamento. Lembrou-se dos pais. Dos irmos, com quem 
compartilhava tantas coisas. Uma histria em comum, brincadeiras, trabalho, confidncias. E, embora conseguisse sufocar sua dor, os dias passados com Esmeralda pareciam 
ter-lhe reavivado velhas feridas.
    Percebia aquela mesma proximidade nela e nas irms. Apesar de suas diferenas, as quatro comeavam a formar laos. Laos que perdurariam ao longo dos anos.
    Se fosse em outros tempos, talvez Esmeralda e ele pudessem construir uma vida juntos. Atualmente, havia muitas diferenas a separ-los. Ela o conhecera na pior 
fase. Agora que encontrara as irms para preencher o vazio deixado pelo pai, Adam no tinha direito de interferir. Devia tocar sua prpria vida.
    O vento uivou l fora, fustigando a parede da cabana. O inverno chegava com toda fora.
    Ele julgou ouvir o som de cascos de cavalo, mas logo o silncio voltou a reinar. A porta rangeu. Adam no ligou. Fechou os olhos e lutou contra o sofrimento 
que sentia.
    - Adam. 
    Ao ouvir a voz de Esmeralda, ele descerrou as plpebras. Deparou com uma viso, Calas masculinas, jaqueta surrada, botas. Uma viso que ficaria para sempre 
gravada a ferro e fogo em sua memria.
    - No... no foi fcil para mim vir aqui novamente - ela balbuciou. - Mas eu... precisava fazer-lhe uma pergunta.
    Adam ficou alarmado com seus modos abruptos.
    - O que ?
    - Voc me ama?
    As palavras de Esmeralda ficaram pairando no ar.
    Adam poderia mentir, claro. Porm, sempre fora um homem ntegro, avesso s mentiras. E Esmeralda contava com isso naquele momento. Esperava enred-lo em sua 
prpria sinceridade.
    Ele atirou o cigarro ao fogo antes de responder:
    - Amo. Perdidamente.
    A essas palavras, to simples e to decisivas, Esmeralda deixou escapar um suspiro de alvio. Durante todo o percurso at a fazenda dele, temera a resposta que 
poderia ouvir. Mas agira estava tudo bem. Agora encontrariam um meio de sair daquele labirinto.
    - Ento por que me deixou?
    Adam virou-se para encar-la pela primeira vez.
    - Era hora de voltar para minha casa.
    - E... voc acha que h lugar para mim aqui?
    - No sabe o que est dizendo, Esmeralda. Tudo o que me espera  trabalho duro. Muito trabalho - ele replicou, meneando a cabea.
    - Isso no  resposta. H lugar para mim aqui?
    - Esmeralda...
    Ela aproximou-se. Em seu olhar transparecia a mesma determinao que Adam vira da ltima vez que fora  sua casa. Ele sentia um misto de insegurana e pnico. 
E se a magoasse? E se lhe pedisse mais do que Esmeralda teria para oferecer?
    - No sei cozinhar - disse ela, e parou a poucos centmetros de Adam. - E sou melhor selando cavalos que arrumando a casa. Mas sei cavalgar, laar o gado e atirar. 
No imagino como seja a vida da mulher de um fazendeiro. Se permitir, serei sua companheira, Adam. Dormirei ao ar livre com voc e o ajudarei a conduzir o rebanho.
    Ser que Esmeralda sabia que estava lhe descrevendo um paraso?
    A sinceridade estava bem ali, no olhar dela. Adam sentia uma necessidade imperiosa de toc-la. E medo tambm. Pois, se a tocasse, no seria capaz de parar. Naquele 
exato momento, no entanto, ao menos um dos dois deveria preservar a lucidez.
    O tom dele tornou-se inflexvel.
    - No tem noo do que est me propondo. Voc  proprietria da maior fazenda do Texas, Esmeralda. E eu, da menor. Voc abraara uma vida de trabalho rduo, 
com poucas recompensas. Ser que no percebe do que est prestes a abrir mo?
    - Oh, Adam... e renunciarei a to pouco em comparao com o que receberei! - E, antes que ele objetasse, Esmeralda ajuntou: - Alm disso, j tomei algumas precaues. 
Conversei com Cal e minhas irms. Fizemos sociedade para administrar a fazenda.
    - Isso  mesmo verdade?
    - Sim. E pensei que, j que nossas terras so vizinhas poderamos usar meus pees em alguns trabalhos conjuntos... isto , se voc no se importar...
    Ele sorriu-lhe.
    - Parece muito segura de si, srta. Jewel. E se minha resposta for negativa?
    Esmeralda afagou-lhe o rosto, provocando-lhe um estremecimento.
    - Acho que voc vai concordar quando ouvir o resto do que tenho a dizer.
    - Voltaremos quele assunto de tarefas domsticas, como cozinhar e arrumar a casa? - perguntou ele, e seu sorriso se ampliou.
    - Eu amo voc, Adam - Esmeralda sussurrou com fervor. - Nenhuma mulher o amar como eu. Envelheceremos juntos, e eu o amarei para sempre.
    O corao dele inundou-se de alegria e esperana.
    - Ah, meu Deus, eu no mereo voc, Esmeralda.
    - O que significa isso? Vai ficar comigo?
    - Significa que... - Adam puxou-a para si. - Que eu a amo mais que tudo. Amo-a tanto que preferia deixar voc a v-la renunciar ao que quer que fosse. Mas, se 
 tola o bastante para querer levar a vida simples que eu tenho a oferecer, nunca mais permitirei que se separe de mim.
    Esmeralda roou os lbios nos dele.
    - Promete, Adam?
    - Prometo. Prometo amar voc para sempre.
    - Oh, vamos procurar o reverendo agora mesmo!
    Adam a deteve quando j ia se afastando. Atraiu-a para si e cingiu-a possessivamente.
    - Amanh. Est noite, quero amar voc. J faz tanto tempo...
    Ela riu.
    - Tem certeza de que vai conseguir? O ferimento ir atrapalhar?
    Adam beijou-a com paixo e respondeu com voz rouca:
    - Isso ns j vamos saber.
    Esmeralda ouviu as batidas do corao dele, sentiu o calor do corpo msculo, aspirou seu cheiro. Silenciosamente, agradeceu ao pai, que lhe legara o carter 
firme, a coragem e a obstinao que a caracterizavam. Pois a jornada at ali parecera-lhe a mais longa de sua vida.
    Felizmente, fora bem recompensada.
    
    
    Eplogo
    
    O pequeno grupo postou-se no topo da colina varrida pelo vento. Em torno da sepultura de Joseph Jewel havia quatro novos montculos de terra cobertos de pedra. 
Uma cruz simples de madeira assinalava o tmulo de cada uma das suas falecidas esposas, cujos restos mortais haviam sido transferidos para o local.
    O reverendo Wade Weston usava sua melhor camisa e seu terno mais alinhado. O xerife Quent Regan lustrara excepcionalmente as botas e engomara os cabelos negros.
    Adam estava de p, com as mos s costas, fitando o horizonte com ar meditativo.
    Zeb, ao seu lado, indagou:
    - Est pensando em mudar de idia?
    Adam encarou-o, srio.
    - Por qu? Deveria?
    - Ela no  uma mulher fcil. Sua vida nunca mais ser a mesma - disse o amigo, levantando os ombros.
    O olhar de Adam acompanhou os movimentos da carruagem que vinha na direo deles. Sua fisionomia suavizou-se com um sorriso involuntrio.
    - No se preocupe, parceiro. J estou preparado para isso.
    Cal e uma dzia de pees apearam e apressaram-se em ajudar as mulheres a descer da carruagem. Seus vestidos difanos esvoaaram enquanto Prola, Jade e Rubi 
beijavam Esmeralda e a precediam no curto trajeto at o cume.
    Depois, havia apenas Esmeralda sozinha.
    Ela usava o vestido de casamento da me, de uma brancura resplandecente, que faiscava ao sol matinal. Um vu transparente estava preso com pentes cravejados 
 cabeleira cor de fogo, que cascateava por suas costas em cachos cuidadosamente penteados. Trazia no pescoo o pingente de nix e esmeralda, nas mos, a Bblia 
da famlia de Adam.
    Ele avano e segurou-lhe a mo.
    - Ainda h tempo para fugir - sussurrou, dando-lhe o brao.
    - E at onde eu conseguiria ir antes que me apanhasse? - Esmeralda sussurrou-lhe de volta, enquanto prosseguiam.
    - Eu a deteria antes que chegasse a seu cavalo. Arrastaria voc comigo e a prenderia com uma corrente para que nunca mais fugisse.
    - Isso  uma promessa?
    -Sim. Estou prestes a faz-la diante de toda essa gente - Adam piscou-lhe e sorriu, fazendo o corao dela bater mais rpido. - E pretendo cumprir todos os votos 
matrimoniais.
    Pararam diante do reverendo. Quando repetiram as palavras solenes de fidelidade e amor eterno, Esmeralda segurou a mo de Adam e olhou-o diretamente nos olhos. 
Viu neles amor, um amor to infinito que lhe tocava o corao e a fazia esquecer-se de toda a pompa da cerimnia, de tudo que a rodeava.
    Fora l que eles haviam escolhido para fazer seus votos. Na terra que os nutria. Cercados por pessoas queridas.
    Esmeralda pensou novamente no que os dois haviam perdido. E em tudo que haviam encontrado.
    Amor. Pela vida inteira. Famlia. Mais do que ela jamais sonhara a ter. E o amanh, o futuro, seria partilhado com seus entes queridos. Aqueles que eram os verdadeiros 
tesouros pelos quais valia a pena lutar. As verdadeiras promessas que sempre se orgulharia de manter.
    
    Fim
    
E-books Romnticos e Erticos
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